KCEKultura Centro de Esperanto · Campinas
Uma língua para aproximar o mundo.
Conheça o Esperanto por diferentes perspectivas: sua história, suas ideias e as pessoas que fazem dessa língua um espaço de encontro.
Uma ideia que atravessa fronteiras
Comunicação com respeito à diversidade.
O Esperanto foi pensado como uma língua de comunicação internacional, capaz de aproximar pessoas sem substituir as línguas e culturas de cada povo.
O Kultura Centro de Esperanto reúne materiais que ajudam a conhecer essa proposta, seus debates e as experiências de quem a utiliza.
Leitura e descoberta
Um acervo para explorar no seu ritmo.
Artigos, entrevistas e relatos sobre língua, história, cultura e comunicação internacional.
35textos reunidos
Língua e comunicação
Ideias sobre uma língua comum e o diálogo entre diferentes povos.
História e cultura
Personagens, movimentos e expressões culturais ligados ao Esperanto.
Experiências e entrevistas
Relatos de quem encontrou no idioma novas formas de troca.
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Acervo completo
35 textos, na íntegra.
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Artigos
35 artigos
00Henri Masson · França
O Esperanto Hoje
Uma apresentação do Esperanto como língua viva e instrumento de comunicação internacional.
O Esperanto Hoje
Henri Masson
FRANÇA
Finalidade:
Permitir o acesso a uma comunicação de qualidade
entre pessoas que não possuem uma língua em comum, no menor
prazo e ao menor custo. Pela própria exigência de qualidade,
seu tempo de aprendizado é de 8 a 10 vezes menor que se necessita
para qualquer outra língua. O esperanto dá uma dimensão
adicional à comunicação lingüística, mesmo
para pessoas que dominem o inglês e muitas línguas. O objetivo
primeiro do Dr. Zamenhof, criador do Esperanto, já foi por esse
motivo plenamente alcançado.
Implantação:
Em mais de cem países. Sua difusão é mais forte
na Europa Oriental, no Extremo Oriente (Japão, China, Coréia)
e na América Latina. O atual presidente da Associação
Universal de Esperanto, que sucedeu um professor universitário coreano
especialista em comércio e economia, é o ex-procurador geral
e ex-ministro da Justiça da Austrália, Kep Enderby.
A imprensa em esperanto consiste em mais de uma centena de títulos. O órgão da UEA, a revista "Esperanto", é lido em mais de 115 países; o jornal "Heroldo de Esperanto" tem assinantes em mais de 70. Lançada em 1980 pelo redator executivo de política do jornal alemão Augsburger Allgemeine e atual presidente da Associação Mundial de Jornalistas Esperantistas, a revista mensal internacional Monato é lida em mais de 65 países. Ela conta com uma rede de 150 correspondentes e colaboradores em 45 países. É importante considerar que os habitantes de inúmeros países não dispõem dos recursos de pagar uma anuidade ou uma assinatura.O número de falantes de esperanto é geralmente estimado em cerca de três milhões de pessoas (seis, de acordo com o Guiness Book 1997). Mais que o número de falantes, é a disseminação e a qualidade da comunicação que contam para uma língua internacional.
A questão das línguas constitui um problema particularmente importante nas instituições internacionais (ONU, União Européia...). Até 10 de janeiro de 1999, 132 deputados europeus (21,08%) de todos os matizes partidários, se declaravam favoráveis ao esperanto como solução possível.
Aplicações Principais:
Educação: É a única língua capaz de permitir a todos os alunos de se beneficiarem de um ensino bilíngüe real na escola. Ela oferece ainda uma propedêutica adequada ao aprendizado de outras línguas. Dada sua maior facilidade, permite ao aluno de passar do mais fácil ao mais difícil gradativamente, em muito menor tempo que qualquer outra língua, tendo acesso aos intercâmbios internacionais. O número de estabelecimentos de ensino superior onde há cursos atingia 151 em 1987, em muitos países, dentre eles a China (progressão multiplicada por cinco entre 1972 e 1992). O número de propostas de lei visando sua admissão no ensino na França passou de 2 (entre 1907 e 1974) para 7 (no período de 1975-1997).
Comunicação Científica: É a principal língua de trabalho da Academia Internacional de San Marino, que, desde seus onze anos de existência, já abriga um laureado pelo Prêmio Nobel (de Economia). A seção de esperanto da Academia de Ciências da China edita uma revista técnico-científica bilíngüe esperanto-chinês e organiza congressos científicos internacionais com o esperanto e o chinês entre as línguas de trabalho.
Economia, comércio, turismo, transportes: com a constituição relativamente recente de organizações internacionais visando a promoção do esperanto para fins econômicos e comerciais, como o IKEF (Grupo Especializado para o Esperanto no Comércio) e a TAKE-Esperanto (Associação Mundial de Construtores e Obras Públicas) take.ladomo@wanadoo.fr. Um dicionário de economia e comércio em onze línguas foi redigido a partir do esperanto. Exemplos de utilisação efetiva: Câmara de Comércio e Indústria de Colmar e Alsácia Central com quatro línguas, Comitê Régional do Turismo da Normandia com seis outras línguas, escritórios de turismo (prospectos e publicidade), redes ferroviárias de 9 países (publicidade e tabelas de horários).
Organizações internacionais, associações, bibliotecas: Escola Moderna, Amigos da Natureza, Cidadãos do Mundo, Fundo Mundial de Solidariedade contra a Fome, sem contar dezenas de associações especializadas de esperanto (profissionais, políticas, religiosas, de lazer etc.) e até na Biblioteca Nacional da Áustria. É o aspecto sócio-cultural que prima no sítio da Associação Mundial Sem-Nacionalidade (SAT).
Internet: Uma expansão muito intensa, podendo ser explicada pelas várias situações nas quais o conhecimento apenas do inglês ou até de mais línguas, não é suficiente para uma comunicação de qualidade. O aprendizado do esperanto é possível na rede, a partir de diversas línguas. A palavra chave "esperanto" fornece a lista dos inúmeros sítios Web relacionados ao esperanto, que além disso é uma das quarenta línguas utilisadas no mecanismo de busca europeu Euroseek (http://euroseek.net). Ela é usada também pelo Savvysearch. O AltaVista dá no entanto uma lista mais completa de sítios relacionados. Mesmo se são poliglotas, os usuários da Internet podem encontrar um modo de acesso mais fácil e rápido, em um nível de comunicação que surpreende quem faz a experiência. Mesmos os falantes de inglês têm a ganhar, porque essa opção evita o trabalho de se comunicar com pessoas que dominam muito mal sua língua. O centro de informação multilíngüe www.esperanto.net, em 33 línguas, contém uma enorme lista de ligações que permitem obter informações e endereços em vários países. Situados respectivamente na Hungria e na Suécia, os sítios www.esperanto.hu e www.esperanto.se/nun são uma espécie de agências de notícia do mundo falante de esperanto.
Radiofonia - Televisão:
emissões em esperanto difundidas por rádios de porte internacional,
especialmente Varsóvia, Vaticano, Roma e Viena (com retransmissão
por satélites) e também Pequim, Havana, Vilnius, Tallin,
Rio de Janeiro, sem contar as emissões em FM. Às emissões
em esperanto da rádio polonesa, difundidas quatro vezes de meia
hora por dia em ondas curtas e satélite, se junta um programa
que pode ser escutado a qualquer momento no mundo inteiro em Real Audio.
Os horários de emissão de rádio em esperanto pelo
mundo inteiro podem ser encontrados em http://osiek.org/aera.
Cursos em vídeo: Polônia, China, Albânia, Espanha
entre outros (um outro está sendo gravado nos Estados Unidos).
Intercâmbio de todas as espécies: Mais de 250 congressos e encontros a cada ano no mundo inteiro. Existem redes que permitem viajar e encontros pontos de hospedagem ou de informações em dezenas de países. As principais organizações mundiais de esperanto têm um anuário que facilita os contatos, e a imprensa em esperanto publica anúncios que permitem encontrar correspondentes.
Descobertas e viagens. O esperanto se mostra um acessório bastante útil na bagagem lingüística de quem viaja de um país ao outro, e não pode aprender todas as línguas. Autor de inúmeras obras, (entre elas Tempestade no Aconcágua) algumas escritas diretamente em esperanto, o explorador iugoslavo Tibor Sekelj o comprovou. Uma viagem de oito anos ao redor do mundo permitiu a um jovem casal francês, Bruno e Maryvonne Robineau, apreciar a utilidade do esperanto para manter um contato direto com pessoas que eles nem conheciam anteriormente e que não falavam nem inglês, nem francês, nem espanhol. Um outro jovem casal partiu em 5 de maio de 1997 de Poiroux, na França, e acrescentou o esperanto ao seu conhecimento do françês, do inglês e do espanhol para um giro pela Europa em quatro anos. Em um carroça, com sua filha Lola, com seis meses na data de partida, Gudule Le Pichon et Laurent Cuenot são recebidos por pessoas que aprenderam esperanto com uma consideração prioritária pelo aspecto humano da comunicação. Eles podem ser observados pela rede neste endereço: http://www.creaweb.fr/a.reto/gudfronto.html.
Cooperação internacional: Redes de solidariedade são organizadas com o esperanto como língua de trabalho e de intercâmbio e as campanhas de solidariedade são freqüentes no mundo do esperanto (em favor do Terceiro Mundo, da Bósnia, Kosovo).
Cultura: Mais de 110 anos de existência estabeleceram para o esperanto uma cultura, com suas tradições e usos que não param de se enriquecer: criação literária, poesia, teatro, música...
Literatura : A literatura original constitui de 60 à 75% dos mais de 30 mil títulos já publicados em esperanto. Vários novos livros surgem a cada semana. O catálogo do serviço de livraria mais importante do esperanto, em Rotterdam, oferece mais de 400 páginas de títulos sobre todos os assuntos e gêneros. O PEN Club do Esperanto foi admitido em 1993 junto ao PEN-Club Internacional, após uma rigorosa pesquisa. O valor do Esperanto nas trocas culturais foi reconhecido por duas recomendações da UNESCO (1954 et 1985).
Museus : Viena (Áustria), Gray (França), San Pau d'Ordal (Espanha).
Centros: La Chaux-de-Fonds (Suíça), Baugé (França), Bouresse (França), Stoke-on-Trent (Inglaterra), Arhus (Dinamarca), Poprad (Eslováquia), Lesjöfors (Suécia), Yatugatake (Japão)
Cursos Universitários
de Verão: : Bydgoszcz (Polônia), Kungälv (Suécia),
San Francisco State University (EUA), Hartford University (EUA).
Alguns esperantistas da atualidade
Reinhard Selten. alemão,
Prêmio Nobel de Economia (1994), membro da Academia Internacional
de Ciências de San Marino (aprendeu o esperanto ainda na juventude,
na escola).
Miloslav Vlk, arcebispo
de Praga, presidente do Conselho das Conferências Episcopais Européias,
nomeado cardeal por João Paulo II, que usa ele próprio
o esperanto em diversas ocasiões (entre outras por ocasião
de uma convenção de jovens na Polônia, em suas bênçãos
de Páscoa e Natal, e no encontro com esperantistas católicos
em um congresso em Roma, 1997).
Ingemund Bengtsson,
ex-presidente do Parlemento da Suécia.
Bakin (Pa kin), um
dos maiores escritores chineses vivos.
Harry Harrisson,
irlandês, autor de ficção científica.
Olav Reiersol, membro
da Academia de Ciências da Noruega.
Daniel Tarschys,
sueco, secretário geral do Conselho da Europa desde 1994.
Bertalan Farkas,
primeiro cosmonauta húngaro.
Istvan Nemere, escritor
húngaro, autor de numerosos romances em húngaro e esperanto.
Ralph Harry, ex-embaixador
da Austrália junto à ONU e diversos países. A sonda
espacial Voyager II, lançada no espaço em 1977, leva
o registro de uma mensagem que ele pronunciou em inglês e em esperanto.
Maxime Rodinson,
antropólogo, analista erudito do mundo árabe, autor de obras
sobre o Islã. Aprendeu o esperanto ainda bastante jovem, e depois
cerca de trinta línguas.
Kep Enderby, antigo
procurador geral e ministro da justiça da Austrália, presidente
da Associação Universal de Esperanto desde 1998.
___________________________________________________________________________________________________________________________________
* Co-autor de "L'homme qui a défié Babel" (Ed.
Ramsay, Paris). Leia outro texto escrito por ele em "Esperanto,
expressão e sentimento". Tradução do KCE com a
gentil permissão do autor.
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01Hilarina Aires · Brasil
Esperanto: uma alternativa para o choque das civilizações
A jornalista discute como uma língua comum pode favorecer o diálogo entre culturas.
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Esperanto: Uma Alternativa para
o Choque das Civilizações (*)
Hilarina Aires
jornalista
BRASIL
Hoje em dia. muito se fala em globalização de tudo: da economia, da cultura, da ciência e da técnica. Para o que se produz hoje, da prosaica laranja a sofisticados softwares, pensa-se sempre em consumidores em todo o mundo. Isso é possível graças ao progresso da ciência e da tecnologia. que encurtaram as distâncias fisicas com trens-bala e aviões supersônicos e que criaram a telemática (telecomunicações informatizadas). Essa onda de mudanças sob o signo da velocidade que ora testemunhamos tem até nome: "terceira onda", a revoluçao técnico-científica a que o cientista norte-americano Alvin Toffler se refere, considerando "primeira onda" a revolução agrícola ocorrida no período neolítico, quando a humanidade aprendeu a plantar e a domesticar animais, e "segunda onda" tanto a primeira quanto a segunda revolução industrial, sucedidas entre os séculos XVIII e XIX.
O leitor deve estar perguntando agora o que isso tem a ver com o esperanto. Peço apenas um pouco de paciência para chegar lá.
Bem, essa revoIução técnico-científica, na verdade, encurtou enormemente as distâncias físicas entre os países e até civilizações (ocidental, islâmica, indígenas, nipônica, sino-confuciana, indiana, etc.). E o que à primeira vista poderia significar mais progresso nas relações humanas em larga escala, com o fim do isolamento físico dos diferentes grupos humanos entre si, demonstra o contrário: o grande desafio de fazer esses agrupamentos conviverem com a realidade atual, que os faz estar literalmente cara-a-cara com o outro (estrangeiro), seja através da televisão, que capta imagens via satélite, seja por meio de computadores e telefones que transmitem a imagem dos interlocutores simultaneamente, sem falar em tantos outros processos de interação por meios tecnológicos a cada dia mais desenvolvidos, a exemplo daqueles que permitiram Michael Jackson gravar vídeo-clipes em diferentes países do Terceiro Mundo e misturar a cultura do "hot-dog" com os saris indianos,os tambores do Olodum e os pagodes tailandeses, numa sopa cultural batizada de "ethno-music", muito em moda nos Estados Unidos e na Europa, onde ironicamente mais existem conflitos étnicos.
Mas, como eu estava dizendo, o fim do isolamento físico entre povos diferentes gerou o novo desafio de fazer conviver pessoas de culturas tão díspares nessa "aldeia global" a que se reduziu o planeta. Samuel Huntington, no artigo "Civilizações ou o quê? Paradigmas do mundo pós-guerra fria", citado no livro Política Externa (Editora Paz e Terra), faz a seguinte assertiva:
"A política mundial está entrando numa nova fase e poucos estudiosos voltam suas atenções para o fato central da realidade que está emergindo: que a fonte fundamental de conflitos não será mais nem econômica nem ideológica. As grandes divisões da humanidade e a fonte predominante de conflitos serão de ordem cultural, o choque de civilizações dominará a política global nos anos vindouros (...). Isso vai ocorrer, em primeiro lugar, porque as diferenças entre as civilizações são fundamentais. Elas se diferenciam por sua história, idiomas, tradição, costumes, religião (...). Essas diferenças são muito mais importantes que aquelas que existem entre ideologias ou regimes políticos diferentes. Em segundo lugar, o mundo está ficando menor. As interações entre os povos de diferentes civilizações estão aumentando e com isso se ampliam os choques culturais" (grifo nosso).
Um pouco mais adiante, Huntington aponta um terceiro fator, além de outros dois que não convém citar por falta de espaço:
"(...) os processos de modernização e globalização estão separando as pessoas de suas origens locais, de suas comunidades tradicionais. Esse vazio deixado pela perda das origens, pelas mudanças rápidas e assustadoras para asa grandes massas populacionais, está sendo preenchido pelos movimentos denominados "fundamentalistas", que podem ser encontrados no islamismo, no cristianismo, no judaísmo, no budismo e no hinduísmo. Esses movimentos bem ou mal tentam recriar laços comunitários e se expandem continuamente."
É o que podemos observar, por exemplo, nos conflitos na ex-Iugoslávia, um país retalhado por grupos étnicos rivais, nas lutas separatistas entre tribos africanas, bascos na Espanha, irlandeses no Reino Unido, chechenos na Rússia, curdos no Afeganistão, entre outros que pipocam às centenas pelos cantões do mundo.
Mais uma vez, o que o esperanto tem a ver com tudo isso? - deve estar perguntando o leito. Bem, caro leitor, escrevi tudo isso para ilustrar e referendar as declarações do Manifesto de Praga. Trata-se de um documento apresentado no 81o. Congresso Mundial de Esperanto, realizado em julho passado, em Praga, do qual participaram 2972 pessoas de 66 países. Somente na ocasião do seu lançamento recolheram-se mais de 700 assinaturas, e está correndo pelo mundo, numa campanha de adesão maciça.
O documento, por si só, exprime um sentimento comum existente no seio do esperantismo internacional que reflete justamente essa tendência mundial claramente observável. Exprime também a disposição dessa comunidade transnacional de atuar mais efetivamente para, acredito eu, a minimização dos efeitos negativos desse "choque de civilizações", intensificando o uso da língua no seu cotidiano e realizando campanhas de convencimento de governos e de pessoas em particular com vistas à adoção do esperanto como língua auxiliar de comunicação, com a grande vantagem de ser essencialmente neutra.
* publicado originalmente no caderno Cultura do diário A UNIÃO (de João Pessoa, PB), de 24/11/96, e disponibilizado ao KCE pela gentil permissão da autora.
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02Claude Piron · Suíça
Mito e realidade
Claude Piron examina ideias equivocadas e aspectos concretos relacionados ao Esperanto.
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Mito e Realidade*
Claude Piron
psicólogo, professor
ex-intérprete da ONU e da Org. Mundial da Saúde
Genebra, Suíça
Quando eu era criança, diziam-me: "Não tenha medo de se perder. Use sua língua, pois quem tem boca vai a Roma". Mas mal atravessei a fronteira do meu país e defrontei-me com outra realidade: o idioma que falavam não era o mesmo que o meu!
Aconselharam-me: "Quer se comunicar com estrangeiros? Use os idiomas que você aprendeu na escola!". Mas de que maneira, se através dos idiomas que aprendemos durante anos na escola mal conseguimos balbuciar algumas frases?
Disseram-me: "Falando inglês, você será compreendido em qualquer lugar do mundo!". Mas, um dia, num vilarejo espanhol, presenciei um acidente entre dois automóveis, onde os motoristas - um sueco e um francês - em vão procuravam se entender e se fazer entender pelos policiais espanhóis. Certa vez, numa cidadezinha tailandesa, vi um angustiado turista tentar explicar o que sentia ao médico local, sem conseguir seu intento. Durante anos trabalhei para a ONU e para a OMS, nos cinco continentes, e por toda parte, fosse na Guatemala, na Bulgária, no Congo, no Japão ou em qualquer outro país, constatei que através do inglês só conseguia me comunicar com os empregados dos grandes hotéis e das companhias de aviação
Disseram-me: "Graças às traduções, culturas de todos os povos são acessíveis a todos". Mas quando comecei a comparar os textos originais com as suas traduções, encontrei tantos erros, que cheguei à triste conclusão que "tradutore... traditore".
Disseram-me: "As grandes potências querem ajudar o Terceiro Mundo, respeitando as culturas nacionais". Percebi, no entanto, que as mais fortes pressões culturais são exercidas pelo inglês e pelo francês. Em primeiro lugar, a língua do país que concede o auxílio é sempre imposta nas relações com o país que o recebe. Entretanto, inúmeros problemas surgem quando, em programas de treinamento, os técnicos dessas potências procuram, através de seus idiomas, fazer-se entender pelos treinandos, que não possuem em suas línguas locais os mais elementares livros didáticos.
Disseram-me: "A instrução pública garantirá a igualdade de oportunidades para todas as crianças". No entanto, vi, principalmente em nações do Terceiro Mundo, famílias ricas enviarem seus filhos aos Estados Unidos ou Inglaterra, com a única finalidade de aprenderem o inglês, enquanto que do outro lado vi a grande maioria da população encarcerada no próprio idioma nacional e submetida a essa ou aquela propaganda, permanecer num estado sócio-econômico inferior.
Disseram-me: "O esperanto fracassou". Entretanto vi, num vilarejo europeu, filhos de camponeses, após 6 meses de estudo do esperanto, comunicarem-se fluentemente com visitantes japoneses.
Disseram-me: "Falta ao esperanto um valor humano". No entanto, aprendi o idioma, li suas poesias, ouvi suas canções. Nessa língua comuniquei-me com brasileiros, chineses, iranianos, poloneses e até com um jovem do Uzbequistão. E eis que o outrora tradutor profissional deve confessar a vocês que essas conversas que manteve foram, sem dúvida, as mais espontâneas e profundas que, algum dia, experimentou num idioma estrangeiro.
Disseram-me: "O esperanto e a cultura são incompatíveis". Entretanto, onde quer que eu fosse, seja na Europa Oriental, na América Latina ou na Ásia,o nível intelectual dos esperantistas era muito superior ao dos seus concidadãos de mesmo nível social. E quando presenciei debates internacionais nessa língua, muito me impressiou o nível dos participantes.
Naturalmente, mencionei fatos dos quais fui testemunha. E a todos eu disse: Venham! Vejam! Existe algo extraordinário: uma língua que resolve satisfatoriamente o problema da barreira lingüística. Vi um húngaro e um coreano discutirem sobre filosofia e política numa fluência inacreditável, para quem havia aprendido o esperanto há pouco tempo. E eu vi isso e muito, muito mais...
Mas retrucaram: "Nada disso nos interessa, pois é sabido que o esperanto não é um idioma natural". Sinceramente não entendo. Quando aquilo que vai dentro do coração do homem, quando todos os seus impulsos, quando as mais sutis nuances do seu pensamento são comunicadas diretamente por meio de um idioma, dizem-me: "Esta língua não é natural".
Mas, então, o que é natural? Será, na falta de um idioma comum, a mudez de homens sedentos de diálogo? Será a incompreensão causada por um idioma feito de gestos mal compreendidos? Será a subnutrição cultural daqueles a que a diversidade lingüística impediu o acesso a obras da cultura universal? Ou será "natural" o ridículo daqueles que, após anos e anos de estudo na escola não conseguem se exprimir com clareza no idioma alheio? Vejo, isso sim, a desigualdade e a discriminação lingüística prosperarem no mundo inteiro. Vejo diplomatas e especialistas, através de incômodos aparelhos, ouvirem de vozes alheias aquilo que o seu interlocutor lhes quer comunicar. Será tudo isso, enfim, uma "comunicação espontânea "?
Das duas uma: ou querem me enganar ou estou ficando maluco!
* apresentado em 13/03/79 por Claude Piron, em nome da Associação Universal de Esperanto, no simpósio "Língua e Comunicação", patrocinado pela UNESCO.
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03Reinhard Selten · Alemanha
Uma entrevista com Reinhard Selten
Uma conversa com o economista e esperantista alemão laureado com o Nobel de Economia em 1994.
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Não apenas para ver a vitória*
Se um
jornalista deseja entrevistar uma personalidade, em geral é preciso
insistir, persistir, esperar bastante tempo e dispor de apenas alguns minutos
na agenda do entrevistado. Não foi assim com o esperantista alemão
Reinhard Selten, prêmio Nobel de Economia de 1994 por sua teoria
dos jogos: apesar de sua falta de tempo premente, ele recebeu de bom grado
alguns jornalistas do movimento esperantista, entre eles Ulrich Lins, vice-presidente
da Associação Universal de Esperanto (UEA) e o redator István
Ertl, com os quais falou num Esperanto fluente, em 10 de novembro de 94,
em Bonn.
Revista Esperanto - O senhor é pelo menos o quarto esperantista na história do Prêmio Nobel. Parece que os esperantistas recebem esse prêmio com bastante freqüência, em proporção ao número de falantes de Esperanto. Então, para receber um Prêmio Nobel, a teoria dos jogos aconselharia o aprendizado de Esperanto?
| Reinhard Selten - Aprender Esperanto talvez não ajude
nisso, mas em geral faz evoluir a vida intelectual de uma pessoa. O Esperanto
aprendido na juventude traz grande vantagem para o aprendizado de outras
línguas. A teoria dos jogos é uma teoria matemática sobre conflito e colaboração, de situações nas quais se pode favorecer ou contrariar um ao outro, ou ambos ao mesmo tempo. Ela mal pode fazer recomendações diretas, mas apenas fornecer um conhecimento de fundo. Porém ela nos dá uma melhor compreensão em situações complicadas. E ainda ajuda a compreender mais rápido novas situações de um mesmo tipo. E quem tem um melhor entendimento pode agir melhor. |
Selten: "Não pretendo me tornar uma figura pública. Quero viver minha vida como antes". |
E - No trabalho "Devo aprender Esperanto?" (1982), que o senhor publicou com Jonathan Pool, através da teoria dos jogos o senhor deu uma resposta encorajadora a essa pergunta, mas apenas no âmbito de um modelo muito limitado, não tão semelhante à realidade.
RS - Pool e eu generalizamos esse modelo de decisões pelo
aprendizado de línguas para a língua que se desejar, não
apenas Esperanto, no artigo "A distribuição de
proficiências em língua estrangeira como equilíbrio
dos jogos" (1991). Se dispuséssemos de estatísticas
suficientes sobre os falantes de diversas línguas, nós poderíamos
aperfeiçoar nosso modelo. Ele também deveria considerar os
diversos graus de domínio de uma língua, ao invés
de contar apenas com respostas do tipo "sim" e "não".
Mas sempre faltou tempo para esse aperfeiçoamento.
Além disso, os modelos de teoria dos jogos não
podem deixar de ser limitados, porque as situações reais
são tão complexas que nós não podemos nem sonhar
em analisá-las.
E - Outros teóricos de sua especialidade se ocuparam com estratégias de aprendizado de línguas?
RS - Não, ninguém além de nós, apesar de que existem inúmeras aplicações da teoria dos jogos aos mais diversos temas. Por exemplo na evolução biológica, que tem fatores facilmente quantificáveis. Especificamente, a seleção natural leva os seres vivos a um comportamento que otimiza seu sucesso reprodutivo; calculando a descendência, pode-se medir esse sucesso em números.
E - Poderia-se quantificar fatores históricos, como a mudança de prestígio ou a utilidade de uma língua influi em seu "sucesso reprodutivo".
RS - Sim. O sociolingüista William Labov descobriu por exemplo que às vezes os dialetos evoluem muito rapidamente, sob influência de fatores sociais. Numa ilha da costa leste dos Estados Unidos, Martha's Vineyard, os habitantes desenvolveram um dialeto especial quando quiseram diferenciar-se dos ricaços que começaram a vir e comprar casas de veraneio. Os dialetos são úteis para sinalizar que se pertence ou não a um determinado grupo.
E - Também esse fator de pertinência o senhor poderia colocar em seu modelo? Afinal esse modelo tem como premissa que as pessoas querem comunicar-se com o maior número possível - enquanto que neste caso trata-se da vontade de não se comunicar com alguns.
RS - A língua tem não apenas uma função comunicativa, mas também de distinção social. Esta última também pode ser útil ao falante: se você se comunica em dialeto, você está mais próximo aos demais falantes, e eles então tendem mais a ajudá-lo do que a pessoas que não falam o dialeto.
E - Parece que a teoria dos jogos encontrou sua melhor aplicação até agora na economia.
RS - Sim, mas também nesse campo ela ajuda mais a melhorar a compreensão do que fazer recomendações diretas. Quem elaborou a estrutura à qual a recomendação deve se aplicar é que pode recomendar alguma coisa. Por isso agora, quando acontecem leilões de freqüências de rádio e televisão nos Estados Unidos, com regras definidas por teóricos de jogo, os compradores estão buscando a consultoria de outros teóricos.
E - Assim se enriquece com a teoria dos jogos?
RS - Não, não se enriquece... Meu objetivo nunca foi este. Eu quero entender como a economia funciona - não para ganhar riqueza, mas pela compreensão em si.
E - Em outra entrevista o senhor mencionou que sua prioridade científica de fato não é mais a teoria dos jogos.
RS - Eu ainda me ocupo dela, mas eu me interesso mais pelo campo
chamado "racionalidade limitada", que é importante também
para a teoria dos jogos. Quero dizer que a teoria dos jogos supõe
em geral que toda pessoa é capaz de agir o mais racionalmente possível
em seu próprio interesse. Mas a capacidade humana de cálculo
e pensamento é muito limitada na realidade. E mesmo com essa limitação
nós todos devemos agir num mundo extremamente complexo. Então
o problema é: com que teoria se poderia descrever a ação
de pessoas com capacidades limitadas que tomam decisões em situações
econômicas muito complexas? Já há muitas décadas
eu creio que se deva evoluir uma teoria sobre isso. Eu comecei a fazer
experimentos nessa área já no final dos anos 50.
Eu posso dar um exemplo de racionalidade limitada com
relação ao Esperanto. Todo mundo sabe que é melhor
exigir pagamento por um curso de Esperanto, porque se o aluno paga é
mais provável que ele fique até o fim do curso. O fato de
pagar não deveria influir sua decisão de ficar, porque em
todo caso seu dinheiro já foi dado. A utilidade de continuar ou
não continuar independe totalmente do fato de haver pago ou não.
E - A racionalidade limitada com certeza influi nas decisões de aprendizado de línguas! Umberto Eco disse numa entrevista que se se fizesse uma decisão racional de Estado, por exemplo na França 2% da população deveria aprender o búlgaro, tal a proporção de sua importância para os franceses.
RS - Mas não deixe de considerar que com o inglês você pode no entanto atingir os búlgaros que falam inglês. E justamente esses você mais quer atingir, porque provavelmente eles é que têm mais dólares! (risos) Como o inglês tem um papel internacional, muitos o escolhem como primeira língua estrangeira.
E - O senhor mesmo parece ter escrito mais em inglês do que em alemão.
RS - Na juventude eu escrevia muito também em alemão - mas hoje até para uma edição na Alemanha é melhor escrever em inglês. De outro modo os alemães acham que você não tem nada de importante para dizer! Isso certamente não agrada a um esperantista como eu, mas eu acho que até esse tipo de internacionalidade é melhor do que nenhuma internacionalidade. Eu de fato preferiria que todos os trabalhos científicos fossem em Esperanto, mas isso não se pode atingir de um dia para o outro.
E - A internacionalidade do inglês já atingiu o ponto de não ter mais volta, a massa crítica?
RS - Não, e os esperantistas com certeza têm uma esperança: parece que o aprendizado de Esperanto facilita o aprendizado posterior de línguas estrangeiras. O Esperanto deveria ser bem sucedido mesmo apenas por esse único motivo. Mas para realizar isso é necessário um número suficiente de pessoas que já saibam Esperanto...
E - ... e que possam ensinar. Voltando ao aluno de seu exemplo: será que as pessoas que já estão no movimento esperantista não agem de forma semelhante? Elas pensariam: "Eu investi muito no Esperanto, seria uma pena abandoná-lo, ainda que ele não se torne uma segunda língua divulgada".
RS - No meu entender, alguém é esperantista não apenas para ver a vitória de sua idéia; é importante apoiar também tais idéias cuja vitória fácil não se pode esperar. Se algo é moralmente bom, permanece bom mesmo se não obtém sucesso. O fato de não se poder ver a "vitória final" não é motivo para abandonar o ideal.
E - Além disso, a comunidade esperantista tem em si mesma muitas características atraentes.
RS - Com certeza! Infelizmente, quanto mais envelheço mais difícil está sendo para eu desfrutar desses atrativos, por falta de tempo. Em minha juventude era mais fácil para mim.
E - Não podemos deixar de perguntar sobre como se tornou esperantista...
RS - Eu comecei a aprender Esperanto aos 17 anos, em 1946 ou
47, como autodidata. De fato eu já havia lido antes um livro em
Breslau [atual Wroclaw, Polônia], onde eu vivi até fevereiro
de 1945. Meu pai era esperantista, bastante ativo no movimento dos cegos
esperantistas. No entanto eu não aprendi a língua por influência
direta dele, só bem depois de sua morte.
Em 1960 em Frankfurt eu fui vice-presidente do clube
local de Esperanto. Fiz até um exame para professor, mesmo se você
pensar que meu conhecimento lingüístico não merecesse
essa distinção (risos). No começo dos anos
60 eu realmente dei um curso, e o grupo de diplomados encontrava-se toda
quinta-feira em minha casa. Eu conheci minha esposa graças ao Esperanto.
Quando meu filho caçula tinha 14 anos, eu o incentivei a participar
de um congresso em Frankfurt, e o ensinei pelo livro Petro, da SAT.
E - Os seus colegas - e agora os jornalistas - sabem que o senhor é esperantista? Como eles reagem?
RS - Eu não pretendo me tornar uma figura pública. Eu quero viver minha vida mais ou menos como antes. Mas eu nuncar escondi que sou esperantista, e não esconderei.; eu até procuro a oportunidade de falar sobre o Esperanto em entrevistas. Por exemplo num programa de televisão pediram que eu dissesse algo em Esperanto e eu cumprimentei todos os espectadores esperantistas. Já escrevi ao embaixador alemão na Suécia, que dará um almoço em minha homenagem, para que ele convide alguns esperantistas. Assim eu terei a oportunidade de falar em Esperanto. Vão notar, porque eu serei o centro das atenções. (risos)
E - Obrigado pela entrevista. Eu jamais esperava entrevistar um Prêmio Nobel para a revista Esperanto.
RS - E eu nunca pensei que um dia a Esperanto faria uma entrevista comigo.
* publicado originalmente no número 1065, dezembro de 94, pág. 202-3, da revista Esperanto, da Associação Universal de Esperanto e traduzido pelo KCE.
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04Wladislaw Mieziok · Polônia
Uma conversa com Wladislaw Mieziok
Uma conversa com o esperantista e bispo católico de Varsóvia.
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Uma Conversa com Dom Miziolek
O esperantista
e Bispo polonês D. Wladislaw Miziolek, em junho de 97, por ocasião
da visita do Papa a Polônia, concedeu a seguinte entrevista à
jornalista Barbara Pietrzak, da redação de Esperanto da Rádio
Polônia:
Rádio Polônia - Quando Vossa Eminência teve o primeiro contacto com esperantistas?
| D. Miziolek - A primeira vez em que me encontrei com esperantistas foi por intermédio do padre Henryk Paruzel, que teve um grande papel na divulgação dessa língua. Não apenas na Polônia, mas também na esfera das autoridades católicas esperantistas, em Roma. O padre Paruzel veio me visitar porque eu, como bispo, comecei a trabalhar na Comissão de Orientação Espiritual. Primeiro como vice-presidente - e depois da morte do cardeal [IKUE - 1937]Kominek, como presidente. O padre Paruzel me pedia que eu zelasse pelos esperantistas e que eu também acompanhasse os esperantistas poloneses ao congresso católico esperantista que em breve ocorreria em Roma. Tratava-se do 36. Congresso da IKUE [União Esperantista Católica Internacional], no ano de 1975. Eu a princípio resisti, porque eu não sabia a língua, mas o padre Paruzel era uma pessoa encantadora e tão insistente que eu aceitei. Eu comecei a conhecer o Esperanto, aprendi, e de fato passei a ajudar os esperantistas católicos na Polônia, que eram então coordenados pelo padre Paruzel. Eu também fui ao congresso em Roma, onde celebrei duas santas missas, até nas Basílicas maiores: na de São Pedro e na de São João de Laterano. |
R.P. - Pessoas que aprendem Esperanto vêem nesta língua um instrumento de comunicação, compreendem a idéia de aproximação intrínseca à língua. Como o senhor, Bispo, vê isto?
D. M. - Na minha opinião, quando o mundo se torna uno, mais coeso, sente-se a necessidade de uma língua pela qual nos compreenderíamos no mundo inteiro. Me parece que o que se opõe a isso é o orgulho nacional, especialmente das grandes potências cujas línguas são usadas em maior escala, além das fronteiras nacionais. Eu me refiro ao inglês, em certo sentido ao russo, ao francês no passado, e agora o alemão, o espanhol. As potências não estão dispostas a abandonar a posição privilegiada de suas próprias línguas no mundo. Mas no entanto os encontros internacionais devem ocorrer em algumas línguas ao mesmo tempo, com a ajuda de intérpretes, porque é difícil que todos entendam uma língua apenas. Hoje já é impossível que o latim volte ao papel de língua falada. Neste caso seria necessário adaptá-lo à evolução dos nossos tempos. Por isso eu acho que deve ser escolhida uma língua que todos pudessem usar.
Se se trata do esperanto, ela é uma língua de mais fácil aprendizado e com uma gramática simples. Eu me surpreendi como é possível aprender tão rápido, e eu acho que ela deve ser apoiada, tanto mais por ser baseada significativamente sobre línguas européias; é impressionante sua semelhança ao italiano.
R.P. - Eminência, o senhor não teve dúvidas de que uma língua especialmente criada pudesse servir à comunicação internacional?
D.M. - Não, porque eu prestei atenção, eu vi o objetivo. Tanto mais porque em alguns países o Esperanto é relativamente bem conhecido e porque é possível comunicar-se com indivíduos e com grupos de pessoas.
R.P. - O senhor mencionou o período que passou em companhia de esperantistas em Roma e a celebração da liturgia em Esperanto. Mas os esperantistas tiveram que esperar um bom tempo a decisão das autoridades da Capital Apostólica que aprovou o texto do Missal e das Leituras de Celebração na língua internacional. Em que consistiu o auxílio concreto de Vossa Eminência para que estes textos pudessem atingir os sacerdotes e os católicos esperantistas mais rapidamente?
D.M. - É bom que eu relembre qual era a principal dificuldade perante as Congregações do Vaticano e especialmente a Congregação da Santa Liturgia para a aprovação do Esperanto como língua litúrgica. Essa dificuldade estava ligada ao argumento de que o Esperanto não era uma língua viva, usada por uma nação, que ela é usada por indivíduos espalhados pelos países. Por isso foi necessário apelar a uma esfera superior. Pediram-que eu tentasse uma entrevista com o Santo Padre e que eu apresentasse o caso. Com João Paulo II, quando ele era Arcebispo de Cracóvia, eu trabalhei na Comissão de Orientação Espiritual da Conferência dos Bispos da Polônia. E foi assim. Eu viajei a Roma, onde fui recebido pelo Santo Padre. Eu apresentei o caso e isso muito ajudou. Eu devo acrescentar que quem advogou pela permissão do Esperanto na liturgia foi o capelão do Santo Padre, o prelato Stanislaw Dziwisz e ele foi de grande auxílio durante a entrevista. O Santo Padre nada respondeu, mas ele se ocupou do assunto e em breve a permissão foi concedida. Como sinal de que eu fui o representante no caso, o meu nome está mencionado no decreto da Congregação como o daquele que legitimou a tradução apresentada para aprovação.
R.P. - Os católicos esperantistas têm desde 1903 sua organização, a IKUE, e existem filiais nacionais. Qual é o papel dos leigos esperantistas na Igreja, na Igreja que tanto mudou neste meio tempo?
D.M. - No meu entender, ele está ligado ao reconhecimento propriamente dito do Esperanto como língua internacional. Seria necessário inaugurar uma campanha neste sentido em centros internacionais como a União Européia, os Estados Unidos, durante congressos internacionais, também católicos, que esta língua seja reconhecida e colocada em debate. Ela se difundiria rapidamente. E o papel dos leigos é muito grande, porque eles poderão se entender por meio desta língua, perante muitos assuntos, em muitos encontros e congressos. O mundo se torna cada vez menor e interligado, por isso surgirá essa necessidade. Enquanto durar a dominação das línguas naturais, pelo menos em nossos países da Europa e da América, o Esperanto não terá um grande papel, mas funcionará numa esfera mais baixa. Seria necessário trabalhar para que o Esperanto fosse uma das línguas, antes de ser a única língua, das reuniões por exemplo do Conselho Mundial das Igrejas, se se trata da Igreja - a Igreja Católica Romana. Para isso deveriam intervir também as autoridade leigas, como a ONU. E essa idéia deveria ser divulgada. Eu acredito que para isso tem um grande papel a imprensa, se ela se ocupasse do problema lingüístico e começasse a "fazer barulho" em favor do Esperanto.
R.P. - Como devemos entender a mensagem dos estatutos da IKUE, que se encontra também no estatuto da Seção Polonesa, "para que todos sejam um"?
D.M. - O Esperanto traz idéias mundiais, universais. Em se tratando de católicos - cristãos em geral - o principal é a unidade da Igreja de Cristo. É então um trabalho em favor da unidade de todas as igrejas e da necessidade disso. Com a formação de um sentimento de unidade entre os homens e o soerguimento desta idéia. Hoje a Igreja Católica foi uma das primeiras a notar que não basta divulgar essas idéias entre os católicos, porque o mundo é agora tão pluralizado e miscigenado que é preciso levar essas idéias de unidade, compreensão e diálogo também a outras religiões do mundo. Nesse campo também os esperantistas podem e devem trabalhar, para que sejam construídas pontes de comunicação entre outros cristão e outras religiões. O diálogo também é possível para com pequenas alas, como os ateus.
Eu afirmo, porém, que se deve trabalhar primeiro no próprio meio. Evidentemente a unidade deve ser diversificada, porque a unidade na Igreja é diferente. A unidade do mundo inteiro também é diferente, pois ela se refere à convivência pacífica, concórdia e paz entre as nações.
R.P. - Enquanto nós falamos, em Wroclaw começa o Congresso Eucarístico Mundial, que com representantes de outras Igrejas tem um forte apelo ecumênico e a Polônia se prepara para a quinta visita do Papa. O que se espera destes eventos?
D.M. - A visita do Santo Padre tem um grande significado para a Polônia, mas tem uma ênfase maior dada pelo Congresso. O tema é "Eucaristia e Liberdade". Naturalmente se trata em primeira instância da liberdade integral do homem, que hoje é muitas vezes ameaçada não mais pelos sistemas totalitários como antigamente. Hoje ela é ameaçada por várias máfias e pela manipulação feita pelos meios de comunicação. Quanto a isso é importante formar, educar o homem que seja capaz de distinguir, na enxurrada atual de palavras e imagens, o verdadeiro do falso, o bem do mal, que seja livre em sua liberdade humana, que ele conserve a sua humanidade.
Quanto ao Santo Padre, ele encanta com sua personalidade. É um homem muito profundo, espiritual e intelectualmente, e sua primeira encíclica "Redentor do Homem" mostra que o caminho da Igreja deve buscar o homem. Daí sua abertura para o homem e a batalha pelos valores humanos, liberdade, paz e justiça no mundo atrai a todos, independente de religião, porque ele atrai a todos pelo espírito de humanidade. Eu não sei qual será a divisa comum às homilias do Santa Padre nesta visita, mas certamente ele trará muito o que pensar, e inspirará a melhoria de algumas coisas. Infelizmente há muito o que melhorar na Polônia.
R.P. - Ele vai abalar consciências?
D.M. - É difícil dizer, porque depende de muitas coisas. Hoje tudo toca o homem superficialmente, porque há muitas impressões, propostas, sugestões. Quando eu me recordo da minha juventude, eu descubro que nós - da sociedade pré-guerra - vivíamos com mais profundidade todos os eventos. Hoje tudo passa depressa e é depressa esquecido. Isso é ameaçador para o homem, pois sua identidade deve ligá-lo também ao passado, e ao mesmo tempo sua evolução deve atingir, penetrar no seio dos valores espirituais.
* Traduzido pelo KCE.
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05Rubem Braga · Brasil
Sizenando, a vida é triste
Uma crônica de Rubem Braga que aborda o Esperanto.
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Sizenando, a vida é triste*
O cronista
Rubem Braga (1913-1990) descobre o esperanto... e fala das vantagens de
acordar cedo.
Está provado que acordar mais cedo faz o dia maior. Esta frase nao é minha, e desgraçadamente não consegui saber o nome de seu autor, pois acordei muito cedo, mas não o bastante cedo; quando liguei o rádio às 6:10 a aula já tinha começado; ouvi o programa até o fim, mas não fiquei sabendo o nome do professor. "La verando estas vera jardeno, plena de flôroi". Nunca estudei esperanto, mas suponho que a varanda ou o verão está com muitas flores no jardim; de qualquer modo é uma boa notícia, algo de construtivo.
Confesso que a certa altura mudei de estação; sou um espírito inquieto. A estação logo à direita dava telegramas de Argel, crise na França; fui mais adiante, sintonizei um bolero; tentei ainda outra, dizia anúncios; voltei para o meu jardim florido em esperanto.
O professor estava agora respondendo cartas de ouvintes. O Sr. Sizenando Mendes Ferreira, de Iporá, Goiás, escrevera dizendo que achara suas aulas muito interessantes e queria se inscrever entre seus alunos.
Sou um homem do interior, tenho uma certa emoção do interior, às vezes penso que eu merecia ser goiano. A manhã estava escura e chuvosa em Ipanema; e me comoveu saber que naquele instante mesmo, a um mundo de remotas léguas, no interior de Goiás, havia um Sizenando, brasileiro como eu, aprendendo que o "jardeno" está "plena de flôroi" - e talvez escrevendo isso em um caderno.
Não importa que neste momento haja milhões de brasileiros dormindo insensatamente, enquanto outros milhões tomam café ou banho de chuveiro ou já marchem para o trabalho, ou que minha amada Joana esteja neste minuto saindo da Sacha's e entrando no carro daquele "stompananto" de Botafogo. Eu e Sizenando cultivamos o jardim da cultura, "plena de flôroi"; nós somos, de certo modo, a elite do Brasil; amanhecemos em flor.
Então o professor, talvez estimulado pela atenção do ouvinte goiano, fez uma pequena dissertação sobre a utilidade do esperanto e tambem sobre a vantagem de acordar cedo. Está provado que acordar mais cedo faz o dia maior. Nao será uma frase muito sutil, mas é tão pura e bem-intencionada que poderá figurar no decálogo do escoteiro. No fundo deve haver alguma ligação entre o escotismo, o esperanto e acordar cedo. Eis uma falha de minha vida; nunca fui escoteiro; agora é tarde para quebrar coco na ladeira, mas talvez ainda seja tempo para aprender um pouco de esperanto; eu e Sizenando. "Tenho um amigo" - dizia o professor - "que me confessou que nunca ouvira o meu programa, pois dorme até tarde. Pois bem. Ele ontem acordou cedo e ouviu o meu programa. Disse-me que passou o dia inteiro com uma excelente disposição, achou o dia maior e mais útil, ficou realmente satisfeito."
O próprio professor estava satisfeito com a declaração de seu amigo; sentia-se isso em sua voz. Murmurei para mim mesmo que o golpe é este: todo dia acordar cedo, ouvir minha aula de esperanto e depois se houver alguma aula de ginástica pelas imediações topar também, "mens sana in corpore sano", no fim do mês os amigos vão ficar espantados, como o Braga está bem! Este pensamento me reconfortou; estendi a mão para pegar um cigarro na mesinha-de-cabeceira, mas fumei com um certo remorso. No fundo o esperanto deve ser contra o tabagismo, assim como é favorável ao escotismo.
"Mi estas bruna". Isto quer dizer: eu sou moreno. "Mi estas bruna", ó filhas de Jerusalém, dizia a Sulamita. A esta hora Joana deve estar no carro daquele palhaço, toda aconchegada a ele, meio tonta de uísque, vai para o apartamento dele - um imbecil que não sabe uma só palavra de esperanto! A vida é triste, Sizenando.
Rio, junho 1958.
* Do livro "Ai de ti, Copacabana", 14a. ed., Editora Record.
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06Valdemar Langlet · Suécia
Valdemar Langlet: Schindler não estava só
O artigo recupera a atuação do esperantista sueco que ajudou vítimas durante o nazismo.
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Valdemar Langlet:
Schindler não estava só*
Em 17 de dezembro de 1997 comemoram-se os 125
anos de nascimento de Valdemar Langlet (1872-1960). Ele e sua mulher Nina
não tiveram dúvidas em arriscar suas próprias vidas
para ajudar aqueles que estavam à apenas alguns milímetros
de uma morte cruel e inevitável.
[V. Langlet]Poucos esperantistas conhecem hoje o nome de Valdemar Langlet, mas na história do Esperanto na Suécia ele é um personagem muito importante. Langlet nasceu em 17 de dezembro de 1872. Ele foi co-fundador do Clube de Esperanto de Uppsala, o segundo clube esperantista no mundo, e durante muitos anos foi seu presidente. Quando foi fundada a Federação Sueca de Esperanto, em 1906, ele tornou-se também seu presidente.
Em 1899 ele se casou com uma esperantista finlandesa. Após a morte da esposa, em 1921 ele conheceu Nina, filha do pioneiro esperantista russo Nikolai Borovko. Em 1925 eles se casaram.
Valdemar Langlet fez várias viagens à Rússia, a primeira já em 1895. A cavalo ele percorreu 1000 km. na Hungria. Sobre suas aventuras ele veio a escrever um livro mais tarde.
Em 1932 Langlet passou a trabalhar como professor de sueco na universidade de Budapeste, ao mesmo tempo em que era funcionário da embaixada sueca na capital da Hungria. Em 1944, quando a Segunda Guerra ameaçava cada vez mais a vida dos húngaros, Langlet ainda trabalhava em suas duas funções. Ele via as perseguições cada vez mais cruéis não apenas contra os judeus, mas também contra outras pessoas que não agradavam ao regime fascista. Com sua mulher Nina ele começou um trabalho de ajuda sob proteção da Cruz Vermelha Sueca. Num primeiro momento ele ajudava principalmente as pessoas que já conhecia. Mas pouco a pouco o grupo cresceu e à sua porta se formavam longas filas de pessoas a pedir ajuda.
A casa de Nina e Valdemar já não era suficiente. Eles alugaram apartamentos, casas, sítios. Pessoas que abandonavam a cidade colocavam suas casas à disposição. Em muitos lugares de Budapeste e nos seus arredores, eles montavam orfanatos e asilos, distribuindo alimentos e remédios. Em alguns desses abrigos, abrigavam-se secretamente, de tempos em tempos, pessoas perseguidas por serem judias ou por serem inconvenientes segundo os critérios dos fascistas húngaros ou dos SS alemães.
No último ano da guerra, milhares e milhares de judeus húngaros eram conduzidos à morte nos campos de concentração alemães. Langlet mantinha relações de amizade com muitas famílias judias, desde os primeiros anos em Budapeste. No começo de 1944, ele percebeu que subitamente alguns conhecidos desapareciam sem deixar sinal. Outros iam procurá-lo às escondidas para contar o grande medo que sentiam de serem presos e levados para algum campo.
Langlet compreendia que era hora de fazer alguma coisa. Através de ações oficiais da embaixada sueca, ele podia ajudar algumas pessoas que mantinha alguma relação com a Suécia. Pelas outras ele nada podia fazer e a situação parecia desesperadora. Embora não tivesse o direito de agir sem o consentimento das autoridades de Estocolmo, ele montou uma seção especial de proteção, primeiro na embaixada, e depois no seu escritório em casa.
| A tábua de salvação
Em maio de 1944, Langlet fazia os primeiros "documentos de proteção", que se pareciam com passaportes. Eles continham as mesmas informações que um passaporte comum, mas também a advertência que "o identificado, ligado aos interesses da Suécia, está sob a proteção da Cruz Vermelha Sueca". As autoridades húngara permitiram a emissão de 4.500 desses documentos, mas ninguém sabe quantos documentos Langlet emitiu - talvez 25.000. |
Em nome da Cruz Vermelha Sueca ele começou a imprimir documentos em que Langlet garantia que o interessado aguardava a cidadania sueca e por isso estava "sob proteção especial da Suécia". No começo eram apenas alguns documentos por dia, mas aos poucos a informação sobre os documentos de Langlet corria não apenas em Budapeste. Vieram grupos cada vez maiores em busca de ajuda.
A atuação de Langlet ainda era aceita pelas autoridades húngaras. Milhares, talvez dezenas de milhares de documentos já haviam sido distribuídos e o caso parecia não ter mais controle. O embaixador sueco, claro, teve medo. Eles haviam chegado ao ponto em que os documentos pseudo-oficiais de Langlet poderiam perder completamente seu valor. Desse modo, o embaixador pediu a direção da Cruz Vermelha Sueca que fosse enviada ajuda a Budapeste.
Pouco depois Raoul Wallenberg foi enviado a Budapeste, e ele logo aceitou o método de Langlet, mas como representante oficial ele pôde substituir os documentos pelos famosos "passaportes de Wallenberg", emitidos em nome do governo da Suécia.
Valdemar Langlet e Nina continuaram sua ação humanitária mesmo durante o momento caótico da marcha dos exércitos soviéticos em Budapeste. A obra e a sorte de Wallenberg o mundo conhece bem: ele foi capturado pela polícia secreta soviética e só após o fim da União Soviética é que se soube alguma coisa sobre seu paradeiro.
Alguns meses após o fim da guerra, Valdemar, já com mais de setenta anos, e sua mulher voltaram à Suécia, completamente sem recursos, após uma longa e cansativa viagem. Apenas algumas roupas e objetos pessoais eles puderam levar de volta para casa. Todo seu dinheiro fora gasto no trabalho humanitário, e seu estado de saúde era muito precário. No pequeno vilarejo de Lerbo, próximo de Katrineholme, no centro da província de Södermanland, eles viveram vários anos muito modestamente.
Na Hungria, a obra de Valdemar e Nina é bastante conhecida. Em sua homenagem uma escola de Budapeste recebeu o nome Langlet. Na Suécia poucas pessoas sabem hoje quem eles foram, e muito menos de seu heróico e arriscado trabalho em favor das vítimas que sofriam por causa da guerra e do racismo. Wallenberg sumiu nos últimos dias de caos da Segunda Guerra e seu misterioso desaparecimento despertou o interesse do mundo, tornando seu nome conhecido. Valdemar e Nina Langlet merecem o mesmo respeito mundial.
* traduzido e adaptado pelo KCE de um texto de Henry Thomander para a página do Clube de Esperanto de Norrköping, Suécia.
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07Autor não indicado no índice
“Uma língua assim não existe”
Um jovem catedrático de Amsterdã fala sobre línguas e sobre a existência do Esperanto.
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"Uma língua assim não
existe"
Começa a trabalhar na Universidade de Amsterdã um professor de interlingüística e esperantologia: o doutor Marc van Oostendorp. Nós o entrevistamos em seu local de trabalho principal, a Universidade de Leiden.
Revista Esperanto - Sua tese de mestrado foi sobre "A sintaxe de uma língua sem gramática". Eu acho que já advinhei de que língua se trata...
Marc van Oostendorp - Sim, sobre o Esperanto. Claro, eu demonstrei que o Esperanto tem uma gramática - e que ela, planejada para ser o mais lógica possível, fez evoluir durante sua história características à primeira vista ilógicas. Mas essas características estão de acordo com os princípios da gramática universal - isto é, as regras que segundo o conceito de Chomsky valem universalmente para todas as línguas. Portanto, numa forma mais abstrata, também essas características são lógicas.
RE - Sua pesquisa confirma então que o Esperanto não difere essencialmente das outras línguas, que sua "artificialidade" não importa?...
MvO - O tema "artificialidade" sempre me interessou. Mas como estudante eu tive que ouvir que nós estudaríamos línguas naturais; então não, por exemplo, a língua de lógica formal ou línguas artificiais como o Esperanto.
RE - Como você reagia a essa limitação?
MvO - Eu pensava: eis um campo de trabalho para mim! Desde os 13 anos eu aprendi Esperanto. Ele ampliou meu interesse pela lingüística - e vice-versa. Para mim o Esperanto e a lingüística sempre tiveram uma forte ligação. Por isso eu não podia aceitar sempre a mesma histórica argumentação dos que ignoram o Esperanto: que uma língua inventada por uma pessoa não pode existir, ou que ela é ainda jovem demais para ser levada a sério. Eu gosto de provocá-los com a idéia: o que aconteceria se um dia descobríssemos que o holandês foi elaborada por alguém no século 13? Nós a acharíamos por isso menos natural. E, de fato, o holandês é de certo modo artificial, porque sem a influência da tradução da Bíblia (algo "artificial"), a língua não exisitiria em sua forma atual. Por outro lado, se nós afirmamos que o Esperanto é natural, o que nos impede de dizer o mesmo do Volapük, da Interlíngua etc; onde estão os limites da naturalidade?
RE - Com a sua experiência: será que o Esperanto desafia os limites de pensamento dos lingüistas?
MvO - Não, pelo menos não os limites em que eu trabalho. Segundo a escola de Chomsky, à qual eu pertenço, uma língua assim de fato não existe; existem falantes de diversos sistemas, cada um de seu próprio, que compreendem uns aos outros em diversos graus.
RE - Você mesmo escreve em Esperanto?
MvO - Eu gostaria de escrever um "descendente" do excelente mas já desatualizado (depois de 20 anos) Lingvistikaj Aspektoj, de John Wells. Seria semelhante ao meu livro Tongval - Hoe klinken Nederlanders? (Dialeto - como soam os holandeses?), no qual eu tentei contar sobre fatos lingüístico de uma forma interessante e popular.
RE - Em abril começa seu curso "Interlingüística e Esperanto" em Amsterdã. Quem vai participar?
MvO - Pode participar qualquer estudante (e, pagando 350 florins, também pessoas de fora), mas provavelmente vão se interessar os estudantes de lingüística e de estudos europeus. Como o objetivo principal não é criar falantes de Esperanto, mas elevar o conhecimento interlingüístico, eu não vou dar um curso da língua, mas um curso de língua: da idéia de língua internacional, da estrutura do Esperanto etc.
RE - Em abril começa seu curso "Interlingüística e Esperanto" em Amsterdã. Quem vai participar?
MvO - Pode participar qualquer estudante (e, pagando 350 florins, também pessoas de fora), mas provavelmente vão se interessar os estudantes de lingüística e de estudos europeus. Como o objetivo principal não é criar falantes de Esperanto, mas elevar o conhecimento interlingüístico, eu não vou dar um curso da língua, mas um curso de língua: da idéia de língua internacional, da estrutura do Esperanto etc.
RE - De acordo com o anúncio do cargo, você também vai "fazer e conduzir pesquisas".
MvO - Sim, eu me interesso pela propedêutica do Esperanto. Eu já contactei Corsetti e Hiroshi sobre sua pesquisa psicolingüística. Mas eu gostaria principalmente de saber como é usado efetivamente o Esperanto. Por isso eu pretendo coletar o Esperanto padrão: primeiro para a língua escrita, mas não numa linguagem trabalhada.
| Marc van Oostendorp
Linguista e fonologista holandês, van Oostendorp (nascido em 1967) bacharelou-se em Leiden (1987), tornou-se mestre (1991) e doutor (1995) em Tilburg. Seus livros, artigos e palestras tocam temas tão distintos como fonologia, política lingüística, poesia e computação. Ele é redator e cuida da página WWW "Onze Taal" (Nossa Língua), revista da associação de mesmo nome, que congrega leigos interessados nas questões de uso da língua holandesa. Ele é co-responsável pelo Projeto "Laurens Jansz. Coster", que pretende disponibilizar gratuitamente pela Internet textos literários sem direitos autorais e explorar as possibilidades de hipertexto para sua apresentação. |
RE - Observaram que você é o mais jovem professor da universidade.
MvO - Este é um mérito muito provisório.
RE - Você é um cientista, não um ativista. São pólos irreconciliáveis?
MvO - Bem, um antagonismo semelhante eu vivo como redator da revisto Onze Taal: a opinião de um lingüista pode desagradar ao leitor purista que "batalha" por um holandês "puro". Surgiu a idéia de se criar uma academia da língua holandesa, mas eu não tenho a ambição de me tornar acadêmico, nem do holandês, nem do Esperanto.
RE - E qual é a sua verdadeira ambição?
MvO - A mesma de todo cientista: receber respostas às minhas perguntas.
* publicado originalmente no número 1097, dezembro de 97, pág. 181, da revista Esperanto, da Associação Universal de Esperanto. Traduzido pelo KCE.
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08Associação Universal de Esperanto
As resoluções da Unesco em favor do Esperanto
O texto apresenta as resoluções da Unesco e os objetivos da Associação Universal de Esperanto.
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As
Resoluções da Unesco em Favor do Esperanto
O tema Esperanto ja esteve diversas vezes na ordem do dia da Unesco, a Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura. Desde 1954 a Associação Universal de Esperanto mantém relações consultivas oficiais com a Unesco, enviando-lhe relatórios regularmente e incentivando seus membros e associações a colaborarem ativamente com aquela Organização para efetivarem seus objetivos comuns.
Em duas ocasiões a Conferência Geral da Unesco, que se
reúne a cada dois anos, aprovou uma resolução especial
dedicada ao Esperanto. A resolução da Quarta Conferência
Geral (Montevidéu 1954) foi resultado de uma campanha coordenada
pela UEA, principalmente por seu diretor Ivo Lapenna. A resolução
do ano do Centenário, aprovada pela Vigésima-Terceira Conferência
Geral (Sófia 1985) foi fruto da colaboração por três
décadas e de bons contatos com algumas delegações
nacionais. Juntas, as duas Resoluções consistem o mais claro
reconhecimento do valor do Esperanto feito por uma importante organização
internacional.
Resolução de 1954
(4a. Conferência, reunida em Montevidéu, Uruguai)
IV.1.4.422 A Conferência Geral, tendo discutido o Relatório do Diretor Geral sobre a Petição Internacional em favor do Esperanto;
IV.1.4.4221 Anota os resultados atingidos pelo Esperanto no campo dos intercâmbios intelectuais internacionais e na aproximação dos povos do mundo;
IV.1.4.4222 Reconhece que esses resultados correspondem aos objetivos e aos ideais da Unesco;
IV.1.4.4223 Anota que diversos Estados-Membros informaram-se dispostas a introduzir ou a ampliar o ensino do Esperanto em suas escolas ou instituições de ensino superior, e pede a esses Estados-Membros informarem o Diretor Geral dos resultados atingidos nesse campo;
IV.1.4.4224 Comissiona o Diretor Geral seguir a desenvolvimento atual do uso do Esperanto na ciência, educação e cultura, e com este fim colaborar com a Associação Universal de Esperanto nos âmbitos referentes a ambas organizações.
Resolução de 1985 (23a. Conferência, reunida em Sófia, Bulgária)
A Conferência Geral,
Considerando que em sua sessão de 1954, ocorrida em Montevidéu, através da Resolução IV.1.4.422-4224 anotou os resultados atingidos pela língua internacional Esperanto no campo dos intercâmbios intelectuais internacionais e da compreensão mútua entre os povos do mundo, e reconheceu que estes são compatíveis com os objetivos e ideais da Unesco;
Lembrando que o Esperanto neste período fez consideráveis progressos como instrumento de compreensão entre povos e culturas de diferentes países, penetrando na maior parte das regiões do mundo e na maior parte das atividades humanas;
Reconhecendo as grandes possibilidades que o Esperanto apresenta para a compreensão internacional e a comunicação entre povos de diferentes nacionalidades;
Anotando a importante contribuição do movimento esperantista, e principalmente da Associação Universal de Esperanto, na difusão de informações sobre as atividades da Unesco, bem como sua participação nessas ações;
Ciente do fato que em 1987 se comemorará o centenário do surgimento do Esperanto,
1. Felicita o movimento esperantista por
ocasião do seu centenário;
2. Pede ao Diretor Geral que continue a seguir atentamente a evolução
do Esperanto como instrumento para uma melho compreensão entre diferentes
nações e culturas;
3. Convida os Estados-Membros a marcarem o centenário do
Esperanto por meio das devidas solenidades, declarações,
emissões filatélicas e a incentivarem a introdução
de um programa de estudos sobre o problema lingüístico e sobre
o Esperanto em suas escolas e instituições de ensino superior;
4. Recomenda às ONG internacionais se associarem às
comerações do centenário do Esperanto e avaliarem
a possibilidade de usar o Esperanto como meio de divulgar entre seus membros
todas as espécies de informação, inclusive aquelas
ligadas às ações da Unesco.
Objetivos da Associação Universal de Esperanto
Fundada em 28 de abril de 1908, a Associação Universal de Esperanto (UEA - Nieuwe Binnenweg 176 - BJ 3015 Rotterdam - Holanda) tem por objetivo, segundo seus Estatutos:
a) divulgar o uso da língua internacional
Esperanto;
b) agir para a solução do problema lingüístico
nas relações internacionais e facilitar a comunicação
internacional;
c) facilitar a relações materiais e espirituais de toda espécie
entre os homens, sem distinção de nacionalidade, raça,
sexo, religião, política ou língua;
d) fazer crescer entre seus membros um forte sentimento de solidariedade
e desenvolver entre eles a compreensão e a estima por outros povos.
* do Anuário 1997 da Associação Universal de Esperanto. Traduzido pelo KCE.
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09Autor não indicado no índice
A importância do ridículo
Uma reflexão psicológica sobre o receio de passar por situações constrangedoras.
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A Importância do Ridículo*
O trecho abaixo é parte do livro "Le Défi des Langues - Du gâchis au bon sense" (O Desafio das Línguas - da má gestão ao bom senso)*, do psicólogo suíço Claude Piron, ex-intérprete da ONU e OMS. Esse excelente livro da editora L'Harmattan (Paris) foi publicado em português em 2002, numa co-edição da Pontes Editores e BEL.
Na maior parte das reuniões, o recurso da interpretação
não dispensa uma boa parte dos participantes de falar uma língua
estrangeira. Essa obrigação acarreta novos inconvenientes. É
o caso em particular daqueles que escolhem exprimir-se na língua de Shakespeare.
A fonética inglesa, nunca se dirá o bastante, impõe graves
problemas à grande maioria dos povos. Por exemplo, três quartos
da população mundial não têm, em sua língua,
os dois sons [] e [],
correspondentes ao th inglês, que se pronunciam aplicando-se a
língua contra a extremidade dos dentes incisivos. Ora, é o som
[] que permite diferenciar thick
("espesso") de sick ("doente") e de tick ("tique"
ou "recolocar alguém em seu lugar"). Com freqüência
o contexto permite evitar os mal-entendidos. Mas um outro fator que desempenha
um importante papel na comunicação humana continua presente mesmo
se o sentido é compreendido: o ridículo. Eu nunca esquecerei os
risos que havia provocado um delegado de um país cujo nome eu omitirei
e que, buscando com dificuldade exprimir-se num inglês mal dominado, havia
desastradamente feito uma pausa, sem dúvida procurando a palavra certa,
após haver pronunciado: My government sinks..., isto é,
não, como ele acreditava, "meu governo pensa" (thinks),
mas "meu governo naufraga" tal qual um navio que afunda no oceano.
Dado que todo mundo considerava o país em questão como à
beira do abismo, essa pronúncia inoportuna desencadeou a hilaridade dos
participantes.
É bom ter bastante humor para poder rir uns dos outros. Mas o que é
chocante nesse tipo de incidente, é seu lado injusto. A vítima,
em lugar de ser ajudada, é posta numa situação inferior
precisa-mente porque ela é vítima. Vítima de quê?
Da injustiça dos sistemas de comunicação atualmente em
vigor no mundo. Com efeito, esse risco de ridículo é por definição
poupado aos anglo-saxões e aos outros povos cuja língua goza de
um estatuto oficial.
Outro exemplo: na abertura de um encontro internacional, a Sra. Helle Degn, uma ministra dinamarquesa, querendo desculpar-se por sua falta de familiaridade com o assunto para o qual havia recentemente assumido suas funções, disse: "I'm in the beginning of my period"[8] (Eu estou no início de meu período [menstrual]). Ela se tornou a piada daquela assembléia. Por quê? Porque mesmo uma pessoa com mais de 10000 horas de estudo e prática da língua, como é o caso dos escandinavos, está sujeita às armadilhas do inglês.
Os francófonos têm também eles a ocasião de saborear a inferioridade de seus parceiros. Um dia, quando eu trabalhava ainda na ONU, todas as delegações de língua francesa divertiram-se muito ao escutar a crítica de um representante, que repetia a expressão la politique du Cuba [9] constantemente, e que com isso se desmoralizava cada vez mais. Se nós tivéssemos o coração mais aberto e um pouco mais de compreensão humana, nós nos indignaríamos contra um sistema que impõe tais armadilhas a pessoas que de resto são competentes. Na oportunidade, o francês do orador era em todos os aspectos notável. Eu o situaria no nível 98 em relação ao índice 100 definido no capítulo III. O artigo diante do nome da ilha foi seu único erro. Ora, esse é ainda mais perdoável uma vez que se diz la politique du Japon ("a política do Japão"), du Togo ("do Togo")... Um francófono nunca cometeria esse erro, como os anglófonos no caso do th. É eqüitativo esse sistema que não reparte igualmente entre os povos o risco do ridículo? Num debate político, tornar-se ridículo é apresentar a posição que se defende sob uma circunstância desvantajosa. Será que é para conservar essa superioridade inicial que as grandes potências manobram sempre para evitar que se abra enfim o dossiê da comunicação lingüística no mundo?
[8]
Jyllands-Posten, 14 de janeiro de 1994; Sprog og erhverv, 1, 1994.
[9]
"A política do Cuba": além de errada a expressão
soa chula em francês. (N.T.)
* pág. 114. Traduzido por Ismael Mattos Andrade Ávila.
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10Autor norte-americano · viagem ao Japão
Por que um norte-americano usa o Esperanto?
O relato acompanha a experiência de um viajante norte-americano no Japão.
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Por que um norte-americano usa o
Esperanto?*
Joel Brozovsky
Muita gente acha que o inglês resolveu o colossal problema lingüístico. Portanto não há gente que defenda o Esperanto nos Estados Unidos, certo? Errado. A ELNA (Liga Norte-Americana de Esperanto) é uma das associações nacionais mais ativas no mundo. Existem vários autores e professores universitários de renome que utilizam e recomendam o uso de uma língua neutra internacional como o Esperanto. O artigo abaixo foi escrito por um norte-americano que sentiu na pele a diferença entre usar sua língua materna e o Esperanto ao viajar pelo mundo. Ele atualmente mora em Kameoka, no Japão.
Quando sou apresentado a alguém, sempre se espantam que eu, um
norte-americano, use o Esperanto no Japão, ao invés do inglês.
Às vezes nem acreditam que eu seja mesmo dos Estados Unidos, porque
me ouviram falar apenas em Esperanto.
Claro que a maioria dos norte-americanos prefere usar o inglês. Muitos
acham que o inglês já basta e que todos no mundo deveriam
aprendê-lo. Por que então eu prefiro usar o Esperanto
para comunicar-me com quem não tem o inglês como língua
nativa? Eis algumas razões:
Amizade. Em minhas longas viagens eu percebi que a maioria das pessoas que falavam comigo em inglês não se interessavam por mim como pessoa, nem por minha cultura. Estavam interessados em primeiro lugar no dinheiro. Ou eles queriam vender alguma coisa para mim, ou queriam aprender o inglês comigo, para poderem receber uma melhor educação e um salário mais alto. Do outro lado, uma grande porcentagem das pessoas com quem eu falo em Esperanto se interessam por mim como indivíduo e pela minha cultura. Muitos querem fazer amizade, e realmente de muitos eu me tornei amigo.
Igualdade. Se eu falo inglês com um japonês ou qualquer outro cuja língua materna não é o inglês, eu necessariamente vou estar na posição de "expert" na língua, e não importa quanto tempo essa pessoa tenha estudado o inglês ela vai falar num nível inferior, como um aluno diante de um professor, ou um empregado diante do patrão. Se nós conversássemos na língua dela, por exemplo em japonês, a situação seria a mesma, mas inversa. Essa desigualdade atrapalha muito o contato.
Abertura de portas. Durante minha longa volta ao mundo, o Esperanto
abriu uma quantidade enorme de portas para mim, literalmente. Eu fui hospedado
em 150 casas de esperantistas durante essa viagem de três anos, e
só uma noite um passei em hotel! Através do Esperanto e de
esperantistas eu pude desfrutar de um cultura muito rica, encontrar pessoas
muito diferentes e conhecer de perto suas vidas, culturas, lares, pensamentos
etc.
Alguns de meus bons amigos, depois de anos de amizade, confessaram que
antes de me encontrar eles não gostavam de norte-americanos. Se
eu tivesse usado o inglês, então, eu certamente não
poderia ter me tornado amigo dessas pessoas, que são agora muito
queridas. O Esperanto abriu as portas para eles.
Ajudar o mundo. Trabalhando para divulgar o Esperanto, eu tenho a impressão que faço algo de útil para o mundo. Se as pessoas puderem comunicar-se livremente, de igual para igual, e se conhecerem através do uso do Esperanto, certamente o mundo se tornará melhor, mais justo, mais simpático. Claro que eu não imagino que o Esperanto sozinho resolva todos os problemas do mundo, mas ele pode ajudar as pessoas a encontrar soluções.
Criatividade. Eu gosto muito de usar o Esperanto porque ele leva a uma maior criatividade. Por causa da grande flexibilidade da língua, eu me sinto mais livre escrevendo ou falando em Esperanto, em comparação com o inglês, cuja estrutura e vocabulário são relativamente mais rígidos. As possibilidades de se usar novas expressões em Esperanto são quase ilimitadas; é uma grande alegria buscá-las e encontrar a fórmula precisa, usando os elementos que já existem na língua.
Experiências valiosas e auto-confiança. Atravessando portas abertas pelo Esperanto eu tive muitas experiências valiosas, que dificilmente eu poderia ter sem o Esperanto. Experiências tão ricas contribuíram para minha auto-confiança e prepararam-me para agir com mais competência no mundo.
Nova visão de mundo. Talvez a maior vantagem que eu recebi tenha sido uma mudança drástica na minha visão de mundo. Antes eu achava que o mundo estava cheio de estrangeiros - gente muito diferente e inatingível. Com "gringos" não dá para ser simpático, porque eles são estranhos, não é? No entanto, graças à minha vivência usando o Esperanto, eu descobri que essa é uma visão muito errônea. O mundo está cheio, não de estrangeiros, mas de pessoas como eu e minha família. E mais, muitas dessas pessoas querem ser meus amigos, se tiverem a oportunidade de encontrar-se comigo e me conhecer. Logo, não são estrangeiros, mas amigos ou futuros amigos.
Que grande diferença! Agora eu me sinto realmente ligado às pessoas mundo afora. E eu não me sinto mais preso a apenas uma parte do mundo, a apenas uma língua, uma cultura. Eu sou livre para interagir com as pessoas no mundo, porque em toda parte se encontram pessoas amistosas e porque o Esperanto me dá os meios de falar facilmente com elas.
* artigo publicado originalmente na revista Nova Vojo (Oomoto, Japão) e reproduzido na revista Esperanto, número. 1099, pág. 11, de Janeiro/98. Traduzido pelo KCE.
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11Autor físico · nome não indicado no índice
Qual língua para o mundo?
Um físico relaciona democracia e comunicação ao debate sobre uma língua de uso internacional.
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Boca Livre: qual língua para
o mundo?
Prof. José J. Lunazzi
Físico e professor universitário argentino, Lunazzi aprendeu esperanto há poucos anos. Segundo ele próprio desde então suas viagens internacionais pela França, Bélgica, Hungria, Estados Unidos, China, Coréia e Japão ganharam uma nova dimensão: a do contato direto com simples moradores desses países. O texto foi escrito para o jornal "Boca Livre" de Campinas, com circulação gratuita no distrito de Barão Geraldo (onde se localiza a UNICAMP e Lunazzi é morador há mais de 20 anos).
"Boca Livre"... Quer dizer liberdade de expressão? Mas nós não temos já liberdade de expressão, democracia? Existem temas proibidos? Sobre que trata o "Boca Livre"? Sobre Barão Geraldo ou sobre a liberdade de expressão? Sobre coisas locais ou sobre coisas universais? Li sobre temas de física, que valem em Barão e no universo todo. Então concluo: pelo "Boca Livre" pode-se falar sobre Barão, mas também sobre o que Barão sabe ou pensa do mundo. Por outro lado, "Boca Livre" pode significar o oposto de "Rabo Preso".
Com isto vou me orientando para o tema que quero expor: democracia e língua internacional. Mas vale a pena tratar sobre temas utópicos?. Pois para nós, habitantes de Barão Geraldo ou da América Latina, democracia é pura utopia.
Basta ver que um dos países com maior tradição democrática, a Argentina, está atingindo seu recorde de duração do período democrático: magros 14 anos, atrapalhados pelo peso de uma dívida externa que triplicou ao longo da última ditadura. Costa Rica talvez seja a exeção. Já pensou a eletricidade em sua casa funcionar durante algumas horas no dia, outras não, e ter de pagar mais caro pelo tempo em que não a usou? Nos EUA e na França, nos últimos dois séculos, a democracia somente foi interrompida pela guerra, a grande massacradora de democracias, deixando intervalos de 22-52 anos até a proxima hecatombe. Mas democracia é uma daquelas palavras muito amplas, como amor, Deus, Pátria, que podem significar muito, ou nada, dependendo da idéia que cada um de nós faça delas. Para mim quer dizer igualdade de oportunidades, de direitos, de deveres. Ela foi criada na Grécia Antiga, há mais de 2.000 anos, para uma classe social que escravizava outras. Ou seja, não nasceu ampla e universal. E como permanece hoje?
Já citei dois dos países onde a estrutura interna mais tende à igualdade de oportunidades, de direitos e deveres. Isto é interno, e para fora? Internacionalmente, não tenho dúvidas, continua valendo a lei do mais forte, criada por uma elite, mas influenciada pela sua opinião pública. Vou me centrar num detalhe: a língua das comunicações internacionais. Na historia ocidental parece que uma das mais antigas foi o lusitano, depois veio o Império Romano e obrigou a usar o latim, mais tarde as legiões de Napoleão obrigaram a usar o francês, que ficou forte até a Segunda Guerra Mundial. E assim seguimos, deixando que o mais forte imponha sua língua, o que vai contra a igualdade de oportunidades. Pois não deveria acontecer que uma pessoa que passou no mínimo quinze anos de sua vida usando e aprendendo a língua de seus pais e de seu país, venha a dizer a outra, que não nasceu nem cresceu usando essa língua: - "Não entendo você" , "Você não sabe se expressar" , "Como você não consegue acompanhar as conversas nessa reunião?" , "Essa piada você não conhecia? Pois está na última moda". Pior ainda é quando o interlocutor cala por timidez ou sequer percebe quanto exatamente está deixando de entender.
Pode-se argumentar: "Bem, mas alguma teria de ser a escolhida, o processo é natural". Não posso concordar por dois motivos: porque a lei do mais forte, sendo natural, faz a humanidade retroceder, e porque uma boa solução existe. Depois de séculos de muitas tentativas de se obter soluções racionais baseadas somente em alguns belos princípios, aparece no fim do século passado uma língua construída que atinge sucesso parcial: o volapük, que subsiste ainda hoje em alguns redutos. Aprendendo com os erros das anteriores, e vendo a funcionalidade da hibridação (lembremos a língua moderna dos judeus, o swahili na África, o tupi-guarani usado por Padre Anchieta, feitos de arranjos e sintese de línguas), Luís Zamenhof cria em 1887 o esperanto. Mesmo incompleto, rapidamente atinge Europa e começa a se espalhar pelo mundo. A língua foi definitivamente consagrada após o primeiro encontro mundial, em Boulogne-sur-mer em 1905, com 688 inscritos. Em 1906 funda-se em Campinas o primeiro centro esperantista do Brasil, por Tobias Leite e João Keating, entre outros pioneiros, que fizeram os primeiros dicionários do país.
A Primeira Guerra Mundial certamente interrompe o crescimento do esperanto que, de todas maneiras, nao cessará jamais. Nem com a morte de muitos adeptos nos campos de concentração da Segunda Guerra ou nos expurgos de Stalin. Existem organizações em todos os países, com pouquíssimas exceções. Calcula-se em dois milhões o número de falantes. Apesar de ocidental, a língua é muito bem aceita na Ásia, pois resulta até 10 vezes mais simples que qualquer língua nacional. Várias religiões a utilizam: católica, bahai, uonbulista, luterana, espírita, mas somente uma, a Oomoto japonesa, a tem como língua oficial. Existem uns 50.000 livros, muitos periódicos e revistas e numerosos boletins, e associações para todo tipo de atuação (arte, xadrez, medicina, ciência, comunismo, filatelia, etc.).
É língua reconhecida pela UNESCO e, dentre as personalidades que a utilizam destaca-se o premio Nobel de Economia de 94 Reinhard Selten. Dentre as que a apoiam, o escritor Umberto Eco, em seu livro "A procura da Língua Perfeita". O primeiro partido político transnacional, o "Radikala Partio", europeu, a usa e trabalha para que seja adotada na União Européia, que gasta fortunas em traduções.
É comum as pessoas acharem o esperanto ser "uma língua morta", ou "a língua que quer substituir as demais". Por vez de obscurecer ou "pasteurizar" as culturas, pelo esperanto é que temos contato direto também com as culturas e países mais esquecidos da mídia. A melhor maneira de viajar pelo mundo é com o esperanto: a pessoa sempre recebe apoio onde quer que for. Tóquio, por exemplo, tem 40 clubes. No aeroporto de Pequim o inglês é língua inútil para se comprar uma passagem nacional, como aconteceu comigo na hora da chegada. Para se conseguir emprego hoje em dia em empresas importantes, conhecer uma segunda língua põe você em vantagem. O que mais posso dizer? Nao adianta gastar muito tempo falando de utopias, verdade? Mas se você for curioso, verá que Campinas tem 5 grupos esperantistas, e pode até haver um em seu bairro. Barão Geraldo tem na UNICAMP. Se tiver acesso à Internet, perceberá mais ainda a necessidade de uma língua simples para uso internacional. Entre em http://www.aleph.com.br/kce e descobrirá o mundo do esperanto. Os cursos pela Internet são gratuitos.
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12Autor não indicado no índice
Esperanto, expressão e sentimento
O artigo trata da capacidade expressiva do Esperanto e da relação entre simplicidade e riqueza de expressão.
Esperanto, expressão e
sentimento
Henri Masson
A partir da pergunta feita por uma leitora, em agosto/98, no fórum eletrônico do jornal "L'Européen", o francês Henri Masson, autor de "L'Homme qui a défié Babel", deu a seguinte resposta, cuja reprodução aqui foi gentilmente permitida.
Pergunta: Como não-esperantista, gostaria de destacar o seguinte ponto: vocês falam de facilidade, simplicidade, de rapidez quando se trata do aprendizado do esperanto. Mas deixo a pergunta: vocês não temem simplificar demais o que nós expressamos através de todas as nuances do inglês ou das outras línguas? São essas nuances, tidas como dificuldades gramaticais, que fazem a riqueza de nossas línguas. Se optarmos por uma única língua, simplificada ao extremo, não vai ser difícil de se exprimir o que realmente sentimos? Não correremos o risco de transmitir um pensamento "padronizado"?
Em primeiro lugar, é importante dizer que o esperanto jamais pretendeu ser a "única língua" e que ela não é uma "língua simplificada ao extremo". Esta simplificação limita-se àquilo que não é essencial à expressão, à transmissão, à percepção, à compreensão do pensamento. Ela não conduz, de modo algum, à simplificação da idéia. Como qualquer outra língua, o Esperanto permite tratar assuntos muito complexos. Eu não acho que o meu uso do francês e o meu estilo sejam afetados por saber Esperanto. Pelo contrário, às vezes o Esperanto me dá uma indicação, uma referência, uma flexibilidade maior. As línguas são trilhas semeadas de cascas de banana. Como a expressão pode ser prejudicada, se finalmente é possível olhar para algum outro lugar além do chão, e finalmente admirar a paisagem?
Professor da London College University, renomado especialista da fonologia inglesa e autor de uma obra monumental intitulada "The Accents of English", John C. Wells disse, a respeito do inglês, durante uma conferência em Esperanto no Centro Pompidou (Paris) em1987: "Chomsky e seus colegas conseguiram compilar um conjunto de regras extremamente complicadas que, com cinco regras principais e quarenta categorias de exceção e cento e vinte categorias de exceções às exceções, permite determinar corretamente a posição do acento nas palavras do inglês". Poliglota (inglês, galês, francês, alemão, grego - antigo e moderno - italiano, latim) e esperantista brilhante (autor, dentre outros, de um dicionário de Esperanto na célebre coleção "Teach Yourself"), John Wells pode portanto comparar e julgar. Ele se inclina mais ao esperanto que ao inglês para o papel de língua de comunicação internacional. Basta ver seu sítio na Internet.
Não se trata, de modo algum, de optar por uma única língua, mas de permitir a todo mundo um denominador lingüístico comum a partir do qual cada um pode então escolher livremente se vai aprender uma ou mais línguas. Difícil demais para a maioria dos alunos (as estatísticas falam por si sós -veja-se o relatório n° 73 do Senado Francês [95-96], chamado "Relatório Legendre"), o inglês não é apenas uma língua de bloqueio, de inibição, mas também de alienação. Nada disso vai se produzir com uma língua de acesso mais fácil e livre de ligação com qualquer potência que seja. "O fato que nenhuma potência política ou econômica apóie o Esperanto não é uma fraqueza, mas uma chance para o futuro". Esta conclusão do diário austríaco "Standard" (24/03/98) não deveria estimular uma reflexão mais profunda?
Já que o franco, o marco alemão ou a libra esterlina foram rejeitados para o papel de moeda única européia, como admitir o estatuto de língua única para o qual se empurra discreta ou abertamente o inglês? Língua, aliás, por trás da qual se acham potências cujos interesses divergem dos países não-anglófonos da União Européia e, mais ainda, do mundo inteiro. A construção da Europa esbarra em inúmeros problemas lingüísticos, que já constituem um problema mundial. É infinitamente mais grave.
Para julgar sobre fatos, e não boatos, por que o "L'Européen" não enviou um jornalista ao Congresso Mundial de Esperanto, em Montpellier (França), onde neste verão (1998) 3.133 participantes de 66 países - e dezenas de zonas lingüísticas - puderam se entender , sem intérpretes, à qualquer hora e em qualquer lugar? Era o momento de se ver onde está o verdadeiro e o falso, de comparar esse sistema com o sistema dos deputados e instituições européias que patinam com apenas onze línguas oficiais. No próximo ano será mais distante e certamente mais caro: Berlim. No ano 2000 em Tel-Aviv, em 2001 em Zagreb.
Como o tema do presente debate se refere mais às línguas estrangeiras nas empresas européias, eu posso dizer que um dos estandes mais visitados em Montpellier foi o da TAKE-Esperanto (associação mundial de esperantistas profissionais da construção e obras públicas) e do IKEF (grupo comercial e econômico) que visam a promoção do Esperanto a serviço da economia, do comércio e das empresas.
É preciso se render às evidências: o Esperanto passou do estágio de sonho. Que meio de comunicação contou, por exemplo, que o novo presidente da Associação Universal de Esperanto (Rotterdam, Holanda) é o antigo Procurador-Geral e Ministro da Justiça da Austrália, Kep Enderby, que sucedeu Lee Chong-Yeong, professor de economia em Seul, que por sua vez foi precedido por John Wells? Tenta-se passar a idéia de que os falantes de Esperanto são pessoas ingênuas, sem saber que essa língua é operacional em um número crescente de setores e de países. As pessoas emitem uma opinião definitiva sobre o Esperanto a priori, a partir de boatos, sem mesmo ter estudado o assunto, o que elas jamais ousariam fazer sobre outros temas: elas confessariam humildemente nada saber. Quantos leitores do "L'Européen" sabem que Bill Gates disse, por ocasião da Comdex 1995: "A Internet é apenas uma moda, nós não vamos cair nessa"? Eis um homem cujo pensamento deu uma enorme guinada em pouquíssimo tempo!
Muitas questões relativas a diversos aspectos do Esperanto encontram uma resposta em mais de trinta línguas no sítio http://www.esperanto.net [ou diretamente em português: http://www.aleph.com.br/kce e http://www.brnet.com.br/bel/bel].
Quanto a expressão e sentimento, há em Esperanto uma notável brochura intitulada "Esprimo de sentoj en Esperanto", da década de 30, cujo autor (Edmond Privat) foi professor de inglês na Universidade de Neuchâtel. É uma leitura recomendada até para os principiantes, antes de se atirar ao "Retoriko", obra magistral do professor croata Ivo Lapenna, um eminente especialista de Direito Internacional em Londres.
O Esperanto não parou de se enriquecer e não é de hoje que ele permite exprimir sentimentos. É preciso dizer que contatos entre homens e mulheres de nacionalidades e línguas diferentes, durante congressos de Esperanto e outras ocasiões, acabaram em casamento? A primeira vez foi em 1899 entre um sueco e uma finlandesa. Pelo que sei, a última vez que Cupido agiu foi em Wuhan, a grande cidade chinesa hoje ameaçada pelas inundações. A flechada atravessou os corações de um voluntário holandês da organização britânica Volunteer Service Overseas (OVS) e de uma chinesa. No alvo! Eles se casaram neste mês de agosto.
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13Otto Lara Resende · Brasil
Língua Legal
O acadêmico Otto Lara Resende comenta línguas e Esperanto.
Língua Legal
Otto Lara Resende
Artigo publicado por Otto Lara Resende (1922-1992), da Academia Brasileira de Letras, na sua coluna em O GLOBO, de 02/08/1981, p. 8. Gentilmente indicado ao KCE pelo sr. Fernando Marinho.
a causa de grande parte dos males da humanidade".
Paulo Rónai
Quase simultaneamente abriu-se em Brasília um congresso internacional de esperanto, que se pretende uma língua capaz de levar-nos todos de volta à véspera da Torre de Babel. O seu engenhoso inventor, o médico polonês Zamenhof, teve mais sorte do que outros colegas de utopia idiomática. O volapuque, por exemplo, que é outra tentativa de comunicação universal, também do século XIX, mal passou de seu criador, o padre alemão Martin Schleyer. No Brasil, já teríamos perdido a memória da simples existência do volapuque, se não fosse um verso de Carlos Drummond de Andrade.
O esperanto não é uma língua de farrapos, pelo menos aos olhos de nossas autoridades, que prestigiaram o congresso de Brasília. O Presidente não pôde comparecer. Mas a imprensa, o rádio e a televisão noticiaram que o Vice-Presidente [Aureliano Chaves] interrompeu o repouso na sua fazenda em Minas e foi bater um papo, quem sabe em esperanto, com os congressistas decididos a pacificar o mundo à sombra do preceito zamenhofiano de um só rebanho e um só idioma. Não deixa de ser curiosa a existência de tantos sacerdotes a celebrar na ara da língua única internacional.
Sou um pecador de muitos pecados, mas de repente a omissão do esperanto granha em mim proporções dramáticas. O tempo é pouco para aprender tudo que desejo saber e principalmente tudo que preciso conhecer. Nunca me esqueci da admiração com que, menino, tomei conhecimento de que Machado de Assis, aos 69 anos, já prometido de morte, insistia em estudar grego. Alguns anos depois, João Guimarães Rosa me contaria como é que, médico em Barbacena, mergulhava de manhãzinha numa banheira de água gelada, a fim de chicotear o corpo e preparar o espírito para o aprendizado autodidático das línguas que o levaram ao Itamaraty. Pouco antes de morrer, os olhos claros rindo quase fechados, Rosa me confidenciou que estava estudando o vietnamês arcaico, não por causa da guerra do Vietnam, mas para conhecer a rica literatura vietnamita antiga.
Não sei se gostaria de conhecer todas as línguas, mas gostaria de conhecer bem, à perfeição ao menos uma só língua, fosse ela qual fosse, inclusive e sobretudo a portuguesa-brasileira. O dom de entender e de falar línguas estrangeiras, sabe-se que é um talento secundário. Basta dizer que está ao alcance de qualquer portaria de hotel e de outras úteis profissões que, sem desdouro, dispensam nível intelectual acima da cota zero. Afinal, a língua é um instrumento de expressão. Onde não há o que dizer, não é preciso língua nenhuma. Os poliglotas acabam sabendo e empregando uma forma coloquial de uma só língua, ainda que sujeita a umas tantas variáveis. Falo dos poliglotas que papagueiam meia dúzia de frases feitas, suficientes para entreter, por exemplo, com um ilustre desconhecido, uma conversa meteorológica.
Alheias ao esnobismo dos adultos, as crianças só falam mais de uma língua se de fato isto lhes é indispensável, se o convívio reclama delas mais de um instrumento de comunicação. E porque falam por necessidade, falam também à vontade. De resto, necessária, a língua acaba se impondo ao mais empedernido monoglota. Basta ver a facilidade com que os brasileiros ricos compram e gastam em Paris ou em Nova York. O conhecimento do francês e do inglês é dispensável; só não se dispensa o dinheiro, ou o dólar, senha de circulação universal, que confirma a viabilidade do esperanto, pelo menos do esperanto monetário.
Os dois jornalistas franceses com quem falei estavam mais preocupados com as tendências da cultura brasileira neste momento do que propriamente com o predomínio ou a decadência de sua língua materna no Brasil e no mundo. Como bons franceses, sabiam pouco do nosso país. Ou melhor: sabiam o essencial. Hospedados em Copacabana, tinham sido alertados para não se deixarem roubar. Viam-se cercados de pivetes, trombadinhas e assaltantes. Por mal dos pecados, um deles perdeu os óculos quanda falava comigo. Levemente culpado, revistei bolso por bolso e concluí com alívio que ainda desta vez não fui eu.
Gostaria de saber o que se concluiu no congresso de língua francesa no Rio, como também gostaria de conhecer os debates de universal confraternização que ergueram sua voz em Brasília. No esperanto há um radical latino de esperança. Tudo que contribui para o entendimento dos homens é positivo. No Brasil estamos precisando de um cânon, de um código para que nos entendamos. O caminho democrático pode passar pelo esperanto e quem sabe um dia chegamos assim à Constituição, depois de passar pela Constituinte. Afinal, a nossa crise tem sido diagnosticada também como crise de palavras. Escrevemos e falamos cada vez com mais desleixo, com mais pobreza vocabular. Até a linguagem oficial perdeu-se numa algaravia cujos solecismos ofendem pessoalmente um linguista da competência de Abgar Renault.
Foi-se o tempo em que Ruy chovia torrencialmente no Senado a sua polêmica sobre a redação do Código Civil. Um código se faz hoje do pé para a mão. Tudo é legal, no sentido estrito, da lei, e no sentido amplo, de tudo bem. Mas temos de reconhecer que a indigência linguística não é só brasileira. Os franceses também se queixam e ainda recentemente uma revista de Paris divulgava um inquérito desanimador, feito entre jovens, e concluía que será preciso reaprender o francês. Nos Estados Unidos não é diferente. Com o orgulho que lhes é próprio, os franceses dizem que o inglês se impõe como língua do comércio, enquanto o francês é veículo de cultura. A gente sabe que não é bem assim. Num livro de 1947, "Território de Epidauro", Pedro Nava denunciava uma campanha contra a França, com a "tentativa de obstar a difusão do livro francês e a sugestão criminosa e parricida da eliminação da língua francesa como disciplina obrigatória dos nossos cursos ginasiais". Não sei se Pedro Nava ainda subscreve esta indignação francófila. Quanto a mim, fiz a minha opção: caminho para o esperanto básico, véspera do silêncio.
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14Affonso Romano de Sant’Anna · Brasil
O Esperanto contra a Babel do Desamor
Para o poeta Affonso Romano de Sant’Anna, o Esperanto envolve mais do que a língua em si.
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O Esperanto contra a Babel
do Desamor
Affonso Romano de Sant'Anna
Artigo publicado na sua coluna do Caderno
B, no JORNAL DO BRASIL de 17/07/85. Gentilmente cedido pelo autor
e indicado ao KCE por Fernando Marinho.
Falar uma língua estrangeira é romper uma fronteira. Falar muitas é romper várias. Falar o Esperanto é querer romper todas de uma vez.
E enquanto estamos aqui no ti-ti-ti doméstico e no blá-blá-blá de nossas mazelas provincianas e nacionais, centenas de pessoas começam a se reunir hoje, em Belo Horizonte, no 21o. Congresso Brasileiro de Esperanto. Para ali foram aqueles que crêem que grande parte dos males da humanidade advém dessa Torre de Babel em que vivemos. E que se falássemos uma outra língua, um idioma universal, sem dono, seríamos menos estranhos e estrangeiros e estaríamos mais perto da felicidade.
Todo esperantista me comove. Mesmo porque ser filho de um esperantista não é uma experiência que se possa esquecer. E, se eu fosse um filho zeloso, como manda a Bíblia, deveria era estar ali em Belo Horizonte engrossando aquele coro de querubins, que anseiam pela harmonia lingüistica aqui na Terra. E para quem não sabe adianto logo: o Esperanto foi criado por um judeu polonês em 1887. É uma língua com menos de 20 regras , sem exceções e para ela já estão traduzidas muitas das grandes obras literárias. E, no Esperanto o que me seduz não é só o fato lingüístico, mas o fato social. É que a essa língua se dedicam pessoas que ainda têm uma candura e um idealismo comovedores. Não é uma língua de assassinos, especuladores e armamentistas. Me lembro de meu pai* correspondendo-se com o mundo todo. Diariamente chegavam aquelas cartas com aqueles selos mágicos da China, Coréia, Madagascar , Rumênia, Austrália, etc. E os esperantistas trocando afetos e presentes. Me lembro de meu pai mandando, durante a guerra, alguns pneus de bicicletas para esperantistas holandeses, porque não havia borracha disponível na Europa e porque, mesmo apesar da guerra meu pai acreditava no correio holandês. E os pneus chegavam, e chegava o café e toda sorte de socorro. Pequenos sinais de amor entre pessoas que só se conheciam através da língua criada por Zamenhof.
Falei que o criador do Esperanto foi um judeu polonês. E isto explica que seja um gesto utópico de revolta contra a opressão. Que só um oprimido, constrangido a não falar sua língua e espremido entre a Rússia e a Prússia, poderia ter esse gesto. E agora imaginem o drama de Zamenhof, ao saber que seu próprio pai, como um Jeová todo poderoso, havia destruído a gramática que ele escreveu. Imaginem o desespero adolescente do jovem tendo que reconstruir tijolo por tijolo a torre lingüística, pela qual ele queria acabar com a Babel maldita. Há, aliás, nesse episódio algo que nos deixa intrigado com Jeová. Porque o cap. 11 de Gênesis diz que no princípio só havia uma língua no mundo e por causa disto os homens se encontraram numa planície e começaram a construir uma torre para chegar aos céus. Com isto, Deus se assustou, porque "o povo é um , e todos têm a mesma linguagem "agora não haverá restrição para tudo que intentem fazer". Deus ficou com ciúme e disse: "Vinde, desçamos e confundamos ali a sua linguagem, para que um não entenda a linguagem outro". Como se vê, o mito bíblico repete o mito de Prometeu , pois Zeus castigou Prometeu por lhe ter roubado o fogo, que era sinônimo de poder. Isto prova que a gente tem que tomar muito cuidado com os deuses. As mitologias provam que eles gostam muito da gente, desde que não se queira concorrer com eles. Isto é uma tremenda injustiça, porque, que eles queiram ser deuses, tudo bem, agora condenar a gente a ser sempre esses pobres mortais, é demais.
Por isto, pouco importa que um ou outro gramático faça essa ou aquela restrição ao Esperanto. Essa língua, mais que um artefato de vogais e consoantes, é um acontecimento social e psicológico. Ela muda a vida das pessoas e as torna melhores, como me relata a leitora esperantista Isabel Santiago**. Como vocês sabem, os nazistas arrasaram a cidade de Lídice na Europa. E imediatamente, em várias partes do mundo, homens livres batizaram cidades emergentes com o nome de Lídice. Pois, quando comemoraram os 40 anos da destruição de Lídice os adolescentes da Tchecoslováquia, através do Esperanto, realizaram uma exposição sobre todas as Lídices que brotaram no mundo, inclusive aqui, no Estado do Rio.
É isso: os deuses zangados confundem
os homens e os ditadores destroem as cidades. Mas os idealistas procuram
uma língua que nos resgate a todos.
Nota:
* Jorge Firmino de Sant'Anna, esperantista em Juiz
de Fora
** Isabel Santiago, atualmente em Rotterdam-Holanda, é autora
do livro "O Que é Esperanto?", Col. Primeiros Passos,
Ed. Brasiliense.
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15Autor não indicado no índice
Porco na Cabeça!
Um episódio contado a partir dos efeitos concretos do preconceito.
Porco na Cabeça!
Fernando J. Galvão Marinho
Petrópolis, RJ
Um motorista apressado descia determinada serra cheia de curvas. Surge na contramão outro carro em alta velocidade. Enquanto evita o choque, o motorista grita para o que vinha descendo: "-Porco !"
Resposta fulminante: "- Idiota!"
Logo depois da curva, o apressado motorista reconhece o erro de interpretação: cruzando a estrada, um enorme porco colocava em risco os que por ali trafegavam.
Esta é uma conhecida metáfora, usada para ilustrar como estamos sujeitos à influências de inúmeros paradigmas. Por falta de espaço e de competência, não vou me enveredar pelas teorias de Thomas Kuhn e de Fritjof Capra, sobre o tema "paradigmas". Fiquemos em esclarecimento rasteiro O que levou o apressado motorista a ofender o colega foi a instantânea e involuntária evocação de fatos anteriores que já estavam catalogados para produzirem aquele modelo de reação.
Quando escolhi o título deste artigo, estava querendo criar um outro exemplo de paradigma. O leitor deve ter julgado que o texto trataria de algo relacionado ao "jogo-do-bicho", porque a expressão "porco-na-cabeça" já está associada, há muito tempo, ao citado jogo. Exemplo de paradigma científico: "o câncer não tem cura". Afirmações deste tipo - principalmente se emitidas por cientistas - criam enormes obstáculos para o êxito do tratamento.
O saudoso Prof. Walter Francini, autor de ESPERANTO SEM PRECONCEITOS, editado pela Associação Paulista de Esperanto (R. Faustolo 124, CEP 05041-000, São Paulo-SP), nos informa que até a idade de trinta e três anos não aceitava o esperanto porque, na universidade que freqüentava, um competente professor dizia que artificialismos não vingam no campo lingüistico. Nessa interessante obra, ele não só esclarece o que é o esperanto, quais são o seu objetivo e realizações, mas ainda nos mostra que nenhum dos preconceitos contra a língua internacional tem base.
Ao ouvir falar sobre o esperanto, por favor, reduza a velocidade; não se deixe influenciar por paradigmas pseudo-científicos; não se aborreça com a nossa insistência; preste atenção ao interlocutor , pois, provavelmente, ele estará querendo ajudá-lo a encontrar itinerários menos tortuosos, a viajar por caminhos que contenham menos obstáculos, a apreciar melhor as paisagens que as estradas da vida nos oferecem.
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16Autor não indicado no índice
Um prisioneiro político: tudo por causa do Esperanto
Um relato histórico sobre as consequências de manter amizades internacionais por correspondência.
Um prisioneiro político - só por causa do Esperanto
Jaromir Babitchka acaba de festejar seus noventa anos de idade. Ele permaneceu fiel aos ideais do Esperanto e à ferrovia durante toda a vida, embora justamente essa fidelidade ao Esperanto e ao internacionalismo transformaram-no em um "espião" e ele foi preso nas condições mais terríveis do campo de concentração comunista de Jachymov (Rep. Tcheca). Stanjo e Petro Chrdle entrevistaram-no para a revista Sennaciulo (n. 1123, Jan./99), da Associação Mundial Sem-Nacionalidade (SAT). Tradução do esperanto para o português feita pelo Kultura Centro de Esperanto-Campinas.
[J. Babitchka]Stanjo: Quando e como você tomou contato com o Esperanto?
Babitchka: Quando eu era vice-chefe da estação ferroviária de Podmokly (atual Decin), um francês procurava um tcheco e me mostrou uma carta escrita numa língua desconhecida. Isso foi em 1945, depois da guerra. Eu me admirei: o francês eu sabia, mas não era aquela língua - embora eu compreendesse um pouco do conteúdo. Depois de saber que se tratava da língua internacional Esperanto, eu a aprendi rapidamente. Um ano depois eu já comecei a ensiná-la e fundei um clube de Esperanto para ferroviários locais, o "Sempre Avante".
Petro: Todos sabemos que você foi acusado de atividades contra o regime socialista. Mas como foi expressa efetivamente a acusação? Quando e como você foi informado?
Babitchka: A citação do parágrafo foi concisa: espionagem para o ocidente por meio de palavras codificadas em cartas em Esperanto e traição à pátria. Isso aconteceu em setembro de 1953, durante meu tratamento na estação hidromineral de Marianske Lazne. Ao voltar de um passeio, estavam me aguardando dois policiais civis e sem nenhuma explicação me conduziram para a prisão de Litomerice, onde fui interrogado diariamente durante quatro meses, até o fim do julgamento. Como eu foram presos também alguns dos meus alunos, que "receberam" alguns anos a menos na condenação.
Stanjo: De quanto em quanto tempo você podia ter contato com sua família? Você podia visitá-los, ou pelo menos receber a visita deles?
Babitchka: Sair para visitar a família era impossível. O direito de receber a visita de um parente era para uma vez a cada dois meses, por dez minutos, através de uma cortina de ferro, sob o olhar de um guarda - isso com a condição de que nesses dois meses a conduta tivesse sido irrepreensível. Eu mesmo consegui receber a permissão duas vezes durante toda a minha estada lá.
Stanjo: Quando você conseguiu reverter a condenação e se libertar, em outras palavras, quanto tempo você teve que sofrer?
Babitchka: Depois do veredito do tribunal, meu advogado me aconselhou não apelar, porque ele acreditava ser um desperdício de dinheiro e de tempo. Ele prometeu pegar o caso no momento em que a pressão política fosse menos intensa. E ele realmente fez isso em 1956, depois do fim do culto à personalidade de Stalin. Então em fevereiro de 1957 eu fui solto e dois meses depois declarado inocente desde o começo. Não recebi, porém, qualquer indenização e não pude encontrar trabalho. Mas isso já é outra história.
Petro: Eu sei, de outras conversas com você, que voce não gosta muito de se relembrar desses anos e nós entendemos bem o porquê. Mas você poderia descrever aos leitores um típico dia de trabalho na prisão?
Babitchka: Nós trabalhávamos muito nas minas de urânio de Jachymov, oito horas por dia, em três turnos. Da nossa prisão nós éramos conduzidos em um pelotão fechado em filas de 7 pessoas cada, tão apertado que só se podia dar um passo todos ao mesmo tempo; cercados com uma corrente, que precisavam segurar os que estavam nas laterais, e ainda à nossa volta iam guardas com cães. Nós éramos os prisioneiros mais perigosos! Nas minas profundas nós trabalhávamos pesado em um calorão. Ao sair das minas nós tínhamos que esperar bastante tempo a chegada de guardas para sermos escoltados de volta, às vezes por horas, principalmente se tudo estava congelado.
Stanjo: Você ainda pode se lembrar do que recebiam para comer?
Babitchka: Quanto à comida o mais terível foi no período do inquérito, quando era quase nenhuma e ainda mal podia se comer. No trabalho das minas nós recebíamos já um pouco mais. Além disso nós podíamos comer mais pão, e por boa conduta podíamos até comprar waffles. Ficava claro que nós precisávamos estar fortes. Nem sempre, mas de vez em quando nós recebíamos até carne.
Petro: Você pode se lembrar de um acontecimento que tenha sido especialmente desagradável e pelo menos uma boa experiência vivida no campo de concentração?
Babitchka: Meu primeiro Natal em Jachymov foi incrível. Indo à latrina eu não prestei atenção, por causa da neve, a um guarda e não o cumprimentei. Vei o castigo: quatro dias na solitária. Fui jogado numa cela com janela de grade sem vidro, pela qual nevava dentro da cela e congelava tudo. Antes de entrar, eu tive que tirar os sapatos e fiquei descalço. Dentro havia um beliche, sem cobertor. Para comer eu recebia um pedacinho de pão para o dia todo e uma jarra de agua morna. Dois dias eu consegui andar e me movimentar para não morrer congelado, até que eu tive a coragem de berrar que eu precisava de um médico. O guarda me desaconselhou dizendo que haveria condições ainda piores como um novo castigo. Mas eu insisti e fui levado ao médico, que me permitiu receber um cobertor. Fui levado ao almoxarifado onde havia uma pilha de cobertores que ia até o teto. Eu percebi que um era mais grosso e o escolhi. Isso provavelmente salvou a minha vida, porque eram dois cobertores dobrados como se fossem um e eu até me aventurei a dormir e não morri.
A melhor experiência? Quando nós soubemos, através de novos presos, que na Hungria começara uma contra-revolução e que os stalinistas seriam provavelmente afastadados. Logo nós sentimos um comportamento mais humano, até um dia quando fui chamado ao escritório e me anunciaram que eu estava livre para voltar para casa. Eu não acreditei, achando que era mais uma brincadeira cruel, ao final da qual eles me atirariam como em um fugitivo, mas a notícia tornou-se verdade!
Stanjo: depois de tanto sofrimento que você passou por causa do Esperanto, você lamenta tê-lo aprendido?
Babitchka: Não. Pelo contrário, o Esperanto me trouxe um sentido à vida. Através dele eu conheci os melhores amigos e ele até salvou a minha mente naqueles quatro anos difíceis: nós podíamos emprestar um livro a cada dois meses para que vivêssemos com cultura nas barracas. Eu o lia sempre rápido e depois o traduzia às vezes em Esperanto, mesmo sem papel, só para exercitar o cérebro até receber um novo livro.
Nós o agradecemos muito por suas respostas e lhe desejamos (certamente também em nome dos leitores da Sennaciulo) saúde e alegrias ainda por muitos anos.
Nota: nem todos tiveram uma resistência tão boa e voltaram para casa... Todas as vítimas, mas também os verdadeiros criminosos que atormentaram presos políticos inocentes, são lembrados em um museu que será visitado na excursão "Jachymov" do 72. Congresso Anual da SAT em 1999, em Karlovy Vary. É do material informativo do Congresso que retiramos o texto de Stanjo Chrdle:
Jachymov - cidadezinha que ficou famosa algumas vezes
Jachymov (leia-se jahimof) é hoje uma cidadezinha tranqüila e uma bela estância hidromineral, mas séculos atrás foi uma importante cidade tcheca (a segunda maior), e ficou famosa mundialmente. Já na Idade Média existia lá uma rica mina de prata e na casa da moeda local surgiu o "tolar de Jachymov", que se tornou rapidamente uma unidade monetária adotada amplamente e que veio até a dar nome ao dólar, usado em muitos países, inclusive os EUA.
No século XIX a cidade se tornou mais uma vez mundialmente conhecida por sua rica jazida de urânio, da qual Marie Curie-Sklodowska com a ajuda de seu marido isolou o rádio e com isso deu início a uma nova época da tecnologia. Mas a existência do rádio teve também outras conseqüências que influenciaram a vida da cidade. Já em 1906 era usado o elemento rádio para tratamentos e é usado até hoje. Parece ter sido a primeira, mas certamente é hoje a mais conhecida.
O urânio trouxe também sombras à história da cidade. Por sua riqueza em urânio, depois da Segunda Guerra 100% dessa matéria-prima estratégica eram exportados para a União Soviética. Para o trabalho perigoso faltava mão de obra, então lá trabalhavam os prisioneiros de guerra e desde 1951 lá funcionou o mais mal-afamado campo de concentração da Tchecoslováquia. Em uma dezena de minas de urânio, sob condições sub-humanas, trabalharam e sofreram presos políticos até a queda do culto à personalidade de Stalin em 1956.
Os comunistas desde então eliminaram todos os rastros do campo de concentração, cuja existência era um tabu não mencionado até o ano de 1989. O campo está agora documentado e lembrado por um museu e monumentos que pedem que não nos esqueçamos.
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17Associação Universal de Esperanto
Temas dos Congressos Universais de Esperanto
Um panorama do projeto educativo anual ligado aos Congressos Universais de Esperanto.
Temas dos Congressos Universais
de Esperanto:
um projeto anual de educação*
UEA-Associação Universal de
Esperanto
Rotterdam, Holanda
O principal evento esperantista, o Congresso Universal de Esperanto (UK) que acontece a cada ano, é também o mais importante evento educativo em Esperanto. Há um bom tempo já se concluiu que em certo sentido os congressos são mais eficientes se eles apresentam um tema central.
O tema é definido pela Diretoria da Associação Universal de Esperanto (UEA). Ela escolhe também um especialista como responsável pelo planejamento, contato com palestrantes e outros colaboradores. O tratamento dado, porém, não se limita aos itens especiais do programa. A UEA estimula também as associações especializadas que dediquem parte de suas reuniões ao tema, com por exemplo, uma palestra do ponto de vista de cada especialidade. É comum a Universidade Internacional (IKU, apresentações acadêmicas durante os Congressos) e a Conferência de Esperantologia incluírem palestras sobre o tema, que pode se refletir também na programação artística dos UK.
Normalmente esse tema está ligado ao problema lingüístico na colaboração internacional e comunicação, aos direitos lingüisticos, à paz e internacionalismo, ou aos aspectos de interesse mundial da região onde acontece o Congresso. Muitas vezes ele está relacionado ao Ano ou à Década especial da ONU e Unesco, e as mensagens especiais enviadas por altos funcionários dessas organizações costumam apresentar uma introdução inspiradora para os debates dos Congressos.
As principais conclusões são sintetizadas numa resolução que é publicada na cerimônia solene de encerramento dos UK. Os destaques aparecem também na revista internacional "Esperanto" (lida em 115 países). Por vezes ainda, todo o material aparece publicado em um volume especial.
Os temas desde 1970 (55o. Congresso Universal de Esperanto) foram:
| Data | Local | Título do Tema |
| 1970 | Viena, Áustria | O Esperanto como instrumento de uma concepção internacional do mundo |
| 1971 | Londres, Grã-Bretanha | O problema da comunicação lingüistica no mundo atual |
| 1972 | Portland, EUA | Turismo mundial e diversidade lingüística |
| 1973 | Belgrado, Iugoslávia | Isonomia lingüística na teoria e na prática |
| 1974 | Hamburgo, Alemanha | Nacionalismo e cooperação internacional no mundo atual |
| 1975 | Copenhague, Dinamarca | O papel social da mulher |
| 1976 | Atenas, Grécia | Cooperação internacional dos Estados em âmbito regional |
| 1977 | Reikjavik, Islândia | O direito à comunicação |
| 1978 | Varna, Bulgária | Língua Internacional - Educação Internacional |
| 1979 | Luzern, Suíça | O aspecto lingüístico de uma organização internacional |
| 1980 | Estocolmo, Suécia | Discriminação |
| 1981 | Brasília, Brasil | Cultura e línguas: pontes e obstáculos |
| 1982 | Antuérpia | Aspectos das gerações do movimento esperantista |
| 1983 | Budapest, Hungria | Aspectos sociais e lingüísticos da comunicação moderna |
| 1984 | Vancouver, Canadá | Minorias lingüísticas - um fenômeno apenas nacional? |
| 1985 | Augsburg, Alemanha | Antigo e moderno: o que mudar, o que conservar? |
| 1986 | Pequim, China | Entendimento, paz, evolução |
| 1987 | Varsóvia, Polônia | Esperanto - 100 anos de cultura internacional |
| 1988 | Rotterdam, Holanda | Ciência e técnica para a compreensão internacional |
| 1989 | Brighton, Grã-Bretanha | Língua e igualdade na comunicação internacional |
| 1990 | Havana, Cuba | Esperanto, evolução e diversidade lingüística |
| 1991 | Bergen, Noruega | A Escandinávia - um modelo? |
| 1992 | Viena, Áustria | Quando caem os muros milenares: uma casa comum européia |
| 1993 | Valência, Espanha | Educação para o século XXI |
| 1994 | Seul, Coréia do Sul | A Ásia no mundo |
| 1995 | Tampere, Finlândia | "Nós, os povos" - um mundo ou fragmentos dispersos? |
| 1996 | Praga, Rep. Tcheca | Cultura: valor ou mercadoria? |
| 1997 | Adelaide, Austrália | Tolerância e justiça numa sociedade multicultural |
| 1998 | Montpellier, França | Mediterrâneo - ponte entre culturas |
| 1999 | Berlim, Alemanha | Globalização: chances para a paz? |
| 2000 | Tel-Aviv, Israel | Língua e cultura da paz |
| 2001 | Zagreb, Croácia | tema a ser definido |
| 2002 | Fortaleza, Brasil | tema a ser definido |
Na livraria da UEA (cujo representante no Brasil é a Liga Brasileira de Esperanto) estão disponíveis os volumes dos UK de 1980 ("Diskriminacio"; EUR 9,50), de 1982 ("Generaciaj aspektoj de la Esperanto-movado"; EUR 2,15), de 1983 ("Monda Komunika Jaro: Sociaj kaj lingvaj aspektoj de la moderna komunikado"; EUR 2,15), e de 1996 ("Kulturo: valoro au varo?"; EUR 4,20). Os de 1983 estão disponíveis também em inglês e francês (EUR 2,15 cada), e o de 1975 resumido no relatório geral em inglês sobre o UK ("The 60th Universal Congress of Esperanto"; EUR 2,15).
Comunicado de Imprensa da Associação Universal de Esperanto (n. 44, 04/11/99).
Tradução do KCE-Kultura Centro de Esperanto-Campinas.
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18Canção tradicional escocesa
A língua dos gaélicos / La lingvo de la gaeloj / Cànan nan Gaidheal
Uma canção escocesa em gaélico, apresentada por meio do Esperanto.
A
língua dos gaélicos
La lingvo de la gaeloj
Cànan nan Gaidheal
Nosso KCE-Campinas mantém estreitos laços de amizade com a Sociedade de Esperanto de Glasgow, Escócia. Em nossas intercâmbios de cultura, recebemos de lá uma "correspondência sonora" criada por vários membros da Sociedade. Um deles, o padre Charlie Dornan, cantou na gravação a música "Cànan nan Gaidheal" (que pode ser ouvida aqui), para que os membros do KCE tivessem uma idéia de como soa o gaélico, a língua original da Escócia. Mais uma vez nossos membros tiveram a oportunidade de aprender sobre a cultura de outros povos por intermédio do Esperanto.
Nia KCE-Campinas havas fortajn amikajn ligojn al Glasgova
E-Societo (Skotlando). Dum unu el niaj kultur-interþanøoj,
ni de tie ricevis "sonleteron" kreitan de pluraj anoj de tiu Societo. Unu
el ili, pastro Charlie Dornan, kantis por ni la kanzonon "Cànan
nan Gaidheal" (kiun vi povos aýskulti tie
chi), por ke la anoj de KCE spertu kiel sonas la gaela, la origina
lingvo de Skotlando. Refoje niaj klubanoj havis oportunon lerni pri la
kulturo de aliaj popoloj pere de Esperanto.
|
"Cànan nan Gaidheal" Gaélico |
"La lingvo de la gaeloj" Esperanto |
"A língua dos gaélicos" Português |
| Cha b'e sneachda, 's an reothadh bho thuath, | Ne estis negho kaj frosto el la nordo, | Não havia neve e o frio do norte, |
| Cha b'e crannadh geur fuar bho 'n ear. | Ne estis akre malvarma vento el la oriento. | Não havia vento cortante do leste. |
| Cha b'e 'n uisge 'san gailleon bho 'n iar | Ne estis la pluvo kaj la þtormo el la okcidento | Não havia a chuva e a tempestade do oeste. |
| ach an galair a bhlen bho 'n deas | Sed la pesto el la sudo kiu velkigis | Mas a peste do sul, que fez fenecer |
| blath, duileach, stoc agus freumh | la floron, la folion, la trunkon kaj la radikon | a flor, a folha, o tronco e a raiz |
| cànan mo threubh 's mo shluaigh. | de la lingvo de mia komunumo kaj popolo. | da língua da minha comunidade e do meu povo. |
|
|
||
| REKANTA¬O | REFRÃO | |
| Thig, thugainn, thig co-ruim gu siar | Venu, venu kun mi okcidenten, | Venha, venha comigo para o oeste, |
| gus an cluinn sinn ann cànan nam Fein | øis ni aýdos la lingvon de Fein* | até ouvirmos a língua do Fein* |
| Thig, thugainn, thig co-ruim gu siar | Venu, venu kun mi okcidenten, | Venha, venha comigo para o oeste, |
| gus an cluinn sinn ann cànan nan Gaidheal. | øis ni aýdos la lingvon de la gaeloj. | até ouvirmos a língua dos gaélicos. |
|
|
||
| Thoir anuas dhùinn na coinnleirean òir | Transdonu al ni la orajn kandelingojn | "Passem-nos os castiçais de ouro |
| 'S ann cuiribh na coinnlean geal cèir. | kaj en ilin metu la blankajn vaksajn kandelojn. | e coloquem neles as brancas velas de cera. |
| Lasaibh suas air an seòmar a' bhron | Ekbruligu ilin en la æambro de maløojo | Acendam-nas na câmara de tristeza, |
| Taigh-fhaire 'son cànan nan Gaidheal. | [Ni havu] mortfeston por la lingvo de la gaeloj. | É o velório da língua dos gaélicos." |
| 'S e siud mu chionn fhad' thubhairt an namh, | Tion, antaýlonge, diris la malamiko, | Isso foi o que disse, há muito tempo, o inimigo, |
| Ach fhathast tha beo cànan nan Gaidheal. | Sed ankoraý vivas la lingvo de la gaeloj. | Mas ainda vive a língua dos gaélicos. |
|
|
||
| Ged theich i le beath' as na glinn | Kvankam øi forkuris kun sia vivo el la valoj | Embora ela tenha fugido dos vales para salvar sua vida, |
| Ged 's gann an diugh cluinntir nas mo. | Kvankam øi apenaý aýdiøas hodiaý de la lando. | Embora ela mal seja ouvida hoje no país, |
| O Dhùthaich Mhic Aoidh fada tuath | Mhic Aoidh** en la fora nordo, | Mhic Aoidh** do norte longínquo, |
| Gus an ruig thu Druim Uachdair nam bo | Øis vi alvenas en Druim Uachdair de la bovaro | até que você chegue à Druim Uachdair dos rebanhos, |
| Gidhaeadh dhi na h-eileanan siar | Tamen, en la okcidentaj insuloj, | Nas ilhas do oeste, porém, |
| 'S i fhathast an ciad cainnt an t-shluaigh. | Øi ankoraý estas la unua lingvo de la plimulto. | Ela ainda é a primeira língua da maioria. |
*Fein - nomo de grupo
de herooj el gaelaj legendoj / nome do grupo
de heróis das lendas gaélicas
**Mhic Aoidh/Druim Uachdair - skotaj
loknomoj / localidades escocesas
Esperantigita de la kantinto, pastro Charlie Dornan (Skotlando), kaj de tiu lingvo tradukita al la portugala de KCE-Kultura Centro de Esperanto-Campinas. Bildoj el Gaelic Languages Info. Por pli da informoj pri la gaelaj lingvoj, vizitu la gaelan paøon æe Travlang.
Traduzido para o Esperanto pelo cantor, padre
Charlie Dornan (Escócia), e daí para o português pelo
KCE-Kultura Centro de Esperanto-Campinas.Ilustrações da página
Gaelic
Languages Info. Para saber mais sobre
a língua gaélica, visite a página
gaélica do Travlang.
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1984º Congresso Universal · Berlim, 1999
Globalização: será que é para todos?
O artigo reúne uma reflexão sobre globalização e uma resolução aprovada no Congresso de Berlim.
Globalização, será
que é para todos?*
UEA-Associação Universal de
Esperanto
Rotterdam, Holanda
O último Congresso Internacional de Esperanto ocorreu de 31 de julho a 7 de agosto de 1999, em Berlim. O tema do congresso deste ano foi: "Globalização, uma chance para a Paz?". Abaixo as traduções do resumo - original em Esperanto - da palestra introdutória ao tema do congresso (publicada na Revista "Esperanto" de setembro/99) e da resolução do congresso, também publicada na mesma revista.
Globalização, será que é
para todos?
Paz sempre foi o principal desejo dos homens. Seria
possível durante horas citar hinos e obras de arte que oram por
ela. A paz nós almejamos, pois sabemos que a discórdia gera
a violência, que sempre extingue vidas humanas. A despeito deste
antigo anseio, a humanidade praticamente nunca desfrutou de plena paz.
Discórdia e guerra sempre inflamaram ali e acolá.
Entretanto, etnólogos afirmam que biologicamente
o homem está entre os seres vivos mais tolerantes: ele consegue
com mais êxito dividir o ar com os de sua espécie do que faria
a maioria dos outros seres vivos. A discórdia e a guerra entre os
homens não são geradas biologicamente por determinados instintos,
mas por arraigados estereótipos culturais. Disso segue que atingir
a paz não é impossível, embora - a experiêcia
nos ensina sobre isso - dificílima.
O tema principal de nosso congresso procura uma
resposta à pergunta "Globalização - uma chance para
a paz?". Primeiramente, será útil examinar um pouco: o que
em suma nós entendemos por "globalização"?
A globalização está entre os
mais discutidos conceitos da atualidade. Tem-se as mais diversas posturas
a seu respeito, principalmente por ter muitas facetas, tais como: econômica
(com ênfase em finanças), ecológica, psicológica,
cultural, de comunicação e, não por último,
política. Para diversos homens esta ou aquela faceta pode parecer
mais essêncial, e a opinião comum a respeito da globalização
em suma pode ser definida da relação com aquela faceta.
Ritmo vertiginoso
A globalização é um processo
de vários milhares de anos sem interrupção, cujo ritmo
se acelera constantemente: durante as últimas décadas ela
atingiu uma velocidade vertiginosa jamais experimentada. A geração
atual deveria numa década digerir uma maior dose das conseqüências
da globalização do que uma dezena de gerações
juntas de antes.
O começo do processo de globalização
foi aquele momento em que duas tribos de homens pré-históricos
se contactaram pela primeira vez - pacífica ou militarmente - e
começaram a produzir efeito uma sobre a outra. Este efeito certamente
era recíproco, mas com certeza não era equilibrado. A saber,
a tribo que limava instrumentos mais eficazes e se abastecia com mais abundância
de alimentos, irradiava muito mais efeito. Na história sempre esses
grupos humanos mais fortemente influênciaram os outros, que mais
faziam aumentar a eficiência do trabalho humano visando o bem-estar
material.
Pode-se bem constatar essa tendência já
no Império Romano, a mais antiga etapa claramente visível
da globalização. Sua formação e constante crescimento
devem-se ao que os romanos usufruíam e ao que fazia prosseguir a
evolução - a partir do conhecimento herdado dos gregos -
dos elementos pelos quais podiam elevar o nível material da vida
humana.
A queda do Imperio Romano foi seguida de contínua
e silenciosa evolução. Nao se criou um novo grande império,
mas os estados europeus de então foram significativamente unificados
pela Igreja Católica, por um sistema de escrita comum e pela língua
latina. No século XV amadureceram os frutos dessa evolução:
na época das descobertas geográficas o comércio mundial
estendeu sua esfera, e, pelo aparecimento das colônias, a Europa
passou a influênciar territórios muitas vezes maiores que
ela própria.
Globalização com lamentações
O processo de globalização até
o começo do século XX desenvolveu-se de dentro da Europa
- foi a colonização. Foi acompanhado de sangue e lamentações
em abundância, sofrimentos e genocídios, mas ao mesmo tempo
os elementos principais da civilização européia começaram
a se irradiar nos territórios colonizados. No decorrer de apenas
alguns séculos os estados europeus estendiam seu poderio a todo
o globo terrestre. Os territórios conquistados e os moradores foram
cruelmente explorados; em alguns lugares, após pleno extermínio
do indígenas locais, os imigrantes que passaram a morar formaram
aos poucos estados proprios, primeiramente de algum modo ligados ao poder
colonial europeu, mas tais ligações pouco a pouco romperam-se
totalmente.
Dentre esses estados estavam os Estados Unidos,
fundados no final do século XVIII. Merecem atenção,
pois em apenas um século e meio percorreram um caminho tão
brilhante que se tornaram a mais rica e forte, em uma palavra, o mais bem
sucedido país do mundo. Já dos anos 50-70 o processo de globalização
irradiava para o globo a partir daquele país.
Daria para encher uma biblioteca inteira com as
análises eruditas a respeito do milagre norte-americano. Aqui devo
citar apenas o componente mais essêncial: a eficientíssima
organização do trabalho humano. Os criadores daquele país
conscientemente varreram as tradições supérfluas,
e comecaram a construir a sua sociedade e seu estado a partir da base,
e - no espírito pioneiro da época do cultismo - tudo eles
fizeram baseados na razão. Parece que o distânciamento das
tradições é forçosamente um pré-requisito
de uma evolução eficiente. Esta relação crítica
e racional das tradições é a
principal virtude e ao mesmo tempo a principal perversidade dos Estados
Unidos. Virtude: porque deu aos Estados Unidos e aos seus moradores uma
liberdade maravilhosa, criou circunstâncias favoráveis para
desenvolver a criatividade junto aos indivíduos. Perversidade: porque
resultou numa especie de fraqueza e na atrofia da solidariedade humana.
É como se consolidassem nos Estados Unidos os conceitos de racismo,
revolucionariamente novos e úteis ha duzentos anos, mas tais que
não são necessariamente úteis para aplica-los com
conseqüência em nossa entremente muito mais refinada e matizada
imagem de mundo.
Agora tentemos, ainda que apenas superficialmente,
iluminar algumas das facetas da globalização.
Tecnologia
Homens em toda parte do mundo facilmente aceitam
esta faceta: provavelmente porque novos equipamentos técnicos contribuíiram
para dar mais conforto à vida humana sem que fossem sentidos os
seus efeitos negativos.
Economia
A economia sempre foi o carro-chefe do processo
de globalização. Até há 20 anos atrás
o seu principal terreno era o constante crescimento do comércio
exterior internacional: mercadorias produzidas pelos trabalhadores e capitalistas
em um país eram vendidos a consumidores em outro. Então os
governos mesmo nos países mais liberais podiam decisivamente influir
nos processos econômicos. Essêncial mudança veio em
meados dos anos 80, quando em sólido e constante crescimento do
comércio exterior começou em vasta escala algo totalmente
novo: a exportação de capital. Criaram-se enormes empresas
multinacionais, que pouco a pouco passaram a poder não somente em
grande parte evitar a influência dos governos, mas até mesmo
influenciá-los. Eis gigantes unidades de produção
sem controle social, que de fato também ameaçam o princípio
básico da economia de mercado - a livre concorrência.
Uma nova etapa desse processo se abriu na última
decada, após a queda do comunismo. Em essência o único
sistema econômico que resta funcionando no mundo é o capitalismo.
Ele ainda não aparece em toda parte com uma única fisionomia,
mas a sua essência é a mesma em toda parte. Pode-se prever
a sua breve homogeneização, principalmente por causa do livre
e rápido movimento do capital. A queda do comunismo fez com que
seguissem mudanças desvantajosas no caráter do capitalismo:
retraíram-se nele os elementos de solidariedade.
O sistema de mercado é certamente o sistema
econômico que produz mercadorias ou organiza serviços em geral
com mais eficiência. Mas ultimamente ele aparece também em
esferas onde é duvidosa a sua eficiência de longa perspectiva:
no ensino, na cultura e nos serviços de saúde.
Ecologia
Danos ecológicos não conhecem fronteiras
de países. Por esta razão, evidentemente, a ecologia é
o terreno onde o constante desenvolvimento da globalização
é diretamente desejável: somente com uma ação
muito consciente e globalmente unida poderá ser evitada uma catástrofe
ecológica. Mas sobre a maneira desta ação falta um
consenso geral: os interesses dos países evoluídos são
contrários aos dos países em desenvolvimento.
Cultura
Cultura e produção de mercadorias
culturais estão diretamente ligadas aos aspectos técnicos
e econômicos, apesar de que muitos de boa vontade separariam a cultura
das outras facetas. Trata-se do fato que os homens segundo suas intenções
com mais ciúmes guardam sua própria cultura, entretanto paradoxalmente
podem facilmente perde-la. Ligado com a globalização, é
impossível omitir o aspecto lingüístico da cultura.
A língua inglesa na vida internacional já tem uma posição
inabalével, e depois de uma ou duas décadas ela possivelmente
começará a pôr em perigo as posições
das línguas nacionais também em seus próprios países,
por exemplo no ensino superior.
Dominação mundial?
Agora tentemos definir o conceito "globalização",
e vejamos qual é efetivamente o processo que ocorre no mundo. "Globalização"
em si mesma significa que os elementos da economia mundial cada vez mais
interdependem, também a produção e a distribuição
das mercadorias culturais. "Globalização" deveria supor interdependência
recíproca. Ao contrario, nós conhecemos por experiência
que cada vez mais uma grande parte da produção econômica
(também cultural) são possuídas e regidas por sociedades
econômicas registradas em um grupo de 20 países mais desenvolvidos,
principalmente os Estados Unidos. De fato, seria mais apropriado falar
sobre "dominação mundial" feita por esses 20 países.
Na história, principalmente sempre influenciaram os países
mais evoluídos, enquanto que os menos evoluídos em
geral dependiam. Contudo no ritmo do processo de então essa
diferença na maioria das vezes permanecia sob o limiar de tolerância
dos homens.
Esse domínio mundial dos Estados Unidos em
especial salta aos olhos junto aos produtos culturais. Neste campo sofrem
ate mesmo os países desenvolvidos da Europa Ocidental. Os filmes
projetados nessa parte do mundo são 70 % norte-americanos; o número
de espectadores é provavelmente até mais alto. Os filmes
americanos talvez cada vez mais dominarão, por causa do progresso
técnico que se pode esperar da televisão e atingirão
também as massas analfabetas dos países em desenvolvimento.
Esses filmes fazem publicidade dos modelos de vida e de consumo americanos.
Se os povos dos países em desenvolvimento esforçarem-se para
segui-los, fatalmente seguirá uma catástrofe ecologica, porque
no nível de consumo americano o globo terrestre seria capaz de suportar
não mais do que 1/3 (um terço) de seus 6 bilhões de
pessoas. Por outro lado, o evidente insucesso em atingir esses objetivos
causarão uma profunda frustração, a qual por sua vez
poderá causar reações psíquicas e políticas
dificilmente previsíveis.
Comunidade internacional?
A dominação dos países desenvolvidos
ultimamente se estendeu também à política, até
na esfera militar. Na ultima guerra da Iugoslavia, 19 estados-membros da
OTAN elegantemente declararam-se "comunidade internacional" e iniciaram
a guerra contra a Iugoslávia. Em nosso ponto de vista a essência
está não se o regime de Milosevic tinha culpa ou não,
mas se essa guerra colocou à margem o júri internacional
e a organização universal das Nações Unidas.
Dizem que de agora aquela guerra freará em todo o mundo a violência
de um país contra os próprios cidadãos. Mas isso provavelmente
diz respeito apenas às violências dos países a serem
julgadas dignas de punição em Washinton e em Bruxelas.
Quem lucra e quem tem prejuízo?
Quem lucra e quem tem prejuízo na atual globalização?
Evidentemente, os ganhadores devemos procurar em primeiro lugar nos países
desenvolvidos. Trata-se dos proprietários e dirigentes das sociedades
econômicas, que realizam a exportação de capital e
a transferência da produção para outros países.
Eles ganham triplamente. Primeiro: no novo local a força de trabalho
custa significativamente menos. Em segundo lugar: ali as autoridades em
geral favorecem os investidores com impostos facilitados. Em terceiro lugar:
conservando os seus antigos mercados eles adquirem novos. De fato, distribuindo
em diversos lugares seus produtos eles ficam independentes dos governos
e, escorregando do controle social, eles tornam-se quase invulneráveis.
Tudo isso resulta num abrupto crescimento de lucro para os proprietários
e para os seus dirigentes privilegiados.
Ganhadores também encontram-se nos países
que aceitam essa exportação: primeiro aquelas elites locais
que organizam a produção. Lucram também aqueles trabalhadores
dos países que aceitam o capital que são empregados pelas
fábricas recém-criadas: pois eles de modo geral passam a
ter trabalho e talvez até recebam um salário um pouco mais
alto do que de costume. Lucra inicialmente também o estado aceitador
do capital: apesar do favorecimento de impostos, cresce um pouco sua arrecadação,
e em virtude da queda do desemprego tornam-se moderados os custos sociais.
Os problemas surgem quando essas empresas passam
a remeter seus lucros para fora do país. Isso dificilmente é
suportado pela balança monetária exterior desses países,
também não equilibrada: em geral eles tentam tapar o buraco
pela combinação de empréstimos e atração
de mais investidores.
Têm prejuízo nos países desenvolvidos
antes de tudo aqueles trabalhadores que por causa do deslocamento da produção
perdem seu trabalho; mas têm prejuízo também seus governos.
Em conseqüência da produção transferida encolhe
a arrecadação de impostos, enquanto cresce o desemprego,
gerando custos governamentais. Sair desta armadilha é possivel somente
por meio de economia nos custos sociais, redução do nivel
de provisão social e do nível de vida em geral.
Perdedores encontram-se também nos países
que aceitam a importação de capital. Por causa da abrupta
abertura das economias nacionais ali podem ser destruídos todos
os ramos industriais tradicionais, liquidando mais locais de trabalho do
que produz a importação de capital. O abrupto aparecimento
de novas culturas de produção - alem da eficiência
que traz perspectiva de evolução - podem causar um choque
psíquico com suas conseqüências sociais negativas. Muita
destruição segue também desta forma de globalização
cultural que é incorporada principalmente pela penetração
de um conjunto de despretensiosas "novelas" e filmes irradiando agressividade.
Esse fluxo imbecilizante de imagens consegue empobrecer a cultura
da língua, marginaliza a cultura escrita, a base do que faz o homem
tão grande quanto ele é.
Perdas e ganhos
Pela atual forma de globalização durante
um periodo mais longo perderá a maioria dos homens, pois ultimamente
em todo o mundo estão sendo constantemente revisados os contratos
sociais, em favor do capital. Os salários e o zelo social finalmente
tenderão em escala mundial a se unir em média entre os níveis
atuais da Suíça e, digamos, de Bangladesh. Assim os suíços
perderão, e os de Bangladesh apenas aparentemente ganharão.
Eles também perderão em perspectiva, pois certamente nunca
atingirão o nível atual, que outrora de fato poderiam atingir.
Entao, a resposta a "Globalização
- uma chance para a paz?" não pode ser de significação
única. Os pontos negativos que acabaram de ser listados fazem muitos
responderem negativamente.
Porém rejeitá-la de todo não
é possível, e mesmo se fosse, seria imprudente. Se o intelecto
humano teve sucesso em criar um aparato de transporte e telecomunicação
graças ao qual é possivel uma intensa colaboração
da humanidade de 6 bilhões, seria tolice não usá-lo.
Nós podemos responder afirmativamente à globalização,
mas com um enfático "não" à dominação
mundial feita por um deles. Os americanos tem de fato muitíssimas
razões para se orgulharem, mas eles devem compreender que não
trarão felicidade à humanidade restante se em toda parte
no globo terrestre crescerem cópias dos Estados Unidos.
A verdadeira globalização
Sustentar a verdadeira globalização
não somente não exclui, mas até mesmo provoca
a resistência a tais fenômenos. Isso pode conflitar com os
interesses de grupos econômicos, frequentemente apoiados por países,
mas para o objetivo - criação de uma globalização
igualitária e democrática, baseada numa interação
recíproca dos participantes - vale a pena enfrentar esses conflitos.
Uma globalização verdadeira dará uma chance à
paz, porque nela todos por direito se sentirão ganhadores. Do contrário,
uma dominação mundial feita por uma restrita elite
econômica despertará nos restantes cinco bilhões um
sentimento de derrota, e isso invoca reflexos não tipicamente pacificos.
Para evitar discordia é necessário
que os países desenvolvidos mostrem um profundo moderamento no fluxo
contínuo do processo de globalização. É necessario
que eles lembrem que a pedra fundamental de qualquer cultura é a
limitação de si própria.
Nós esperantistas somos os antigos apóstolos
da globalização igualitária, que se alimenta da interação
recíproca de culturas. Estamos otimistas também agora, quando
os augúrios para atingir tal globalização não
são em parte promissores. Resolve "um problema do cérebro
humano,/ quem ainda não fez sentir pressão" - rejubilou William
Auld sobre a capacidade humana em seu poema "A Raça Menina", que
marcou época, há 43 anos atrás. Agora o problema ja
faz pressão, e o "cérebro humano" certamente resolverá
o problema - mas somente se todos nós participarmos na solução.
Resolução do Congresso
O octogésimo quarto Congresso Universal de Esperanto,reunido em Berlim, Alemanha, de 31 de julho a 7 de agosto de
1999, com 2.712 participantes de 66 países;tendo debatido sobre o tema "Globalização = chances para a paz?";
tendo constatado que o objetivo da lingua internacional Esperanto
desde seus primeiros tempos é fornecer ao mundo uma forma igualitária de
comunicação, que conserva as línguas étnicas para suas utilizações internas
das diversas regiões, nações ou etnias, e por meio disso assegura uma
possibilidade de participação igualitária para todos os povos no processo de
globalização, e ao mesmo tempo protege a policromia cultural do nosso globo
terrestre;tendo analisado o atual, cada vez mais rápido desenvolvimento da globalização, que contudo realiza-se segundo um modelo que arrasta consigo o esgotamento dos recursos naturais do nosso planeta, i.e., de nossa heranca às gerações posteriores, e que adota em muitas relações a forma de supremacia dos países mais prósperos do mundo, e conseqüentemente invoca o fortalecimento do nacionalismo e separatismo em muitos lugares, o que por sua vez põe em perigo a paz;
tendo notado
- que a comunidade internacional começou a enfrentar este conjunto de problemas, por exemplo, pela Conferência das Nações Unidas no Rio de Janeiro em 1992, na qual participou o Movimento Esperantista,- que as Nações Unidas, Unesco e as outras instâncias das Nações Unidas devem continuar a ter um papel central no empenho comum a segurança ecológica, direitos humanos e justiça no mundo;
invoca
- as Nações Unidas, suas instâncias, todos os foruns internacionais, as organizações não-governamentais e os usuários e falantes do Esperanto em todo o mundo, a dar uma atenção séria a esses aspectos da globalização, e a empenhar em direcionar o processo de forma que todos os homens do globo lucrem com ele. Isto pode ocorrer somente com um respeito incondicional de todos os direitos humanos, inclusive dos direitos à diversidade linguistica e cultural;- os países economicamente prósperos e politicamente fortes a procurarem não assimilar o mundo restante, mas unir-se a ele com base na compreensão recíproca, respeito e vantagens recíprocas, porque somente tal globalização pode garantir para a humanidade uma sólida paz em verdadeira felicidade.
Reproduzido com a gentil permissão do tradutor, Edson Capucci (RJ).
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20Autoria não indicada no índice
Retratos de mulheres sem fronteiras
Um olhar sobre a contribuição das mulheres para a história do movimento esperantista.
Retratos de mulheres sem fronteiras*
Serviço de Imprensa, Pesquisa e Documentação
SAT-Amikaro
Paris, França
Do sonho à esperança
A mulher teve seu lugar nas mais belas páginas
de uma história grandiosa, apesar de desconhecida. Não é
exagero dizer que de uma história de amor nasceu um dia uma nova
língua.
Essa língua, cuja vocação é
permitir uma melhor comunicação lingüística entre
todos os povos da Terra e favorecer a compreensão entre eles, germinou
no coração e no espírito de um menino chamado Ludwik
Lejzer (Luís Lázaro) Zamenhof.
A primeira mulher a quem Luís contou sua
intenção de propor uma ligação lingüística
comum para toda a humanidade foi sua mãe, Rosalia
Zamenhof.
Se a princípio ficou sensibilizada por uma
idéia tão nobre, ainda que à primeira vista ingênua,
Rosalia se espantou e se inquietou com a determinação que
seu menino - além de tudo, brilhante em seus estudos - demonstrou.
Ela se tornou enfim, apesar da hostilidade do pai, a confidente discreta.
Não lhe restava dúvidas que Luís estaria ligado a
esse ideal por toda a vida, até o último suspiro.
Luís contou com uma nova cumplicidade feminina
em 1887, quando se casou com Klara Silbernik:
ela se casou com o homem e com a idéia. Ele tinha 28 anos, ela 24.
Eles noivaram em 30 de março. O primeiro manual da Língua
Internacional apareceu em russo, em 26 de julho, sob o pseudônimo
Doktoro
Esperanto. O casamento mesmo aconteceu alguns dias depois, em 9 de
agosto. O esperanto deu portanto seus primeiros passos ao ritmo de dois
corações que batiam em uníssono, com o brilho de dois
olhares embelezados pelo amor.
Da mesma forma como a língua que mais tarde
se popularizou sob o nome esperanto, o casal resistiu a inúmeras
dificuldades e às provas do tempo... Klara trouxe ainda muito mais
que um dote: um sogro de uma generosidade a toda prova, absolutamente aberto
às idéias de seu genro. Graças a seu apoio financeiro
o primeiro manual de esperanto pôde ser editado.
O destino de seus três filhos foi ligado também
ao esperanto. Sua filha Lydia deu conferências
e cursos em muitos países. Eles conheceram um fim trágico,
vítimas da barbárie nazista. Lydia e Sofia
morreram no campo de concentração de Treblinka. O filho Adam
foi fuzilado na ala de oftalmologia que ele dirigia no hospital de Varsóvia;
sua esposa Wanda conseguiu escapar com seu
filho Louis-Cristophe.
Da esperança à realidade
Jornalista, escritora, militante pela Europa e pelos
direitos da mulher, Louise Weiss traçou
em um de seus livros (Une petite fille du siècle) o retrato
de seu extraordinário avô, Émile Javal.
Grande amigo de Zamenhof, oftalmologista como ele,
Javal perdeu a visão aos 62 anos e começou a praticar o esperanto
aos 65. Essa foi a última paixão e objeto de interesse desse
homem extraordinário, o último clarão reconfortante
de sua vida. Ele escreveu então Entre Cegos, uma obra cheia
de filosofia prática e serena, destinada às pessoas atingidas
pela cegueira, para lhes dar os meios, a força de superar sua provação.
Para assegurar uma difusão sem fronteiras, sua neta o traduziu em
esperanto (Inter blinduloj).
Professora de ortofonia, Jeanne
Ranfaing-Zabilon d'Her (pseudônimo em esperanto: Evidino =
descendente de Eva) aprendeu esperanto em 1895 e o ensinou a Hélène
Giroud. Sua incansável atividade e devoção a serviço
dos deficientes, especialmente os surdos-mudos, gagos e cegos, lhe valeram
em 1902 um prêmio do Touring Club da França.
Professora em uma escola de cegos na Suíça,
Hélène
Giroud tornou-se a primeira professora de esperanto do mundo (ano
letivo 1895-96). Ela o aprendeu oralmente, sem livros, e depois o ensinou
a seus melhores alunos e continou por muitos anos a informar e a formar
cegos nessa prática da comunicção. Ela escreveu também
um pequeno livro em braile.
Escritora e poetisa, a rainha
Elisabete da Romênia (pseudônimo: Carmen Sylva) permitiu
a tradução de suas obras em esperanto. Ela instituiu cursos
na Cidade dos Cegos Vatra Luminoasa, de renome mundial, que ela
fundou e que a tornou conhecida em seu país como a "mãe dos
cegos". Ela própria aprendeu o esperanto, e mereceu o título
de "Rainha Esperantista".
Surda-muda e cega, a norte-america Helen
Keller tornou-se nada menos que pedagoga, escritora e militante
social, depois de seguir o curso superior à força de muita
vontade e perseverança. Ela defendia o esperanto como meio de melhorar
o destino dos cegos, de tirá-los de seu isolamento. E foi a esperantista
Clara
Barton quem fundou a Cruz Vermelha dos Estados Unidos.
Pioneiras sem fronteiras
Uma das obras brilhantemente traduzidas do polonês
para o esperanto por Zamenhof foi Marta, de Eliza Orzseszko. Esse
romance, cuja tradução foi publicada em 1910, destaca a cruel
injustiça e a indiferença da sociedade em face a uma mulher
subitamente desprovida e só com sua filha após a morte do
marido. Traduzido em seguida para o japonês, esse livro favoreceu
uma tomada de consciência e o contato entre mulheres ocidentais e
japonesas.
O valor emancipador da Língua Internacional
já havia sido demonstrado por ocasião do III Congresso Universal
de Esperanto em Cambridge, 1907, e depois em Dresden, em 1908, através
de trocas diretas de informações e de experiências
sobre a condição feminina e as questões sociais em
diversos países, o direito ao voto feminino etc.
Kazimira Bujwida foi
não só uma pioneira dos direitos da mulher, mas também
uma fiel colaboradora da ação pró-esperanto de seu
marido, o célebre bacteriologista Odo Bujwid.
Alice Roux,
professora de alemão, fez Gabriel Chavet descobrir o esperanto.
Ele, aos 17 anos (1897) fundou em Louhans o primeiro clube escolar de esperanto
na França.
Um filme rodado há
alguns anos na China retrata o destino da esperantista japonesa Hasegawa
Teru (pseudônimo Verda Majo,
ou seja, Maio Verde), que deixou seu país em 1937 para acompanhar
seu marido chinês na luta contra a agressão nipônica
à China.
Rainha das estrelas de Hollywood
em 1939, Norma Shearer
exprimia sua opinião bastante clara a respeito da questão
da comunicação e manifestava sua simpatia pelo esperanto.
Tia de George Orwell, Ellen
Kate Limouzin foi durante alguns anos companheira
de Lanti, o fundador da SAT, o braço social do movimento esperantista.
Seria injusto não mencionar
Marjorie
Boulton, professora da Universidade de Oxford,
pelo seu notável trabalho biográfico Zamenhof, Creator
of Esperanto (Londres, 1960), bem como sua obra literária e
poética em esperanto, que ela também ensina.
Sem a sensibilidade e a intuição
femininas, o esperanto não teria jamais superado as provas que atravessou.
Apenas a inteligência fria e lógica jamais foram suficientes
para dar vida a uma língua artificial no sentido original e nobre
da palavra latina artificialis: feita com arte.
Talento e coração
Primeira poetisa do esperanto, a alemã Maria Hankel foi em 1912 também a primeira presidente da Esperantista Literatura Asocio. Quatro anos depois de seus primeiros passos no esperanto, em Barcelona (1909) ela foi eleita Rainha dos Jogos Florais Internacionais (concurso literário) por seu poema Simbolo de Amo (Símbolo de Amor).
Muitas outras escritoras participaram mais ou menos intensamente no impulso do esperanto, como as polonesas Irena Krywicka, que como Pola Gojawiczynska, tinha conhecimentos básicos, e Janina Porazinska, especialista em literatura infantil, a ucraniana Oleska Slisarenko, a delegada romena na Liga das Nações Helena Vacaresco, a austríaca Bertha von Suttner (Nobel da Paz, 1905) ou a sueca Selma Lagerlöf (Nobel de Literatura, 1909).
Esposa do fundador do escotismo, Olave Baden-Powell sugeriu que a esposa do presidente dos EUA, Eleonora Roosevelt, presidente do Comitê de Direitos Humanos da ONU, interviesse para que seu país fizesse o mundo inteiro aceitar a introdução do esperanto no programa de todas as escolas e organizações. Embora seu pedido não tenha sido bem sucedido, ao menos ajudou a pavimentar o caminho até o reconhecimento oficial do Esperanto pela UNESCO, que adotou recomendações em seu favor em 1954 e em 1985, e abrigou sua aplicação no projeto Linguapax em 1993.
Muitas uniões e famílias têm o esperanto como origem. Além do casal Zamenhof-Silbernik, houve aindas inúmeros casamentos entre esperantistas, na maioria de nacionalidades diferentes. Em 1899 o sueco Valdemar Langlet casou-se com a finlandesa Signe Blomberg. Após a morte dela, em 1921, ele se casou novamente em 1925, com a russa Nina Borovko. Todos os três, esperantistas.
Mutchul Mossover se tornou em 1916 esposa do prince baha'i persa Bahman Shidani, que, em 1914, também havia aprendido a Língua Internacional.
A sueca Karin Höjer, cega desde criança, se casou em 1919 com Harald Thilander, cego desde os treze anos, depois de mais de vinte anos de colaboração com ele em favor do esperanto. Ela morreu em 1927. Ele se casou de novo em 1928 com Varma Jäärvenpä, uma esperantista finlandesa que conseguiu em parte recuperar sua visão novamente. Varma, em esperanto, curiosamente significa "quente", "caloroso/a"...
Mil mulheres, mil destinos
A história do esperanto é pontilhada de uma multidão de retratos de mulheres espantosas e admiráveis que mereceriam um livro dedicado só a elas.
Elas tiveram mesmo um papel decisivo para o sucesso da Língua Internacional do doutor Zamenhof, em comparação às centenas de tentativas de criação de línguas internacionais concebidas com fins exclusivamente utilitários ou sobre bases totalmente errôneas (o que confirma o eminente professor Umberto Eco em seu livro sobre a busca da língua perfeita). Por conseguinte, os outros projetos são desprovidos de alma e de valor cultural.
Portador de uma mensagem de igualdade, de fraternidade, de idéias emancipadoras e humanistas, um instrumento prático e eficiente para torná-las efetivas, o Esperanto foi por muito tempo e ainda é vítima de uma política tendendo a mantê-lo, assim como a mulher, em um estado de inferioridade, através do escárnio, da detração, da humilhação, de pressões ou do silêncio. Cabe pensar que as vitórias sociais da mulher serão vitórias para o esperanto, e vice-versa.
Defintivamente, o espírito que move o Esperanto - a interna ideo ou idéia interna - não é estranho às qualidades das duas mulheres que mais o marcaram, inspiraram e ajudaram Luís Lázaro Zamenhof: Rosalia e Klara.
Inúmeras são as mulheres que hoje se dedicam a fazer avançar esse ideal. Este modesto estudo, realmente muito curto, é dedicado a elas.
Bibliografia
Historio de Esperanto - Adam Zakrzewski
Enciklopedio de Esperanto - Literatura Mondo, Budapest
Le Docteur Esperanto - Maria Ziolkowska
Zamenhof - Marjorie Boulton
L'Espéranto - Pierre Janton
Traduzido do folheto francês Portraits de femmes sans frontières (SAT-Amikaro - 67, avenue Gambetta - 75020 - Paris) pelo Kultura Centro de Esperanto-Campinas
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21Notícia sobre emissão postal brasileira
Brasil emite novo selo postal
Uma notícia sobre a chegada do ano 2000 saudada em oito línguas, entre elas o Esperanto.
Correio brasileiro emite novo
selo com texto em Esperanto
James Rezende Piton
delegado da UEA sobre filatelia
Legu en Esperanto: Brazilo eldonas novan poshtmarkon kun E-teksto
Os Correios Brasileiros emitiram mais um selo postal com texto em Esperanto. Em janeiro último foram lançados quatro selos com desenhos feitos por crianças que participaram de um concurso saudando o ano 2000. Sob o nome "Selando o Futuro", a série apresenta vinhetas ligadas aos selos.
A série se apresenta em uma folha de 16 selos (4 x 4). Cada folha tem oito vinhetas, e em cada uma delas a expressão "viva 2000" em uma língua diferente. Uma das vinhetas apresenta o sol, um arco-íris e a frase em Esperanto "Vivu 2000!". A outra vinheta que apresenta o mesmo desenho é a que traz a expressão em inglês "Hurrah 2000!". Coincidência ou intenção quanto às "línguas internacionais"? Todas as outras vinhetas são um pouco mais discretas, com um céu azul e pombas ou estrelas. As demais línguas são o francês, alemão, chinês, espanhol, italiano e português, naturalmente.
A vinheta em Esperanto está ligada ao selo com o texto "Século XXI - O renascer de um mundo feliz" e a criança desenhou uma gestante com o globo terrestre
Cada selo tem as dimensões de 40mm x 30mm e denteação 12 x 11,5. A data de emissão é 01-01-2000. O valor facial de cada selo é de R$ 0,22 + 0,08 (oito centavos adicionais irão para o CONANDA-Conselho Nacional da Criança e do Adolescente). A tiragem é de 2 milhões de selos.
Os selos podem ser adquiridos na página dos Correios: http://www.correiosonline.com.br.
Segundo informações, a escolha da língua foi iniciativa da própria ECT. Mensagens de congratulações poderiam ser dirigidas portanto para:
Presidência da ECT
SBN - Quadra 01 - Bloco A - Ed. Sede ECT
Brasília - DF - CEP 70002-900
Na rede, pela página dos próprios Correios.
Espera-se que semelhante acontecimento ocorra pelo
menos dentro de dois anos, quando o Brasil sediará o Congresso Universal
de Esperanto, em Fortaleza.
Brazila poshto eldonas plian
poshtmarkon kun teksto en Esperanto
James Rezende Piton
UEA-fakdelegito (filatelo: Esperanta)
Brazila Poshto aperigis plian poshtmarkon kun Esperanto-teksto. Lastjanuare eldonighis kvar poshtmarkoj kun infandesegnajhoj omaghe al la jaro 2000. Sub la nomo "Selando o Futuro" (vortludo inter "Afranki" kaj "Determini" la Estontecon), la serio prezentas talonojn apud la poshtmarkoj.
La serio venas en 16-poshtmarka folio (4 x 4). Chiu folio havas ok talonetojn kaj chiu taloneto prezentas la esprimon "vivu 2000" en aparta lingvo. Unu el la talonetoj prezentas sunon, æielarkon kaj lauhvorte la esprimon "Vivu 2000!". Ghi estas unu el la nur du talonetoj, kiuj prezentas sunon kaj chielarkon - kurioze, la alia estas tiu kun la angla "Hurrah 2000!". Intenco auh koincido pri la "internaciaj lingvoj"? Chiuj aliaj talonoj estas iom palaj, kun blua chielo kaj kolombetoj auh steloj. La ceteraj lingvoj estas franca, germana, china, hispana, itala kaj portugala, kompreneble.
La E-talono estas ligita al poshtmarko kun teksto "Século XXI - O renascer de um mundo feliz" (XXI-a jarcento, renaskigho de felicha mondo) kaj infano desegnis gravedulinon, kiu generas terglobon.
Chiu pm mezuras 40mm x 30mm kaj dentumoj estas 12 x 11,5. Eldon-dato estas la 1-a de Januaro 2000. La valoro de chiu poshtmarko estas R$ 0,22 + 0,08 (dudek du Realaj cendoj, la baza poshta afranko por individuoj; la aldonaj ok cendoj el tiu eldono celos Nacian Infanan kaj Adoleskan Fonduson). La eldonkvanto estas 2 milionoj da poshtmarkoj.
Eblas akiri la poshtmarkojn en la pagho de la Poshto http://www.correiosonline.com.br.
Lauh informoj disponeblaj, ricevitaj de e-isto Enir Garcia, kiu havas rangan postenon en la Poshto, ne li tion rekte influis. Vershajne la uzo de Esperanto estis iniciato de iu en la Arta Departemento de la Poshto mem, kio estas ech pli ghojiga. Eble estus interese gratuli la iniciaton per korespondajho al:
Presidência da ECT
SBN - Quadra 01 - Bloco A
- Ed. Sede ECT
Brasília - DF - CEP
70002-900
Rete, por tiuj, kiuj scipovas (auh povas diveni) la portugalan, en la pagho de la Poshto.
Espereble, kiam submetighos
(post unu jaro) peto pri poshtmarko memore al la UK en Fortaleza, oni kalkulos
ech je aliancanoj en la chiujare ege disputata elekto de la sekvaj eldon-serioj
de la Brazila Poshto.
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22Autoria não indicada no índice
Esperanto debatido em Congresso Mundial
Uma notícia sobre o debate do Esperanto em um congresso mundial, no contexto das conversas em Camp David.
Esperanto debatido em Congresso
Mundial
Socorro Acioli
Especial para O POVO*
Durante uma semana, 1.212 pessoas de 55 países conversaram em
esperanto,
na cidade de Tel Aviv, Israel, sobre cultura, política, educação,
medicina,
matemática, filosofia, línguas e culturas árabe
e hebraica.
A mesma semana em que foram encerradas as negociações
entre as autoridades
israelenses e palestinas em Camp David, nos Estados Unidos a cidade
de Tel Aviv,
em Israel, sediou o 85° Congresso Mundial de esperanto, de 25 de
julho a 01 de
agosto, com o tema Língua e Cultura de Paz.
O esperanto, uma língua artificial criada em 1887 pelo médico
polonês Lázaro
Zamenhof, tem o objetivo de superar as barreiras lingüísticas
que separam os povos.
O idioma foi reconhecida pela Unesco como instrumento de cooperação
internacional no campo da educação, ciência e cultura.
A abertura do 85° Congresso
aconteceu no dia 26 de julho de 2000, exatamente 113 anos após
o lançamento
oficial do esperanto.
Durante uma semana, 1.212 pessoas de 55 países conversaram em
esperanto sobre
projetos de paz e progresso para o mundo reunidos em conferência
sobre cultura
política, educação, medicina, matemática,
filosofia, língua e cultura árabe, língua e
cultura hebraica, ensino do esperanto, economia e comércio,
jornalismo, música,
teatro, cristianismo entre outros temas. Foram também apresentados
palestras sobre
a situação política e o movimento esperantista
nas Américas, Europa, Ásia, África e
Oceania.
No estande africano, o coordenador Gbeglo Koffi oferecia aos congressistas
a
oportunidade de enviar cartões postais aos integrantes do movimento
esperantista da
África do Sul que não poderam estar no congresso. No
estande brasileiro, foram
expostos vários livros, catálogos e peças de artesanato
do Brasil, inclusive as
famosas garrafas de areia coloridas do Ceará.
Uma das conferências mais disputadas no congresso de esperanto
foi a de língua e
cultura hebraica, ministrada pelo professor e tradutor israelense Eldad
Salzman. Até
o final do ano passado, o idioma hebraico teve seu uso restrito a rezas
e orações por
ser considerado o santo idioma do Antigo Testamento.
O lingüista lituano Eliézer Ben Yehuda (1858-1922) pesquisou
o idioma e fez com
que o hebraico voltasse a ser usado novamente em Jerusalém,
tornando-se até hoje a
língua oficial de Israel.
A tática principal de Ben Yehuda foi educar o filho, Itamar Ben
Yehuda em hebraico.
A mesma estratégia está sendo usada pelos esperantistas.
No período do 85°
Congresso Mundial de esperanto ocorre também o Congresso Infantil,
onde os
pequenos esperantistas convivem com crianças de todos os lugares
do mundo e
aprendem novas culturas usando o esperanto.
Outra atração do Congresso era a livraria, com centenas
de títulos da literatura
mundial traduzidos para o esperanto além de dicionários
e livros didáticos para
crianças e adultos.
O esperanto é um idioma muito difundido e bem aceito em Israel.
Durante o evento, a
bandeira do esperanto, cujo símbolo é uma estrela verde,
foi hasteada ao lado da
bandeira do Estado de Israel em uma das principais avenidas de Tel
Aviv, a
Hayarkon. Em muitas cidades do país, inclusive em Tel Aviv,
existem ruas com o
nome do criador da língua, Lázaro Zamenhof, que era judeu.
O texto de abertura do livro do Congresso de esperanto, é de
autoria do ministro
Shimon Peres, prêmio Nobel da paz.
O ministro saúda os esperantistas lembrando o trecho do livro
do Gênesis, do Antigo
Testamento, sobre a Torre de Babel. Segundo o livro, Deus dá
aos homens uma só
língua para que unidos, possam progredir. Mas ao ver a ambição
dos homens que
contruiam uma torre (a Torre de Babel) para chegar aos céus,
castiga-os
confundindo sua linguagem para que não mais possam se entender.
Shimon Perez
diz que esse castigo pode ser amenizado e que sonha com o dia em que
possam
todos entender e escutar uns aos outros, independente de língua
e de credo.
Um delegação de 27 esperantistas representando os cinco
continentes foi convidada
a participar de uma audiência com a vice-presidente do Knesset,
o parlamento
israelense, Naomi Chazan.
Franceses, sul-africanos, israelenses, japoneses, chineses, espanhóis
e brasileiros
sentaram em uma das salas de votação do Knesset para
conversar sobre a proposta
de paz falando uma única língua, o esperanto.
O Brasil foi representado nesse encontro pelo paulista James Piton,
e pelos cearenses
José Marcos Martins, professor de esperanto e Socorro Acioli,
que escreve essa
reportagem.
Durante o encontro, Naomi Chazan agradeceu aos esperantistas pela escolha
de
Israel como sede do Congresso Mundial, apesar do tenso período
de negociações em
que se encontra o país. Naomi ressaltou ainda a importância
do uso de uma língua
neutra, lembrando que a fonte dos problemas entre os povos árabes
e israelenses
muitas vezes está na incompreensão da linguagem.
Socorro Acioli é estudante de Comunicação
da Universidade Federal do Ceará e membro do Comitê de
Organização do 87° Congresso Mundial
de Esperanto em Fortaleza
Fortaleza será sede em 2002
O próximo Congresso Mundial de Esperanto ocorrerá em Zagreb,
na Croácia, de 28
de julho a 1° de agosto de 2001. Mas em 2002, Fortaleza será
a sede do encontro
anual de esperantistas.
A escolha da sede dos congressos é feita pela Associação
Universal de Esperanto,
que examina as condições das cidades inscritas e escolhe
a que oferecer melhores
serviços e estrutura para promover o evento. O diretor geral
da Associação, o
finlandês Osmo Buller, veio a Fortaleza realizar a inspeção
e voltou com um
excelente relatório sobre a cidade. A vitória de Fortaleza
foi anunciada em agosto do
ano passado, no 84° congresso, ocorrido em Berlim.
A previsão é de que mais de 2000 esperantistas participem
desse congresso, que
será o segundo Congresso Mundial de Esperanto realizado no Brasil.
O primeiro
aconteceu em Brasília em 1981. Desde o anúncio da escolha
de Fortaleza como sede
do congresso, a Associação Cearense de Esperanto vem
trabalhando na organização
do evento. (SA)
* Artigo publicado em 06.08.2000 no jornal O POVO, de Fortaleza-CE
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23Autor norte-americano · nome não indicado
A Vantagem do Inglês
Um norte-americano reflete sobre o lugar de sua própria língua na comunicação internacional.
A Vantagem do Inglês
Den Drown (EUA)
Eu tenho a sorte ultimamente de poder viajar bastante na Europa por causa do meu trabalho. Sou dos Estados Unidos, e por isso um amigo na Alemanha me disse que eu tenho uma vantagem de já falar, desde o berço, aquilo que se tem como mais próximo de uma língua internacional: o inglês. Eu acho que ele tem razão, mas eu fico incomodado com essa vantagem.
Sou um cidadão norte-americano, e muito me orgulho disto. Tenho orgulho que sejamos um país muito importante no mundo contemporâneo. Do que eu não me orgulho é a maneira como nós mantemos essa importância. Trata-se do uso do inglês em nosso mundo como instrumento de comunicação. Eu tenho uma vantagem. Nós norte-americanos temos uma vantagem. Nós somos a elite, nós dominamos no mundo inteiro e vamos continuar, porque eles, os outros, nunca vão poder se comunicar tão bem quanto nós. Eles trabalham anos e décadas a fio. Nunca vão nos alcançar. Nós somos a elite.
E os que falam outras línguas? Eles costumam achar que conseguem usam perfeitamente a nossa, mas por trás nós comentamos e fazemos piada dos erros que cometem. Eu tenho vontade de gritar para eles: "Vocês não conseguem ver o que então fazendo? São vocês mesmos que retiram o seu poder de comunicação! São vocês mesmos que nos colocam acima de vocês!". E acima deles nós ficaremos. Nós somos a elite e dominamos o mundo.
Eu não fico contente por ser a elite. Eis aqui um norte-americano que não se interessa em ser dominador do mundo. Sou cidadão dos EUA, mas acima disto - sim, acima disto - sou um cidadão do mundo. Vocês todos, eu os considero como amigos e até irmãos. Eu não quero ficar acima de vocês por causa de uma vantagem injusta. Eu gostaria muito mais de caminhar ao seu lado, e assim nós poderíamos dividir nossas culturas um com o outro, assim nós poderíamos ser iguais, respeitarmos um ao outro.
Mas vocês se recusam, vocês das outras línguas. Eu acho que vocês ficam cegos para a verdade. As pessoas parecem menos inteligentes do que elas realmente são quando falam com um pessoa em outra língua. Claude Piron, um esperantista, me deu esta opinião e eu cada vez mais vejo isso quando trabalho no exterior. O Esperanto foi criado para ser aprendido rapidamente e - mais importante - flexível para que todos possam usá-lo sem parecer um estrangeiro, sem parecer estúpido. O inglês, não! Se não morarem vários anos em um país de língua inglesa, vocês nunca vão dominar as regras não-escritas, uma enormidade de expressões e as nuances sutis da língua. Uma língua nacional é um labirinto que confunde o estrangeiro. É como as camadas de uma cebola, e quando vocês entendem um aspecto da língua, vocês podem estar certos que abaixo dela encontram-se exceções e nuances incompreendidas. Aprendam o inglês. É uma língua belíssima e rica, os diferentes povos que o têm como língua materna são amáveis e suas culturas muito interessantes. Mas entendam que ela não serve como instrumento de comunicação internacional. Pensem nas pessoas do seu país que cometem erros em sua própria língua, aí. Pensem nos erros que vocês cometem em sua língua materna. Vocês acha que falantes não-nativos podem concorrer de igual para igual? Vocês querem criar um mundo tão injusto? Como cidadãos do mundo, como humanidade, nós podemos nos orgulhar deste nosso mundo?
Eu queria por fim acrescentar umas reflexões sobre este mundo que criamos. Eu comecei falando dos EUA, meu país, e de como se trata de uma país importante em nosso mundo. Por que é importante? Eu acho que uma das razões principais é a nossa força. Não necessariamente a força militar, mas no comércio, relações diplomáticas, artes, esportes e tantos outros campos. Por que somos fortes assim? Eu acho que é porque somos um país de 50 Estados. Eles colaboram entre si, comunicam-se, compartilham suas diversas forças e formam uma União uito mais forte que a soma dos próprios 50 Estados. Vemos hoje que a União Européia tem a mesma consciência. Eu os convido a pensar em nosso mundo. Como ele é? Como ele poderia ser se nós, cidadãos do mundo, pudéssemos comunicar com eficiência e assim nos entender e compartilhar nossas diversas forças? Eu acho que nós não podemos criar um mundo assim, com uma língua nacional como instrumento de comunicação. Por sorte nós temos uma língua adequada, justa, que capacita qualquer pessoa a declarar: "Eis-me aqui um cidadão do mundo, um membro da humanidade. Deixe-me mostrar quem eu sou". Isso é entendimento. Isso é o que o Esperanto possibilita. Isso é o nosso mundo.
*traduzido do Esperanto pelo Kultura Centro de Esperanto-Campinas
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24Piloto dos Estados Unidos · nome não indicado
Os inconvenientes do Inglês para a Comunicação Aeronáutica Internacional
Um piloto dos Estados Unidos aborda dificuldades linguísticas na comunicação aeronáutica e seus riscos.
Os Inconvenientes do Inglês
para a
Comunicação Aeronáutica
Internacional
Kent Jones (Chicago, EUA)
As Nações Unidas (ONU) surgiram em 1945. E, por sua vez, a ONU criou a Organização Internacional de Aviação Civil (ICAO/OIAC). Em 1951, a OIAC simplesmente recomendou o uso do inglês na aviação civil. Se ao invés dessa simples recomendação houvessem estabelecido uma regra, o aprendizado do inglês seria obrigatório para todos os pilotos, seriam submetidos a exames, além de serem obrigados a dominar essa língua. Mas até hoje o inglês é uma matéria meramente opcional na formação dos pilotos.
Quando se recomendou o uso do inglês, foi por oportunismo. Os EUA dominavam o mundo e não conheceram o estrago da guerra em seu território. Potência econômica e política, os EUA eram o maior produtor de aviões. Nada mais natural do que recomendar o inglês como língua internacional.
Mas naqueles dias nenhum estudo sério havia sido feito com vistas a catalogar as qualidades relativas de outras línguas além do inglês. Até que em 20 de novembro de 1997 a Comissão de Navegação Aérea da OIAC estabeleceu uma missão conhecida pela sigla ATM-9702. Tratava-se de "fornecer um estudo detalhado de todos os aspectos relacionados às comunicações verbais ar-terra e terra-terra na aviação civil internacional", segundo Gene Griffiths, colaborador da OIAC.
O relatório visava assistir a Comissão de Navegação Aérea da OIAC em suas deliberações. Paralelamente ao esforço necessário visando um uso menos aleatório do inglês, a Comissão tem por tarefa procurar uma língua mais adequada para uso nos próximos séculos. Porque o inglês apresenta deficiências que fazem mesmo necessária a sua substituição por uma outra língua.
OS PROBLEMAS ATUAIS
No mundo inteiro, 569 dos 1017 acidentes de avião foram imputados à tripulação. Em outras palavras, foi a tripulação, mais que as deficiências técnicas ou as condições atmosféricas, a principal responsável nesses acidentes. Logo, para alcançar uma maior segurança, é preciso concentrar as atenções sobre a tripulação, mais que nos aspectos físicos. Seu comportamento a bordo provém de informações verbais trocadas, por um lado, entre os membros da tripulação, e por outro entre estes e os controladores de vôo. Em sua participação no jornal da rede CBS em 30 e 31 de março de 1998, Dan Rather destacou os riscos ligados à situação atual.
A falta de capacidade no uso do inglês por pilotos e controladores de vôo de línguas maternas diferentes causa acidentes. Aliás, essa é uma das 5 categorias de acidentes, segundo a Flight Safety Foundation (Fundação para a Segurança de Vôo). A maior parte desses acidentes ocorreram fora dos EUA, mas havia norte-americanos a bordo, o que coloca esse problema tanto para a FAA (agência norte-americana para a aviação) como para a OIAC. Por exemplo, a colisão em pleno céu da Índia em novembro de 1976, na qual estava envolvida uma tripulação que falava três línguas maternas diferentes, fez 349 vítimas, das quais dois norte-americanos. Da mesma forma os membros da tripulação cuja língua materna não era o inglês provocaram os acidentes em Guam, na Indonésia, em Taiwan, e também na Colômbia, em maio de 98.
Além disso, Frank Price, diretor de uma divisão da FAA declarou "Ao contrário do que acontecia anteriormente, o tráfego aéreo internacional vem até o coração dos EUA. Cada um dos Centros de Controle de Tráfego Aéreo da FAA se vê confrontado com o tráfego internacional".
Chega a acontecer até mesmo que os próprios pilotos norte-americanos enfrentem dificuldades usando o inglês, uma vez que falam dialetos e também pelo fato de que no inglês abundam palavras homônimas e homófonas, o que pode provocar interpretações errôneas.
AS DEFICIÊNCIAS DA LÍNGUA INGLESA
A - A existência de inúmeras variantes impede a criação de uma norma.
1) Dado que o inglês espalhou-se pelo mundo tão rapidamente através do colonialismo, existem atualmente vários dialetos do inglês. Por exemplo, o da Austrália, o da Nova Zelândia, o da Irlanda, o da Escócia, o da Índia.
2) Dado que o inglês não é regulado nem por uma Academia, nem por princípios de autoridade, há variantes locais. Por exemplo, nos EUA temos o inglês (norte-americano) do Brooklyn, de Boston, do Sul dos Estados Unidos. Na Inglaterra há o cockney e também o inglês falado no oeste de Londres.
3) Os falantes que não têm o inglês como língua materna aplicam seus próprios hábitos aos sons do inglês, o que dá variações de sotaque bem marcado, como o de Nelson Mandela.
B - Incompatibilidade com o sistema métrico.
1) O Reino Unido, assim como as ex-colônias, adotaram o sistema métrico. Apenas os EUA se recusam.
2) Os instrumentos de bordo registram em "polegadas de mercúrio", "milhas marinhas", "nós" e "pés", unidades estranhas para 95% da população mundial, que já chegou a um sistema racional e coerente.
3) Por conseguinte, o pessoal aeronáutico se vê na obrigação de traduzir mentalmente essas unidades de medida não-métricas dos EUA, estranhas àquelas que aprenderam na escola. Uma carga adicional para o raciocínio, no caso por exemplo de uma situação de crise, sobretudo se o piloto é confrontado com uma falta de oxigênio ou a qualquer outro mal-estar.
C - O aprendizado do inglês pelos falantes não-anglófonos é difícil, pela presença de tantas irregularidades.
A linguagem da aviação é para se adquirir em profundidade. Não basta possuir um vocabulário limitado para ser operacional na navegação aérea. Para enfrentar situações críticas é necessária uma capacidade lingüística muito superior àquela de decorar simples expressões. Em 8 de maio de 1998, uma tempestade de granizo arrancou a antena do radar e quebrou o pára-brisas de um avião de linha com destino a Chicago. O piloto, privado do uso de seus instrumentos e da visão do solo, valeu-se das instruções de um controlador de vôo que dominava o inglês perfeitamente e pôde então aterrisar suavemente.
O controlador em serviço na ocasião do acidente da American Airlines em 1995, na Colômbia, bem que quis interrogar o piloto sobre sua posição no corredor aéreo, mas não pôde se expressar. Jack C. Richards, o autor de um ensaio intitulado "O CONTEXTO NO ENSINO DE LÍNGUAS" é de opinião que uma terminologia especializada é melhor aprendida no contexto geral da língua à qual pertence. A ênfase (a insistência sobre certas palavras) e a entonação desempenham um papel importante na comunicação e é preciso dominar bem o inglês para descobrir diferenças sutis. Eis um exemplo: "The flight attendant called the passengers' names". A forma escrita, claro, não deixa qualquer dúvida; a frase significa apenas "A comissária chamou os nomes dos passageiros". O apóstrofe está lá para evitar a ambiguidade. Mas em inglês a frase The flight attendant called the passengers names" (sem apóstrofe) tem outro sentido: "A comissária chamou os passageiros de todos os nomes" (= os insultou). Ora, se essa frase é pronunciada, apenas a entonação (a música e o ritmo da frase) permite a interpretação correta.
Como destaca Shannon Uplinger, dos Serviços de Tradução Uplinger, "O conhecimento de uma terminologia especializada - como a da navegação aérea - é assimilada mais facilmente quando primeiro se adquirem os outros aspectos da língua, por exemplo os princípios que regem a formação de palavras e a estrutura da frase. Ensinar e testar o conhecimento da terminologia de aviação através de listas de termos e expressões é fazer dos controladores de vôo meros papagaios, que se desorientam quando confrontados com situações excepcionais ou estressantes; enquanto isso, as pessoas que dominam bem o inglês em geral sabem utilizá-lo de forma eficaz nas situações mais variadas".
As dificuldades encontradas por pilotos não-anglófonos que aprendem o inglês são enormes. Eis algumas:
1) Os 44 sons (fonemas) da língua inglesa não podem ser foneticamente representados pelas 26 letras de seu alfabeto. Daí o incrível problema de sua ortografia, quando se sabe que há mais de 250 formas de se escrever esses 44 sons. Isso torna a leitura de instruções e a redação de relatórios extremamente difícil. O IDEAL = UMA LETRA PARA CADA SOM.
2) Problemas despertados pela sílaba tônica: qual sílaba
se deve acentuar? É principalmente na má acentuação
que se reconhecem os falantes não-anglófonos: uma mesma palavra
(escrita) toma significado diferente de acordo com sua acentuação,
e portanto de acordo com sua pronúncia. Por exemplo, "refuse": a)
REFuse = dejetos, detritos b) reFUSE = recusar
c) RE-FUSE = refundir
O IDEAL = UM ACENTO TÔNICO ÚNICO PARA CADA PALAVRA.
3) Formas irregulares de plural. Se "man" vira "men" no plural, por
que "pan" não vira "pen"?
O IDEAL = TODOS OS PLURAIS FORMADOS DA MESMA MANEIRA.
4) Quase 300 verbos são irregulares em inglês.
O IDEAL = NENHUM VERBO IRREGULAR.
5) As vogais são de extrema importância, porque são
elas que esclarecem o sentido das palavras. Ora, o inglês possui
12 sons vogais diferentes (+ 8 ditongos), o que exige anos de prática
antes que se possam dominá-los.
O IDEAL = NÃO MAIS DE QUE 5 SONS VOGAIS, COMO EM ESPANHOL.
6) O fato de que uma palavra em inglês pode freqüentemente
ter vários significados, nos permite fazer trocadilhos, mas confunde
os estudantes estrangeiros da minha língua. Assim, há um
dicionário que se gaba de dar 500 mil definições para
suas 100 mil palavras, ou seja, 5 definições por palavra!
Para palavras tão simples e corriqueiras como "run" ou "get", encontram-se
30 significados.
Em um estudo de 6527 relatórios de vôo redigidos por pilotos
e controladores de vôo e dirigidos ao Sistema de Relatórios
de Segurança da Aviação, foram detectados 529 incidentes
que Grayson & Billings caracterizou como "palavreado ambíguo".
O IDEAL = AS PALAVRAS TEREM APENAS UM SIGNIFICADO, NÃO AMBÍGUO.
7) Em inglês há cerca de 5 mil expressões idiomáticas. Trata-se de um palavreado de uso corrente e para o qual não se pode traduzir o significado de cada uma das palavras. O anglófonos de nascimento manejam sem qualquer dificuldade esses elementos lingüísticos de conotação cultural, mas os demais falantes, não.
Os pilotos anglófonos teriam facilmente uma tendência de recorrer espontaneamente a expressões desse tipo em situações críticas, deixando seus interlocutores estrangeiros se perguntando o que significa uma frase como "I'm out of time" - poderiam pensar que o piloto rompeu o tempo x espaço (quando se trata de "Estou atrasado"). Ou então do tipo "dead reckoning": trataria-se do número de vítimas que morreram? (trata-se na verdade do "chutômetro") Enormidades lingüísticas desse tipo abundam no glossário piloto/controlador de vôo do Manual de Informação Aeronáutica da FAA.
O capitão John Cox, da companhia aérea US Airways, declarou:
"Nos dão um léxico cheio de abreviações, acrônimos
e de jargão profissional, mas pense só no número de
variantes do inglês. O que nós dizemos pode mesmo confundir,
nós temos problemas com os as gírias, os homônimos
(por exemplo, "to", "too", "two") etc...
O IDEAL = UMA LÍNGUA COM UM REDUZIDO NÚMERO DE EXPRESSÕES
IDIOMÁTICAS, DE GÍRIA E DE JARGÃO PROFISSIONAL.
CONCLUSÃO
Levando em conta todos esses inconvenientes do inglês, não é justo impor um aprendizado tão árduo para todos os não-anglófonos. E, além dessa injustiça, é preciso saber que de qualquer forma eles JAMAIS APRENDERÃO O INGLÊS DE FATO, essa língua tão difícil para os estrangeiros. É preciso criar uma comissão encarregada de encontrar uma língua apresentando um número reduzido de inconvenientes, mas precisamente uma língua que atenda aos 7 critérios acima indicados. Em seguida será preciso substituir, pouco a pouco, o inglês por essa outra língua, mais adequada para esse fim.
Enquanto aguardamos, tentemos fazer com que o inglês não seja mais a fonte de tantos problemas. Um estudo realizado em conjunto pela NTSB e pela FAA, com um orçamento de 500 mil dólares, será iniciado em junho de 1998. Mas como declarou Shannon Uplinger: "Supondo até que se faça o melhor ensino possível da língua inglesa, não se suprimirão jamais as ambiguidades inerentes a essa língua e não será compensada a falta de disciplina, a fadiga e os outros problemas da profissão. Mas esse aprendizado aumentará a capacidade dos controladores de vôo e reduzirá fortemente o risco de que eles e os pilotos se comuniquem sem se compreenderem".
Kent JONES
5048 N. Marine Drive, D6
Chicago, IL 60640
EUA
*traduzido pelo Kultura Centro de Esperanto-Campinas.
Kent Jones é engenheiro civil aposentado. Seu primeiro contato
com a aviação foi durante o serviço militar na marinha
norte-americana. Foi técnico em eletrônica na unidade de Aproximação
Controlada por Terra na Estação Naval de Barber's Point,
em Oahu, Havaí.
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25Claude Piron · Suíça
Uma Língua Ocidental, o Esperanto?
Claude Piron discute aspectos da estrutura do Esperanto e sua dimensão internacional.
Uma língua ocidental,
o Esperanto?
Claude Piron (Suíça)
Se considerarmos o aspecto externo do esperanto, somos tentados a considerá-lo uma língua ocidental. Sua sonoridade lembra o italiano e o vocabulário parece em grande parte de origem latina. Além disso, quem tem a oportunidade de ouvir uma conversa nessa língua não tarda a notar que "sim" é pronunciado yes, como no inglês (mas se escreve "jes"). Tudo parece confirmar o seu caráter ocidental. O ouvinte mais atento que percebe a presença de inúmeras raízes germânicas fica com a mesma impressão: tudo evoca uma língua ocidental aparentemente dotada de um léxico em que, como no inglês, encontram-se lado a lado as contribuições latinas e germânicas.
Alguns, de formação clássica, situarão o esperanto um pouco mais para o Oriente, ao reconhecerem traços do grego: a conjunção "e" se escreve "kaj" (pronuncia-se cai) e é uma perfeita cópia do grego antigo, "kai". Os plurais são explicitamente tomados à língua de Homero (em grego, "parallelos", uma linha paralela e "paralleloi", linhas paralelas; em esperanto, "paralelo", "paraleloj", onde a terminação -oj se pronuncia oi, como na pronúncia clássica do grego).
O esperanto escrito parece menos ocidental: a presença de consoantes com circunflexo, os "j" seguindo uma vogal no final da palavra, grupos consonantais como "kv" lembram o aspecto visual do esloveno e do croata. Quem aposta numa influência eslava não se engana. O esperanto nasceu na Europa oriental. Sua sintaxe, vários pontos da gramática, muitas expressões, o estilo mais freqüente testemunham efetivamente um importante substrato eslavo. Da mesma forma a sua semântica. Se a palavra "plena" foi tomada das línguas latinas, seu campo semântico não é o do nosso "pleno", mas do russo "polnyj", derivado do velho radical indoeuropeu "pln". Em nenhuma língua românica se fala de um "dicionário pleno", mas sim de um "dicionário completo". Em esperanto "plena vortaro" é a transposição exata do russo "polnyj slovar", até no sufixo (em russo, "slovo", palavra e "slovar", dicionário; em esperanto, "vorto", palavra e "vortaro", dicionário).
O esperanto tem pelo menos alguma coisa em comum com as línguas semíticas? Na forma, não, mas no espírito sim. Como no árabe e no hebraico, o esperanto forma o essencial de seu léxico através da derivação a partir de raízes invariáveis. Bem, nas línguas semíticas as raízes se compõem quase sempre de três consoantes e a derivação se faz freqüentemente com a inserção de vogais entre essas consoantes, enquanto que em esperanto as raízes não seguem um esquema fixo e a derivação se dá exclusivamente pelo acréscimo de elementos no início ou no final da raiz. A versão em esperanto da bíblia hebraica contém mais ou menos o mesmo número de raízes que o original, o que a distingue claramente das traduções em línguas ocidentais, obrigadas a recorrer a muitas palavras cuja derivação não é transparente, ao contrário da derivação do esperanto e do hebraico.
Se em nossa marcha ao Oriente nós passarmos do árabe ao persa, nós sairemos de uma língua com gramática complicada, cheia de exceções, para uma língua em grande parte regular. Em árabe, para formar o plural, é comum transformar totalmente o interior da palavra: "kitâb", livro, no plural se torna "kutub". O persa, que tomou muitas palavras do árabe, não pegou emprestado os plurais irregulares. O plural se forma com a adição da terminação -hâ. O plural de "kitâb" não precisa ser memorizado à parte. Será "kitâbhâ". O esperanto apresenta a mesma simplicidade. Basta uma fração de segundo para aprender a formar o plural de todos os substantivos, pois trata-se simplesmente de guardar que ele é formado pelo acréscimo de um "j" - pronunciado, lembre-se, como a letra i em oi. Que diferença em comparação com línguas como o alemão, o árabe, nas quais é preciso praticamente aprender o plural em paralelo a cada substantivo comum. E mesmo em comparação com o inglês, mais regular, mas que mesmo assim apresenta um certo número de exceções: "woman" (mulher), "child" (criança), "foot" (pé), "mouse" (camundongo), "sheep" (carneiro) e muitas outras palavras não seguem a regra geral pela qual forma-se o plural acrescentando-se um -s. Diz-se "women", "children", "feet", "mice", "sheep"...
A maioria dos ocidentais não imagina que existam línguas tão coerentes que a própria noção de verbo irregular, plural excepcional, derivação aberrante sejam simplesmente impensáveis. Dentre essas línguas estão o chinês, o vietnamita... e o esperanto. Essas três línguas têm em comum, diferentemente de todas as línguas indoeuropéias, o fato de serem compostas por elementos rigorosamente invariáveis e que se combinam entre si de maneira ilimitada. Para quem fala uma dessas línguas, a idéia de que "primeiro" não deriva da palavra "um" ou que para designar as diversas modulações da primeira pessoa do singular é preciso aprender toda uma série de palavras como "eu", "me", "mim", "meu", "minha", "migo", é um fato bizarro e incompreensível. Dá para se entender tão bem sem toda essa confusão! Em chinês, "meu", "minha", "meus" se diz simplesmente "wode", que é a forma adjetiva (-de) de "wo", eu. O esperanto deriva essas palavras da mesma maneira, acrescentando a marca do adjetivo (-a) à palavra "mi", eu. Assim, realidades paralelas exprimem-se nessas duas línguas com formas paralelas, o que não se encontra em nenhuma língua ocidental. Em "eu tomo a sua, você toma a minha", a reciprocidade dos gestos se marca na forma tão bem em chinês (wo na nide, ni na wode) quanto em esperanto (mi prenas vian, vi prenas mian). Em francês (e português), por outro lado, a relação entre "eu" e "minha" não tem nada de transparente, "sua" deve ser aprendido independentemente de "você", e não se pode formular a idéia corretamente sem haver memorizado um conjugação: "tomo" na primeira frase deve ceder lugar a "toma" na segunda. Os pontos a memorizar para se exprimir convenientmente são sempre mais numerosos quando se trata de uma língua ocidental.
Uma mesma semelhança estrutural se encontra entre o chinês e o esperanto na formação de palavras. Em francês, como no inglês, é preciso aprender separadamente palavras como "compatriota", "correligionário", "condiscípulo" e não dá para expressar em uma só palavra conceitos como "pessoa da mesma raça" ou "alguém que fala a mesma língua". Em chinês, basta conhecer a estrutura e a palavra fundamental. Se já se sabe falar "país", automaticamente é possível dizer "compatriota". Da mesma forma em esperanto: para formar compatriota, "samlandano", correligionário, "samreligiano", condiscípulo, "samklasano", pessoa da mesma raça, "samrasano", pessoa que fala a mesma língua, "samlingvano", basta conhecer a estrutura "sam___ano" e colocar a raiz correspondente. Da mesma forma, o chinês que aprende o português, o inglês ou o italiano deve memorizar como uma entidade totalmente nova a palavra "estrangeiro" (foreigner, straniero). Se ele aprende esperanto, basta traduzir parte por parte (monema por monema, diria um lingüista) os três elementos que compõem essa palavra em sua língua materna: "waiguoren", estrangeiro, se compõe de "wai", fora (em esperanto, "ekster"), de "guo", país (em esperanto, "land-") et de "ren" (ser humano, que corresponde em esperanto a "ano", pessoa que pertence a, membro de, vindo de...): estrangeiro em esperanto se diz "eksterlandano". Outro exemplo: o aluno chinês que se esforça para adquirir uma língua ocidental deve memorizar toda uma série de nomes de animais, enquanto que em sua língua basta usar a derivação. O fato de que aprendeu "cavalo" não serve para comunicar com precisão os conceitos de "égua", "potro" ou "garanhão"; "boi" não tem qualquer relação com "vaca", "bezerro" e "touro". Em chinês, essas palavras se formam de um modo regular. São respectivamente, "ma", "muma", "xiaoma" e "gongma"; "niu", "muniu", "xiaoniu" e "gongniu". O sistema não é menos regular em esperanto. A relação é a mesma, de um lado, entre "c'evalo" (o c com circunflexo se pronuncia "tch") e "c'evalino", "c'evalido", "virc'evalo", e de outro "bovo" e "bovino", "bovido", "virbovo".
As pessoas que criticam o esperanto por ser muito ocidental não prestam atenção em dois aspectos importantes da questão. Em primeiro lugar, julgam de uma forma puramente superficial, sem entrar na análise lingüística, que pode revelar, em profundidade, até que ponto ela é diferente do que parece à primeira vista. Em segundo lugar, esquecem que uma língua de comunicação internacional é totalmente necessária. Em que língua as pessoas tentam "se virar", na prática, quando não há uma língua comum? Em inglês! Ora, essa é uma língua muito mais ocidental que o esperanto e muito mais difícil de se adquirir para a maior parte dos habitantes do nosso planeta. Nenhuma língua poderia colocar todos os povos em igualdade. Mas de todas as que existem e são utilizadas na prática, o esperanto é a que mais se aproxima desse ideal. Ao cabo de 2 mil horas de inglês (5 horas por semana durante 10 anos), o japonês e o chinês médio é incapaz de se expressar de um modo realmente operacional na língua de Shakespeare ou do Wall Street Journal, eles não passam do estágio de balbuciar frases. Com 220 horas de esperanto, em média, eles podem realmente comunicar, sentindo-se bem à vontade. Esta diferença não chega a supreender quem estuda as estruturas lingüísticas das diversas línguas.
Se a gente quer jogar limpo e continuar sendo objetivo, para criticar o esperanto é preciso primeiro haver feito uma análise suficientemente profunda e ter realizado comparações com o inglês e com as línguas maternas dos povos dos quais se ouve a defesa de interesses. Na democracia, todo acusado é considerado inocente até prova em contrário. Estará de acordo com as tradições européias aplicar esse princípio a toda decisão sobre o esperanto e reservar seu julgamento até que tenham sido estudados os fatos. Nenhum lingüista sério, nenhum jornalista, nenhum político ousaria fazer juízo sobre o tagalog ou o malaio sem estar plenamente documentado sobre essas línguas. Não há qualquer motivo para fugir a essa regra em se tratando do esperanto.
. Veja também: Por que o alfabeto latino, se o Esperanto se propõe universal?
Claude Piron é psicólogo e professor, e trabalhou no serviço de tradução da ONU e da OMS-Organização Mundial da Saúde.
*traduzido pelo Kultura Centro de Esperanto-Campinas.
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26Jornalista não esperantista · Suíça
Esperanto, o filme
Uma jornalista suíça, sem vínculo prévio com o movimento, relata vantagens que observou no Esperanto.
Esperanto, o filme*
[en
Esperanto]
Anna Lietti
jornal "Le Temps"
de 28.04.2001
Lendo os jornais nesta semana, por um momento eu sonhei que talvez eu devesse cuidar de marketing. A informação estava no 24 Heures ["24 horas", um diário de Lausanne, N.T.]: O Esperanto, que em breve será ensinado no Clube Escolar Migros, é, segundo essa informação, a segunda língua do planeta Internet. Essa afirmação talvez seja demasiadamente otimista, mas é certo que a cultura dos grupos de discussão na rede rejuvenesceu a "universala lingvo" do dr. Zamenhof.
Nem sei se sou favorável à idéia de se adotar o Esperanto ao invés do inglês como língua de comunicação planetária. Mas eu gostaria muito de conceber sua estratégia de marketing. O produto é de fato excelente e bastaria um pequeno empurrãozinho para fazê-lo decolar.
Primeiro trunfo: o Esperanto tem uma mitologia na sua criação, com um herói que as massas adorariam: Luís Lázaro Zamenhof, um jovem (e bonito, por que não? não sejamos mesquinhos) médico polonês que cresceu num ambiente de conflitos nacionalistas e étnicos, no final do século XIX, e que gerou uma utopia de língua comum, graças à qual finalmente os povos compreenderiam uns aos outros. Dizem que os produtores de Hollywood se cansam de procurar temas. Este não seria perfeito para o Oscar de melhor figurino? Meu primeiro passo de marketing seria vender o roteiro do filme na região de Los Angeles.
Segundo trunfo: o Esperanto é a língua ideal para aqueles que batalharam em Seattle, e para os seus colegas. Se eles adotassem o Esperanto, milhões de pessoas que são contra a globalização econômica sentiriam que estão fazendo um ato de resistência simplesmente dizendo "salon, mi petas" (passe-me o sal, por favor). E certamente eles se compreenderiam mutuamente nos quatro cantos do planeta, porque o Esperanto é tão internacional como o inglês. A diferença é que ele é internacional de uma forma neutra, não-imperialista.
Claro, os terceiro-mundistas vão logo dizer que essa língua pretensamente universal tem sons e aspecto por demais europeus. Os esperantistas russos e japoneses vão reagir dizendo que, em todo caso, para se relacionar com o mundo inteiro eles já precisam aprender o alfabeto latino. E no que diz respeito à pronúncia, o Esperanto está para o inglês assim como uma dança de roda está para a roda de tortura medieval. Minha estratégia de marketing incluiria então um curso de Esperanto para José Bové.
Terceiro trunfo: a língua de Luís Lázaro pode ser aprendida de modo extremamente fácil e rápido. Não tem a ortografia atazanadora que vem do grego, conjugações complicadas, nem exceções às regras: ela se caracteriza pela ortografia cristalina e uma sintaxe regular, cujos fundamentos podem ser assimilados em não mais do que dez horas. Quem poderia apresentar algo melhor? Ela tem tudo para atrair muitos dos estudantes que eu conheço. Bastaria informá-los.
Será que eu estou ouvindo alguém dizer "Vamos lutar para que o Esperanto seja ensinado nas escolas"? Não, não, mil vezes não! Isto poria tudo a perder! O Esperanto deveria ser uma língua essencialmente extra-classe, uma língua alternativa, do moleque de rua, uma língua da criança contra a dos pais. E, claro, depois de vinte anos, a língua que lembraria aos pais sua feliz adolescência rebelde.
Minha estratégia é perfeita, não é? Bem, eu não vou mudar de profissão tão repentinamente. Mas eu fico curiosa. Será que isto tudo vai se desenvolver sem mim?
Anna Lietti é jornalista do diário "Le Temps", de Genebra (Suíça).
*traduzido pelo Kultura Centro de Esperanto-Campinas.
Esperanto,
la filmo**
Anna Lietti
jornal "Le Temps",
la 28-an de Aprilo, 2001
C'i-semajne legante la gazeton mi revis dum momento, ke eble mi devus okupig'i pri surmerkatigo. La informo estis en 24 Heures ["24 horoj", Lauzana c'iutaga gazeto, noto de trad.]: Esperanto, baldau' instruota en Lernej-Klubo Migros, estas, lau' tiu informo, la dua lingvo de la planedo Interreto. Tiu aserto eble tro optimismas, sed estas certe, ke la retdiskuta kulturo havigis novan junecon al la "universala lingvo" de d-ro Zamenhof.
Mi ne scias, c'u mi favoras la ideon alpreni Esperanton anstatau' la angla kiel tutplanedan lingvan komunikilon. Sed ege plac'us al mi koncepti g'ian surmerkatigan strategion. La produkto ja estas bonega, kaj sufic'us eta helpa pus'o por lanc'i g'in supren.
Unua atuto : Esperanto havas fondan miton kun heroo, kiun amasoj ja povas adori: Ludoviko Lazaro Zamenhof, juna (kaj bela, kial ne?, ni ne c'ikanu) pola kuracisto, kreskinta meze de etnonaciismaj diss'iroj fine de la pasinta jarcento kaj akus'into de utopio pri komuna lingvo, dank al kiu, finfine, la popoloj komprenus unu la alian. Oni diras, ke la Holivudaj filmistoj pene serc'adas temojn. C'u c'i tiu ne estas perfekta por kostuma Oskar? Mia unua gesto surmerkatiga estus vendi la film-ideon en la Losang'elesa c'irkau'aj'o.
Dua atuto : Esperanto estas la ideala lingvo por tiuj, kiuj batalis en Seattle, kaj iliaj samcelanoj. Se tiuj g'in alprenos, milionoj da homoj, kiuj kontrau'as la ekonomian tutmondigon, havos la impreson, ke ili plenumas agon de rezistado simple dirante salon, mi petas . Kaj tute certe, ili interkomprenig'os de unu ekstremaj'o de la planedo al alia, c'ar Esperanto estas same tutmonda kiel la angla. La diferenco estas, ke g'i estas tutmonda neu'trale, ne imperiisme.
Kompreneble, la triamondistoj tuj rimarkigos, ke tiu lingvo lau'dire universala havas sonojn kaj aspekton akre eu'ropajn. La rusaj kaj japanaj esperantistoj rebatos, ke, c'iaokaze, ili devas, por aliri la tutmondon, lerni la latinan alfabeton kaj ke, koncerne la prononcon, Esperanto estas en sama rilato al la angla kiel infana rondodanco al la mezepoka radotorturo. Mia surmarketiga strategio do inkluzivus Esperanto-kurson al José Bové.
Tria atuto: la lingvo de Ludoviko Lazaro estas ege facile kaj rapide lernebla. Forestas grekdevena mensturmenta ortografio, komplikaj konjugacioj, esceptoj al reguloj: g'i karakterizig'as per kristala ortografio kaj regula sintakso, kies bazoj asimileblas en ne pli ol dek horoj. Kiu povus prezenti ion pli bonan? G'i havas c'ion por delogi multajn el la lernejanoj, kiujn mi konas. Sufic'us ilin informi.
C'u mi au'das vin diri: Ni do batalu por instruigi Esperanton en la lernejoj ? Ne, ne, miloble ne! Tio estus c'ion fiaskigi! Esperanto devus esti esence eksterlerneja lingvo, lingvo alternativa, stratbubac'a, infana lingvo kontrau'gepatra. Kaj, kompreneble, post dudek jaroj, la lingvo, kiu memorigos la gepatrojn pri ties g'oja ribela junag'o.
Mia strategio estas sendifekta, c'u ne? Sed, nu, mi ne s'ang'os tiel abrupte mian profesion. Mi tamen scivolas. C'u c'io c'i disvolvig'os sen mi?
Anna Lietti estas j'urnalistino de la tagj'urnalo "Le Temps", G'enevo (Svislando).
**esperantigita kaj afable disponigita de Claude Piron.
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27Cientista da Computação · nome não indicado
Propostas de aplicações para tratamento linguístico computacional do Esperanto
Um pesquisador discute usos computacionais e propriedades do Esperanto relevantes ao processamento de línguas.
Propostas de Aplicações para Tratamento Lingüístico Computacional do Esperanto*
Moisés Braga
Ribeiro
02.07.2001
* Trabalho final da disciplina MO622 (Fatores
Humanos em Sistemas de Informação), ministrada pela
professora doutora Maria Cecília
Calani Baranauskas e realizada no primeiro semestre de 2001, no
Instituto de Computação
da Universidade Estadual de Campinas (IC/UNICAMP).
Reproduzido aqui por especial permissão
do autor.
Resumo
Este artigo aborda a língua planejada Esperanto e propõe aplicações computacionais para seu tratamento lingüístico. Comparações com outras línguas (tanto naturais quanto planejadas) são feitas de modo a demonstrar a regularidade do Esperanto bem como a possibilidade de seu tratamento lingüístico computacional ser mais simples. As aplicações propostas não são dessa maneira para processamento lingüístico em geral - são para processamento específico de Esperanto, tirando proveito de sua gramática extensivamente regular para simplificar e direcionar suas ações. Tais aplicações envolvem análises lingüísticas nos níveis fonético, morfológico e sintático e outras aplicações que utilizam estas análises como ponte de partida, como interfaces textuais, procura "inteligente" de texto e tradução automática. Um conhecimento prévio de Esperanto não é necessário para a plena compreensão deste artigo.Palavras-chave: Esperanto, processamento de linguagem natural, análise morfológica, análise sintática.
Leia o texto integral deste artigo clicando aqui (375 Kb, arquivo formato PDF*)
*Atenção: Para visualizar este arquivo é necessária uma prévia instalação do programa Acrobat Reader (3.0 ou versão superior), da Adobe. Se não conseguir abri-lo, pegue o instalador do programa aqui e instale-o.
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28Autoria não indicada no índice
Acessibilidade em interfaces computacionais da Web: aspectos linguísticos
O texto aborda a barreira linguística como um fator que pode limitar o acesso à internet.
Acessibilidade em Interfaces Computacionais da Web: Aspectos Lingüísticos*
Ismael Mattos Andrade Ávila
julho de 2001
* Trabalho final da disciplina MO622 (Fatores
Humanos em Sistemas de Informação), ministrada pela
professora doutora Maria Cecília
Calani Baranauskas, no Instituto de Computação da Universidade
Estadual de Campinas (IC/UNICAMP). Reproduzido
aqui por especial permissão do autor.
Resumo
Esse artigo estuda o problema da barreira lingüística como um fator de limitação no acesso da Web. As razões e características desse tipo de handicap serão descritas e quatro modalidades de solução serão estudadas em profundidade a fim de alcançar um bom entendimento sobre os potenciais e desvantagens de cada estratégia. Levando em consideração critérios tais como direitos humanos, granularidade, disponibilidade, e robustez das soluções estudadas temos a intenção de estabelecer seus limites e avaliar as sinergias latentes daquelas ferramentas.Palavras-chave: Acessibilidade, barreiras lingüísticas, deficiência lingüística, direitos humanos, tradução automática, adaptação cultural de interfaces, línguas internacionais auxiliares.
Leia o texto integral deste artigo clicando aqui (208 Kb, arquivo formato PDF*)
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29Mark Fettes
A via da Cidade do México
Mark Fettes compara modelos de globalização e o papel que o Esperanto pode desempenhar nesse debate.
| A via da Cidade
do México*
Mark Fettes (Canadá) . |
|
|
O tema do 5o. Congresso Panamericano de Esperanto (México, 15-21 de Abril 2001) inspirou o palestrante principal, Mark Fettes, a fazer uma ampla análise e um prognóstico abrangente do papel do Esperanto em um mundo agora voltado principalmente para a cultura do comércio. Nosso tema "Um continente, diversas histórias" já estabelece um contraste entre união e separação, entre pontos comuns e diferenças. Uma dialética muito conveniente para um Congresso de Esperanto, certamente. Mas o interessante é que a diversidade aparece em primeiro lugar como algo histórico: não se fala nas atualidades distintas, nem em diversos futuros. Quero então estender essa dialética em uma nova direção, partindo da história, passando pelo presente e mirando adiante para duas vias possíveis na evolução do mundo. |
[revista Esperanto da UEA (n. 1137, junho 2001)]
revista "Esperanto" 1137
(6), de junho 2001,
|
| .
Vôos em direções distintas O acaso me forneceu dois rótulos prontos para essas vias. Enquanto eu viajava para cá [Cidade do México] ao sul do Canadá ocidental, aviões de diversos países voavam para o norte, para o Canadá oriental, levando os representantes dos estados para uma conferência do Pacto Americano de Livre Comércio [ALCA]. No centro da cidade de Quebec, a polícia ergueu uma barreira de três metros de altura para separar os manifestantes e o pessoal da ALCA; e os grandes jornais canadenses minimizaram todas as críticas, afirmando que o livre comércio serve aos interesses de todos. Vou então falar da via de Quebec e da via da Cidade do México - a nossa via. Eles falam do livre comércio; nós, da livre comunicação. Entretanto as diferenças são mais profundas do que se poderia deduzir dessa fórmula simplista. Notemos primeiramente um importante ponto em comum. Em ambos lugares se fala da remoção de muros construídos pelos estados nos séculos XIX e XX, quando o modernismo floresceu. Procurando dominar o mercado interno, os estados introduziram cotas alfandegárias, impostos e sobretaxas que limitaram o comércio internacional e criaram um sistema complexo de dependência mútua entre os mundos político e comercial. Procurando dominar a cultura interna, os estados criaram sistemas educacionais monolíngues e de diversas maneiras colocaram obstáculos ou sufocaram o uso público de outras línguas, criando uma interrelação complexa entre línguas cultas, etnia e classe social. Portanto, em ambos os casos, a criação de muros entre as nações, tanto os muros comerciais como os de comunicação, esteve intimamente ligada ao fortalecimento das hierarquias sociais internas às nações. A esta importante conclusão nós voltaremos depois. Os estímulos
do modernismo
Vou falar primeiro dos aspectos positivos dessa cultura, porque existem pelo menos dois, apesar do fato que talvez todos nós nos inclinemos a ter uma relação crítica a ela como um todo. Em primeiro lugar, trata-se de uma cultura de inclusão, cujo crescimento certamente ajudou a dar impulso na evolução para sociedades com menos discriminações. Em segundo lugar, é uma cultura dinâmica, que talvez de forma inconseqüente, mas com relativa freqüência, premia a criatividade e a iniciativa. Não desprezemos esses valores, que muito contribuem para a sua força de atração e disseminação. Porém observemos também que esses valores têm o seu lado obscuro. Com o inclusivismo normalmente caminha o desprezo ou a minimização das diferenças, enquanto o culto do novo costuma acompanhar o esquecimento do velho. Além disso, a conversão rotineira de todos os valores em contabilidade e números de balancete tende a fazer esquecer que por trás está uma realidade complexa que deve ser tomada em alta consideração. Pelo jeito, essas abstrações atraem principalmente os homens, e de fato a cultura do comércio continua altamente machista, apesar de todas as mudanças sociais das últimas décadas. Os perigos da
liberdade do cliente
Há uns dez anos, o norte-americano Francis Fukuyama publicou um ensaio sobre o "Fim da História". Nele argumentava que a vitória da cultura do comércio (ele a chamava por outro nome, não importa) sinaliza o ápice da evolução social: tendo vencido, essa cultura saberá se manter para sempre. Para ele, portanto, a diversidade histórica, de que trata o tema do nosso Congresso, é algo que deva ser superado, abandonado. Histórias diversas, mas um futuro. Essa ideologia tem uma força motriz: seus adeptos sentem-se como que surfando nas ondas da evolução mundial. Em Quebec certamente estão funcionando convicções parecidas. Com o Esperanto
para a Eternidade
Lembremos, como já mencionei, que o sistema de comunicação mundial não se baseia na razão - ninguém o planejou - mas em interesses, não apenas dos estados, mas também das etnias, classes e outros detentores de poder na vida política e econômica. A comunicação internacional ou, mais amplamente, intercultural está coordenada com as hierarquias sociais dentro das nações. Pensem, por exemplo, quanto poderia mudar o status dos falantes de espanhol dos Estados Unidos se o espanhol atingisse o mesmo nível de uso internacional que o inglês; ou, de forma inversa, como o prestígio do russo como língua internacional desabou após a queda da União Soviética. Então eis aqui um princípio geral: não se pode mudar o sistema lingüístico mundial sem mudar os sistemas lingüísticos nacionais, em conjunto com as relações sociais que eles representam. A disseminação da Internet já traz mudanças sensíveis no sistema de comunicação do mundo, que nem as instâncias nacionais nem a cultura do comércio conseguem controlar. A disseminação do Esperanto promete uma subversão ainda mais revolucionária - não o fechamento, mas exatamente uma reabertura das portas da História. Porque embora a cultura do comércio seja transnacional, ela depende das nações, organizadas em estados, para fabricar seus mercados. Sistemas educacionais, legislações, meios de comunicação homogeneizantes são necessários para vencer a diversidade e educar consumidores de acordo com as necessidades do comércio de massa. O Esperanto simplesmente não funciona nesse esquema, porque ele nunca se tornou instrumento das relações hierárquicas entre etnias e classes sobre as quais se baseia o sistema do estado, nem existem razões para adotá-lo como língua da vida econômica cotidiana. É um outro tipo de língua. E se nós já chegamos a essa conclusão, nós podemos perguntar mais: que tipo de língua? Que tipo de cultura ela representa? E que tipo de liberdade, que futuro ela oferece? Para me guiar nessa pesquisa, não encontrei instrumento melhor que o Manifesto de Praga, que lista e explica brevemente sete premissas essenciais do movimento pelo Esperanto. Vou segui-las na ordem, questionando em cada caso como a via de Quebec e a via da Cidade do México diferem entre si.
Os esperantistas, por outro lado, costumam exagerar na direção contrária: suas declarações às vezes dão a impressão de que com a mudança de algumas leis poder-se-ia garantir a preservação de todas as línguas e a igualdade para seus falantes. Existem no entanto grandes diferenças entre uma língua usada oralmente por uns milhares de pessoas e uma língua integrada na economia industrial de cem milhões. Princípios e leis não mudarão isto. O que nós aqui na Cidade do México propomos é uma base radicalmente nova para a busca de soluções eficientes e justas: ou seja, relacionar-se numa igualdade de comunicação. Nunca se tentou isto. Sempre na história humana os mais fortes estabeleceram a estrutura de comunicação, fazendo-a parecer neutra, absoluta, indiscutível. As experiências comprovaram-na um instrumento mais poderoso que as armas e as moedas. Você ainda se admira que em Quebec não se queira nem ouvir falar sobre o Esperanto? Não só não querem ouvir: eles não podem ouvir, pois essa idéia subverteria a visão de mundo que eles têm.
O orgulho de discordar
Poucas pessoas ainda têm consciência de que existe uma alternativa à via de Quebec. Ainda menos pessoas têm consciência do papel-chave que o Esperanto pode desempenhar nisso. Temos então que cultivar essa consciência! A história e seu maravilhoso patrimônio de diversidade humana não devem acabar em nós! Pode-se escolher: são necessárias apenas a consciência e a vontade. Vamos desenvolver e fortalecer isto, aqui em nosso Congresso e voltando para casa, para que nosso apelo atinja aqueles milhões que batalham pela verdadeira liberdade - não a liberdade do comércio, mas a única liberdade merecedora deste nome - a liberdade do homem.
* artigo traduzido pelo Kultura Centro de Esperanto-Campinas |
|
| . | |
| Resolução
do 5o. Congresso Panamericano de Esperanto,
Cidade do México, de 15 a 21 de abril 2001 Tema: "Um continente, diversas histórias" Nesta semana em que representantes dos países de toda a América debatem a união comercial do continente, nós, falantes de Esperanto vindos de todas as regiões da América e de outras partes do mundo, apelamos para uma outra união:
Na Cidade
do México, 21 de abril de 2001.
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30Especialista em comunicação · nome não indicado
Esperanto e Contemporaneidade
Um especialista em comunicação situa o papel do Esperanto no mundo contemporâneo.
| Esperanto e Contemporaneidade
Luiz Signates Jornalista e professor da Universidade Federal de Goiás. Especialista em Políticas Públicas pela UFG. Mestre em Comunicações pela UNB. Doutor em Ciências da Comunicação, pela USP |
|
Conferência proferida em 15 de julho de 2001, na Abertura do 37o. Congresso Brasileiro de Esperanto, em Brasília. Prezados senhores e senhoras: Era o mês de julho de 1905, há exatamente 96 anos atrás.
Lázaro Zamenhof estava em Paris, de onde, no mês seguinte,
se dirigiria para Boulogne-sur-Mer, a fim de participar do primeiro congresso
universal de esperanto. O iniciador da língua internacional acabara
de receber, do dr. Emile Javal, um convite para estabelecer uma cátedra
na Sourbonne e, dali, do centro intelectual do mundo daquela época,
liderar a expansão do movimento esperantista. Conta López
Luna que a oferta fora demais para a sua humildade, e por isso ele a recusou.
No momento seguinte, foi ter com o Marquês Louis de Beaufront, um
ilustre e vaidoso esperantista que, segundo se conta, por razões
de orgulho pessoal, não compareceu ao primeiro congresso. Com Beaufront,
Zamenhof manteve um diálogo singular, cujos pontos principais me
parecem fundamentais para o que pretendo deixar-lhes como contribuição
em forma de comentário, nesta noite.
Ao fazer esta advertência, inspirada na ética democrática, Zamenhof ouviu de Beaufront que este apenas teria restrição a qualquer modificação que viesse a ser feita no idioma. O esperanto deve permanecer tal como o criou, sem acrescentar nem tirar uma só vírgula, e devemos excomungar definitivamente das nossas fileiras os atrevidos que tentarem reformá-lo , afirmou Beaufront, peremptoriamente. A reação de Zamenhof foi dócil, mas precisa. ...
há algum engano na sua forma de pensar , disse ele. E completou:
Um idioma, qualquer idioma, não é uma coisa morta, como
não estão mortos aqueles que o usam. Eu tão só
dei o fundamento. Um idioma não se cria nem se dirige com decretos .
Nunca! , respondeu imediatamente Zamenhof. Que o usem os comerciantes como quiserem, mas o esperanto está absolutamente ligado a um idealismo pelo qual todos devemos lutar: unir os homens por sobre as fronteiras, acabar com as guerras e os ódios, fazer mais felizes os seres humanos. Esse é o verdadeiro fim do esperanto, a sua idéia interna . Isso são tolices, Dr. Zamenhof: nada nem ninguém une
os homens. É muito ingênuo, meu querido doutor .
Esta narrativa está contada no capítulo nove da segunda
parte da obra Zamenhof, iniciador del esperanto , do escritor argentino
López Luna, cuja edição em português foi publicada
em 1959, ano do centenário de Zamenhof, traduzida por Carlos Domingues,
então presidente da Liga Brasileira de Esperanto. López de
Luna descreve o marquês de Beaufront como um homem arrogante e pretensioso,
que anos depois trairia o ideal esperantista, ao propor o idioma Ido, na
verdade uma revisão do esperanto. Esse diálogo entre Zamenhof
e o marquês, apesar de seu estilo romântico, estereotipando
os personagens pela dicotomia do bem e do mal, deixa clara a tensão
sobre a qual pretendo hoje fundar estes meus pequenos comentários.
Em outras palavras, entre Beaufront e Zamenhof, fico com Zamenhof, e
não por uma razão dogmática, dessas que se obriga
a dar razão ao fundador, a fim de preservar uma suposta pureza original
da proposta esperantista. Hoje em dia, não é preciso ser
um cientista social para compreender que não existe pureza original
de coisa alguma; toda pretensão por pureza original não passa
de mera defesa de espaços de poder e legitimação dos
grupos que reivindicam para si a hegemonia da capacidade de interpretação.
Não. Ficar com Zamenhof contra Beaufront implica posições
muito mais sérias e de grande implicação para a compreensão
do que seja ou do que deva ser, no fundo, a proposta esperantista para
o mundo.
A proposta esperantista traz as marcas do idealismo positivista do século 19, mas, pela sua profundidade e pelo seu alcance, também ultrapassa esse referencial. Lázaro Zamenhof lançou os olhos sobre os conflitos interétnicos da Polônia de sua época e traduziu esse conflito a partir do mito de Babel: os homens se matavam porque falavam línguas diferentes. Era preciso, pois, oferecer aos homens uma alternativa idiomática, que lhes possibilitasse enxergar-se como iguais, sem exigir deles a anulação das próprias diferenças, e, para isso, a alternativa tinha que conter em si a realização do ideal da neutralidade. Isso feito, acreditava Zamenhof, e os homens se utilizariam da linguagem naquilo que a linguagem traz como um telos natural: o entendimento seria alcançado e, com ele, a paz. É extraordinário ver como Zamenhof esteve dentro de seu tempo. É seguro dizer que Zamenhof foi um iluminista; a solução para os problema da vida humana deveriam proceder da razão. É também certo afirmar que Zamenhof foi um positivista. A solução racional guarda consigo as marcas da neutralidade científica, que produz, na segurança dos meios, a felicidade dos fins. É ainda correto pensar que Zamenhof foi um idealista, no sentido filosófico, isto é, um não materialista, já que explicava a violência real da vida humana não na concretude das situações econômicas e políticas da existência social, e sim a partir da ausência de uma situação ideal de fala, a do acordo lingüístico, modo de pensar que redundaria na proposta esperantista de inspiração homaranista. Eis, pois, que a solução esperantista se mostra como a cara da Europa do século 19. Fosse o mundo de fato como o descreve o iluminismo positivista europeu do século 19, o esperanto seria hoje o idioma mais falado na Humanidade. Mas, feliz ou infelizmente, a verdade é outra, e, para compreender isso, é preciso lançar os olhos sobre o século vinte e para as profundas e dolorosas transformações que esse período nos trouxe. Transformações, aliás, que atingem em cheio a proposta esperantista nos moldes como a pensou Zamenhof, e que, a meu ver, exigem de movimentos como o esperantista uma profunda reflexão a respeito de suas alternativas para o mundo contemporâneo. Se o século 19 foi o século do sonho racionalista, o sonho
de que a razão, ao desenvolver a técnica e, com esta, viabilizar
a indústria, produziria a abastança e a justiça; já
o século 20 foi o século da decepção com esse
sonho. A crença européia na razão foi duramente questionada
com o advento da segunda guerra mundial. O Estado nazista foi, sem dúvida,
a realização até o limite do Estado racional e industrial.
Com a tragédia nazista, o homem europeu descobre que a razão,
longe de ser neutra ou de garantir o equilíbrio social, pode ser
perversa, que a técnica pode ser artifício de dominação
e desumanização. Mas, não somente isso. À esquerda
do espectro político, o anseio libertário movimentado pelas
idéias marxistas culminaram em Estados totalitários e opressores,
incapazes de responder às grandes questões humanas e às
urgentes necessidades sociais. Pensado para ser o século da abastança
e da justiça, o século vinte foi o século das guerras
mundiais, da reprodução global das desigualdades e injustiças,
todas elas patrocinadas pela razão.
É interessante observar, amigos esperantistas, que, ao trazer a questão da racionalidade para o âmbito da ética, Habermas situa a razão crítica, na qual podemos ainda alimentar as esperanças no futuro da Humanidade, não na economia, não nas relações de poder, mas na linguagem. É pela linguagem que o homem pode se tornar inteligível, verdadeiro, confiante e respeitoso. É pela linguagem que os homens podem ou não se entender. A linguagem, contudo, nesse caso, não é pensada como um idioma, mas sim como o lugar de realização de uma ética. Habermas pensa pragmaticamente: falar é agir socialmente. Habermas pensa politicamente: o sentido da democracia é proporcionar condições de expressão livre para todos, a fim de que todos possam produzir a sociedade justa e fraterna. Sem que tenhamos que produzir uma visão habermasiana do esperantismo, o que seria complicado, forçosamente temos que posicionar o ideal esperantista em face das transformações históricas do pensamento filosófico no mundo contemporâneo. Em outras palavras, parece necessário repensar o movimento esperantista a partir dos referenciais da pluralidade da razão, isto é, do fracasso da razão estratégico-instrumental, e também a partir de uma visão ética da linguagem, esta já observada dentro de um prisma pragmático. E é nesse ponto que se adensa a nossa modesta proposta de reflexão crítica aos companheiros esperantistas. O fracasso da racionalidade instrumental enquanto proposta ética de transformação da Humanidade atinge em cheio o ideal esperantista, pelo menos da forma como tenho observado que ele vem sendo concebido no Brasil. Entre nós, ainda se pretende que a língua seja apenas um instrumento, que contenha em si um conteúdo de neutralidade em relação às ideologias e práticas sociais e, nesse contexto, a proposta esperantista se apresenta como algo que obrigatoriamente não deve se envolver com nenhum dos sentidos ideológicos, culturais e políticos entre os quais desesperadamente se acotovelam os seres humanos. Visto desse modo, é como se o idioma tivesse um valor em si mesmo, uma espécie de essência capaz de se apresentar como alternativa para todo e qualquer sentido da história. Dentro de semelhante abordagem, as atividades dos esperantistas acabam se reduzindo à mera produção de escolas e cursos de idioma, e à busca quixotesca do apoio irrestrito dos mais variados movimentos e instituições, resguardando-se, inclusive, de assumir compromissos ideológicos de qualquer espécie com tais grupos. Uma visão instrumental da linguagem e, por conseguinte, do próprio esperanto, coincide com a idéia do Marquês de Beaufront, em seu célebre entrevero com Zamenhof, e reduz o esperanto à menor de suas contribuições ao futuro da Humanidade. Meus amigos:
Orientada pela racionalidade estratégico-instrumental das economias capitalistas desenvolvidas, a globalização não opera, contudo, uma homogeneização das formas de vida. Aquilo que, para muitos entusiastas, aparenta ser a realização do sonho de Marshal McLuhan da aldeia global, é, na verdade, a abertura em escala mundial das portas de um mundo altamente complexo e perigosamente conflituoso. Interconectado de forma obrigatória, as culturas e civilizações não têm mais a alternativa de se resguardar nos confins de suas próprias identidades. Ante as telas das televisões a cabo e a satélite e dos computadores plugados na internet, não sobrevivem as identidades senão se transformando em identidades globais, difusas, permeadas pelos sentidos da pluralidade, assumindo todos os riscos que essa pluralidade carreia. Identidade global, contudo, não é termo que possa ser usado no singular, e sim no plural, significando conflito, significando a dialética de uma negociação atravessada por interesses econômicos e políticos e por sentidos culturais e sociais de enorme variedade. Além disso, não há um Estado mundial, garantindo direitos e justiça eqüitativa para as populações em situação de exclusão ou subalternidade. A Babel que Zamenhof viu na pequena Bialystok, onde nasceu, se estendeu para o mundo inteiro e alcançou sentidos que ultrapassam em muito o das barreiras idiomáticas. Eis porque, em face da atualidade do pensamento filosófico e lingüístico e das transformações que atravessam o mundo contemporâneo, cabe ao movimento esperantista contribuir para que novas soluções sejam oferecidas. Um mundo violentamente plural é um mundo que clama por uma ética de convivência em termos de alteridade. Este mundo não clama simplesmente por um idioma internacional, mas também por uma ética na qual as diferenças, colocadas involuntariamente em contato, não redundem em guerras sem fim. Os esperantistas, enfim, talvez precisem renovar as idéias básicas de Lázaro Ludovico Zamenhof, quando ele falava em uma idéia interna que presidia a proposta esperantista. Estudando o homaranismo, observa-se claramente que Zamenhof não tinha uma visão puramente instrumental do esperanto, não o concebia como algo desataviado de um propósito muito mais alto do que oferecer um meio de comunicação ou uma solução para a diversidade lingüística. Zamenhof queria a paz, sonhava com o entendimento humano. Ao criar o esperanto, um idioma feito para ser a segunda língua dos povos, um idioma extraordinariamente racional e lógico, sem dúvida uma das mais belas criações do pensamento positivista, ao criar o esperanto, Zamenhof pretendeu, sem dúvida, oferecer uma linguagem neutra, desataviada dos interesses e egoísmos étnicos e nacionalistas mesmo a proposta homaranista trabalha com esses referenciais, e não seria justo cobrar de Zamenhof uma visão clara que apenas se consolidaria na segunda metade do século vinte. Entretanto, jamais quis Zamenhof que o esperanto fosse descomprometido com as causas humanitárias e progressistas alimentadas pelas diferentes sociedades. A discussão com de Beaufront é claríssima a esse respeito. Peço licença para repetir o que ele afirmou ao marquês: o esperanto está absolutamente ligado a um idealismo pelo qual todos devemos lutar: unir os homens por sobre as fronteiras, acabar com as guerras e os ódios, fazer mais felizes os seres humanos. Esse é o verdadeiro fim do esperanto, a sua idéia interna . Eis, pois, que a luta esperantista não é nem pode ser simplesmente pela difusão ou pelo ensino de uma língua. A idéia de uma língua não pode ser um dogma. Não pode subsistir por si mesma. Se, por trás do ideal esperantista, prevalecer uma visão essencialista e instrumentalista da linguagem, o esperanto não será mais do que uma religião idiomática, o que é singular e talvez único no mundo e na história, mas não passará de um exotismo condenado ao fracasso. Isso porque, por trás de uma visão essencialista e instrumentalista da linguagem estará um suposto utilitarista e positivista do ser humano e das relações sociais, algo que já não se sustenta nem filosófica, nem cientificamente. O esperanto, meus amigos, não vale em si mesmo. Seu valor está ligado ao compromisso social que demonstrar com as questões da angústia e do sofrimento humanos. Um movimento esperantista com pretensões de neutralidade e descomprometimento para com as causas da justiça, da democracia, dos direitos e da paz, arrisca-se a definhar a serviço de interesses e de hegemonias vigentes, e a ficar ilhado em grupos sem qualquer expressão social ou política. O esperanto, a meu ver, só vencerá se e quando resgatar o homaranismo, atualizando-o em relação às conquistas da filosofia e da ciência contemporâneas, e colocá-lo como a proposta mãe, à qual a alternativa idiomática irá obrigatoriamente servir. O esperanto, enfim, será avaliado pela história não pela quantidade de pessoas que o falar, e sim pela capacidade que tiver de produzir o entendimento, a solidariedade e a paz social. Muito obrigado! |
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31Autoria não indicada no índice
Monumentos sem fronteiras: ao Esperanto e a Zamenhof
Um percurso por diferentes homenagens ao Esperanto e a seu idealizador, L. L. Zamenhof.
| Monumentos sem fronteiras:
ao Esperanto e a Zamenhof Pekim Tenório Vaz
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O idioma Internacional vive não somente nos livros, revistas, canções, congressos e cursos, mas também sob a forma de ruas, avenidas, praças, parques, casas comerciais, navios, asteróides e outros objetos denominados Esperanto ou Zamenhof . Há 1.044 de tais objetos* em 54 países dos cinco Continentes. No nosso país essas homenagens chegam a 161, no caso da França e da Polônia esses números são, respectivamente, 133 e 107. O navio Esperanto lançado ao mar, no litoral da Espanha, em 1896, singrou os mares até 1966 e tem uma grande importância para nossa causa: foi o primeiro objeto a homenagear o Idioma Internacional, ademais, haviam transcorrido somente nove anos após o aparecimento desse idioma. A primeira rua Zamenhof foi inaugurada em Limoges (França), no ano 1912. No Brasil, a primeira rua Esperanto foi inaugurada em 1913 no bairro Campo Grande, na cidade do Rio de Janeiro. Alguns exemplos de objetos que nos trazem à memória a
Língua Internacional ou o seu criador, L. L. Zamenhof, presentes
nos quatro cantos do planeta são citados a seguir.
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Monumento a Zamenhof - Campinas (SP) - Foto: D. Deslandes |
- Há ruas ou praças Esperanto ou Zamenhof nas cidades seguintes: a) No Brasil:
b) No estrangeiro:
- Jardins ou parques foram batizados com o nome Esperanto nos seguintes
lugares:
- Paradas de ônibus denominadas Esperanto evocam esse idioma
em muitas cidades:
|
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- Hotéis com o nome Esperanto estão presentes nas cidades abaixo: Bydgoszcz (Polônia), Polski Trambesh (Bulgária), Strumica (Macedônia), Qingdao (China) e Pribylina, situada na região turística das montanhas Tatry (Eslováquia). - Empresas ou casas comerciais Esperanto existem nas cidades mencionadas
a seguir:
- Escolas cujo nome oficial é Esperanto existem nas cidades
listadas abaixo:
- Museus e Bibliotecas especializados no Esperanto:
No IEM estão expostos manuscritos, máquinas de escrever antigas com tipos em Esperanto, fotos, cartões e selos postais, fitas cassetes de áudio e vídeo, CD s e outros objetos relacionados à história e à divulgação desse idioma. O IEM é parte integrante da Biblioteca Nacional da Áustria (Oesterreichische Nationalbibliothek). 2) Museu Espanhol do Esperanto, na cidade de San Pablo de Ordal:
3) Biblioteca Alemã do Esperanto, na cidade de Aalen:
4) Há um Museu Esperanto em Gray (França) e outro em Jerusalém (Israel); 5) Em Massa (Itália) há uma Biblioteca e Arquivo Esperanto com 7.250 volumes; 6) Há uma seção dedicada a esse idioma internacional
nas seguintes instituições:
- Casas Culturais Esperanto enriquecem o patrimônio de algumas
cidades:
- Árvores foram plantadas e dedicadas ao Esperanto em diversos
locais:
- Há um restaurante Esperanto nas cidades seguintes:
Homenagens únicas em seu tipo ou categoria: - uma belíssima tulipa holandesa, de pétalas vermelhas
com estrias verdes, identificada em 1968, foi registrada oficialmente com
o nome Esperanto ;
O mundo extraterrestre conhece a Língua Internacional: - o astrônomo finlandês Yrjö Väisälä descobriu dois asteróides (que orbitam entre Marte e Júpiter), um em 1936 e outro em 1938, e os denominou Esperanto e Zamenhof , respectivamente; - A NASA gravou um disco de ouro, com diversos sons da Terra: trovões,
chuvas, trens, vento, fogo, vulcões, animais, aves, beijos, canções
e músicas de vários países, ...., e também
dois grupos de mensagens um em 55 idiomas diferentes (Armeno, Bengali,
Hitita, Indonésio, Japonês, Português, Russo, Quétchua,
Sueco, etc.), e outro constituído de 15 mensagens gravadas por embaixadores
da ONU, também em distintas línguas, entre essas o Esperanto,
- Eis parte da saudação, nesse idioma, feita pelo Sr. Ralph
Harry, embaixador da Austrália junto à ONU: Ni strebas
vivi en paco kun la popoloj de la tuta mondo, de la tuta universo ....
Mi salutas æiun, kiu komprenas. Adiaý.
Esse disco, e uma cópia idêntica, foram transportados, cada um dos dois, nas naves gêmeas Voyager I e Voyager II, lançadas em 1977, as quais já realizaram investigações referentes aos planetas Júpiter, Saturno, Urano e Netuno, e continuam a executar diversas pesquisas científicas sobre, p.ex.: raios cósmicos, campos magnéticos, e plasma. Cumpriram suas tarefas concernentes a esses planetas, e atualmente deslocam-se na região limítrofe do Sistema Solar (a Voyager II ultrapassou Netuno em 1989), a caminho do espaço escuro, frio, incomensurável - a Voyager I encontra-se a uma maior distância do nosso mundo, pois sua velocidade é maior que a da Voyager II. Segundo o projeto, continuarão a enviar dados científicos aos laboratórios da NASA até cerca de 2020. Depois dessa época, suas trajetórias, no Cosmos infinito, serão uma incógnita, não obstante, espera-se que sejam capturadas por alguma civilização de outro sistema estelar, e supõe-se que os seres desse mundo longínquo sejam capazes de ler/ouvir os discos que levam sinais de um minúsculo planeta a Terra. |
|
| . | |
| Fonte: | |
| RÖLLINGER, Hugo.
Monumente pri Esperanto, Rotterdam: Universala Esperanto- Asocio, 1997, 112p. { * dados atualizados até dez./ 1996 } |
Artigos das páginas virtuais da: Sennacieca Asocio Tutmonda (Associação Mundial Anacional), Virtuala Esperanto-Biblioteko, Unuiøo Franca por Esperanto (União Francesa pelo Esperanto) e NASA. |
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32Tradutor brasileiro · Japão
Uma experiência de uso do in-gu-ri-shu
Um tradutor brasileiro relata uma experiência linguística vivida no Japão.
| Uma experiência
de uso do
in-gu-ri-shu Lucas Yassumura
|
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Ou esse jornalista é muito ingênuo quando escreve que "no Japão, na China e nos Tigres Asiáticos, de tradições seculares, no Oriente Médio, na América Latina, na Africa (...) e em qualquer esquina do planeta é possível comunicar-se em inglês", ou ele está sendo pago por escolas de inglês para dizer isso, ou ainda bebeu muito e está com uma terrível dor de cabeça, a ponto de não saber mais o que fala (ou escreve). Eu morei por três anos no Japão, falo inglês e espanhol fluentemente, sou tradutor profissional desses dois idiomas e possuo um bom nível de comunicabilidade e leitura em japonês. Tive a grande oportunidade de viajar para vários países da America do Sul a negócios. Quando cheguei no Japão, a primeira coisa que fiz (como qualquer pessoa sensata faria) depois de dar entrada no setor de imigração, foi procurar por informações... e é claro que o fiz em inglês. Quase não pude entender o que o distinto funcionário do aeroporto falava! A pronúncia do "in-gu-ri-shu" (English) dele era tão horrível que acabamos tendo de nos comunicar por escrito. Nas ruas do Japão, NINGUÉM fala em inglês e aqueles que tentam, só balbuciam sílabas quase incompreensíveis. Uma vez tive de dirigir um carro cujo nome era "Bluebird" (da Nissan, se não me equivoco), mas o japonês que me deu a chave do carro me disse: "você vai dirigir o 'buruubaado'...". Eu, ainda aprendiz do idioma nipônico, nem imaginei que o tal "buruubaado" pudesse ser uma palavra inglesa, mas japonesa. Então pedi ao meu interlocutor que repetisse o nome do carro, ao que ele se irritou e gritou em minha cara: "você não disse que fala em inglês???? é um nome inglês, estúpido!!! "buruubaado", viu!!!". Fiquei estarrecido. Como eu não conseguia de nenhuma maneira entender o que ele me dizia, pedi-lhe humildemente que me levasse até o carro. Ao chegar no estacionamento, eis que vi a palavra "Bluebird"... Tentei corrigir a pronúncia do japonês, mas ele não aceitou que um 'brazuca' pudesse corrigi-lo, um cidadão do chamado primeiro mundo... A experiência não pára por aí. Tive muitos contatos chineses durante a minha estada naquele país e depois aqui no Brasil, em uma empresa que possuía filiais em Taiwan. Logicamente a comunicação era feita em inglês, mas a penosos sacrifícios, já que o aparelho fonador do chinês só consegue reproduzir cerca de 120 sons possíveis, contra os cerca de 1120 catalogados da língua inglesa (v. O Desafio das Línguas, de Claude Piron). É uma tarefa hercúlea entender os chineses, os japoneses e os coreanos falando em inglês! Para piorar ainda mais o cenário, o jornal Le Monde publicou um artigo em 18 de abril deste ano que dizia sobre os pais coreanos estarem mandando seus filhos para uma operação nas línguas, de maneira que elas pudessem ficar mais compridas e, com isso, terem uma melhor habilidade com a língua inglesa (atenção: é só com a língua inglesa que esses pais coreanos estão preocupados...). É estarrecedor o ponto onde chegamos (quem quiser averiguar deve entrar no site http://www.lemonde.fr). Já dentro do nosso contexto latino-americano, nunca precisei
falar com os nossos vizinhos em inglês, mas quando o fiz, arrependi-me
amargamente. Embora haja um esforço louvável de nossos irmãos
E por falar nos brasileiros, vocês já viram um aluno de nível intermediário ou avançado conversando com um nativo? É de se lamentar, principalmente com relação à quantidade de palavras derivadas do latim existentes no inglês, que ele pensa estar usando corretamente, quando na verdade, deveria usar um composto 100% anglo-saxão. Já tive a oportunidade de escutar alguém falando "please, speak more rapid", quando, na verdade, o mais próximo do correto seria "please, speak faster" (por favor, fale mais rápido). O inglês tem dessas coisas: quase sempre há duas palavras para uma mesma idéia, sendo uma delas proveniente de raízes genuinamente anglo-saxônicas, e outras do latim. "Rapid" e "fast" (que também pode ser, dependendo do contexto, "quick") é um pequeníssimo exemplo disso. Isso tudo sem falar na pronúncia anasalada, tipicamente brasileira, e na troca constante do som de "r-enrolado" com o "h-aspirado". Vejo com freqüência estudantes falando "red" (vermelho), como "had" (passado do verbo ter), misturando as pronúncias e causando, algumas vezes, uma pequena confusão lingüística. É possível escrever um livro inteiro com as absurdices do aprendizado do nobre idioma inglês, mas não é esse o intuito. O inglês é um idioma maravilhoso, lindo e melodioso, com uma extensa literatura (nativa) e que dá a nós, pesquisadores e profissionais, muito campo de trabalho. Entretanto, para mim ele é tão somente um idioma, como o é o espanhol, o italiano, o francês, o alemão, o grego, o russo, o japonês, o chinês, o latim e o sânscrito. São todos igualmente maravilhosos, ricos e cheios de curiosidades, cada um com suas melodias e características próprias. Contudo, aos fanáticos pelo inglês, fica a pergunta: É possível comunicar-se em inglês em qualquer canto do planeta? É claro que não! Isso é falta de compreensão profunda sobre o tema, mas como sabemos, jornalistas não se preocupam em se aprofundar nas questões sobre o que vão escrever (salvo as raras exceções). Em contrapartida, tive a grata oportunidade de me comunicar em esperanto com algumas pessoas desses mesmos lugares citados pelo jornalista santista. Ainda tenho, através do excelente programinha Paltalk e das salas de bate-papo criadas pelo nosso nobre colega e batalhador do esperanto Emilio Cid. É incrível como até mesmo um chinês e um japonês conseguem falar e se comunicar em esperanto, ainda que com sotaques carregados. Será que esse jornalista experimentou algo similar para poder dar aquela afirmação em seu artigo? Vários colegas ao redor do mundo, muitos dos quais se apresentam apenas uma ou duas vezes no Paltalk, fazem-se entender com uma facilidade de causar inveja a qualquer professor de inglês e espanhol (sei muito bem do que estou falando, pois também dou aulas dessas línguas). Se o esperanto ainda não cumpriu o seu definitivo papel como verdadeira língua internacional, acredito firmente que ele está ocupando um espaço considerável no contexto mundial. Seus efeitos são imediatamente sentidos quando alguém o aprende (devida e corretamente) em qualquer lugar do planeta. O inglês só ocupa a posição em que está por causa de uma intensa propaganda jorrada em todos os meios de comunicação do mundo todos os minutos. Agora mesmo tive de usar uma palavra inglesa porque é o nome do programa a que me referi acima (Paltalk). E vocês, caros leitores, estão usando provavelmente a "Internet", lendo este "email" através do "Outlook Express", ou "MS-Outlook", ou "Eudora", ou qualquer outro leitor de "emails", cujo nome é em inglês. Usamos a língua inglesa a todo instante porque SOMOS OBRIGADOS. Vejam se, nos seus aparelhos eletrônicos, os nomes dos botões estão em português. É bem provável que não, salvo algumas exceções (feitas por empresas conscientes). Só que eu ainda tenho de apertar o "play" no meu videocassete quando quero assistir a um filme. Por que eu não poderia apertar "executar"? É por pura pressão comercial, só por causa disso. Isso sem mencionar que, quando vamos no cinema, vamos provavelmente assistir a um filme estadunidense (em inglês), ouvimos as canções nesse idioma etc. etc. Daí ele estar tão forte e ter tanto apelo. É como aquela música sertaneja (odeio música sertaneja) que fica insistentemente tocando nas rádios, canais de televisão, lojas, supermercados... De tanto escutar, acaba-se decorando a letra e, quando menos percebemos, estamos cantando. Aprende-se a gostar por osmose. É exatamente isso o que tem acontecido com o inglês, falando em termos bastante genéricos. Quanto a querer fazer dele um instrumento de comunicação internacional... Não sei, não... Ele está mais para o Volapük, que na forma escrita funciona perfeitamente, mas quando falado, é um desastre. É isso! |
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33Autoria não indicada no índice
Dos custos de uma língua em comum
Uma análise compara os custos de aprender uma língua estrangeira com os de aprender Esperanto.
| Dos custos de uma
língua em comum
Ottó Haszpra Artigo publicado na revista "Esperanto", Fevereiro 2003. Ttraduzido do Esperanto para o português pelo KCE e aqui reproduzido com a gentil permissão do autor. |
|
| 1. Notas Introdutórias É crença disseminada que o custo do plurilingüismo signifique os custos lingüísticos das instituições internacionais como a ONU, UNESCO ou da União Européia. De fato, as muitas centenas de milhões de dólares que vão para os serviços lingüísticos das organizações internacionais são uma ninharia se comparados aos custos do aprendizado de uma língua nacional que seja obrigatória como língua em comum para todas as pessoas. Estou convencido de que a União Européia precisa ter
uma língua em comum, que todos seus cidadãos compreendam
bem, falem e escrevam sobre temas cotidianos e de suas próprias
profissões, o que hoje apenas a elite lingüística
é capaz de fazer. Ao mesmo tempo, as línguas maternas
devem ser protegidas, usadas livremente e continuar a evoluir. O aprendizado
da língua em comum deve ser fácil para qualquer cidadão
de capacidade média, não deve roubar energia das línguas
maternas e A língua em comum deve ser uma língua nacional, o inglês por exemplo? 2. Considerações sobre o aprendizado do inglês
(e outras línguas nacionais) Uma pessoa de capacidade média pode dominar o inglês (ou outra língua de dificuldade média) após cerca de 2 mil horas de dedicação para poder utilizá-la satisfatoriamente bem em conversações cotidianas e em sua especialidade (o que no entanto não chega a ser o nível de um falante nativo!) A cada ano cerca de 1,5% da população deve surgir como um novo proficiente em língua estrangeira. Por exemplo, na Alemanha, com 80 milhões de habitantes, isto significa 1,2 milhões de cidadãos que já estudaram cerca de 2 mil horas uma língua estrangeira. Se considerarmos o salário médio em 5 euros por hora, um estudante de língua estrangeira presta um trabalho gratuito no valor de 10 mil euros (ou dólares), enquanto que o tempo total de estudo em 2,4 bilhões de horas tem um equivalente de 12 bilhões de euros/ano. Dos 440 milhões que não são de língua inglesa, dentre os quase 500 milhões de habitantes da União Européia, a cada ano deverão surgir novos 6,6 milhões de proficientes em uma língua estrangeira, o que significa 13,2 bilhões de horas de dedicação, ou seja, 66 bilhões de euros a cada ano. Adicionando-se os custos do ensino, o total será de 73 bilhões de euros/ano. Os falantes nativos do inglês na União Européia não perderão tempo nem dinheiro no aprendizado do inglês. Eles poderão utilizar esse tempo para um estudo mais aprofundado de sua profissão ou numa atividade remunerada (por exemplo no ensino de sua língua materna a estrangeiros). Se toda a população da Terra, 6,4 bilhões de pessoas (dos quais se tiram 400 milhões, ou seja, os 6,2% de falantes nativos do inglês), tiver que dominar o inglês, serão 90 milhões de novos proficientes a cada ano, que dedicarão 180 bilhões de horas de estudo, ou 900 bilhões de euros por ano. Acrescentando-se aos custos do ensino de língua estrangeira, o total atinge cerca de 1 trilhão de euros/ano. Deve-se notar que em 1999 as 15 maiores potências gastaram juntas 570 bilhões de dólares (ou euros) em defesa. Para que o mundo todo aprenda o inglês será necessário quase o dobro. [N.T.: Para efeito de comparação, o PIB brasileiro em 2000 foi de 596 bilhões de dólares (euros)] 3. Considerações sobre o aprendizado do Esperanto Ser fluente em Esperanto exige em média apenas 200 horas de estudo/aluno, portanto aceitar o Esperanto reduziria em dez vezes o tempo e o equivalente financeiro (custo) do aprendizado, em comparação ao inglês. Na Alemanha, com 1,2 milhões de novos proficientes/ano, o custo individual seria apenas 1000 euros/aluno. No país todo, o aprendizado precisaria de 240 milhões de horas/ano ou 1,2 bilhões de euros/ano. Somando-se os custos de ensino, o total seria 1,3 bilhões de euros/jaro. Na União Européia para toda a população (de língua inglesa ou não) com 7,5 milhões de novos proficientes/ano seriam aplicadas 1,5 bilhões de horas/ano, ou 7,5 bilhões de euros/ano. Com os custos de ensino, cerca de 8,3 bilhões de euros/ano. No mundo, da população total deveriam surgir 96 milhões de novos proficientes a cada ano, que ocupariam 192 bilhões de horas de estudo, cujo equivalente financeiro seria - se nesse tempo um tanto distante no mundo todo houvesse níveis de vida e salários equivalentes aos da Europa - 96 bilhões de euros/ano. Com o acréscimo do custo do ensino, o total seria de cerca de 105 bilhões de euros/ano. 4. Conclusões Escolher o inglês como língua em comum significa não
apenas uma discriminação política, mas provoca
também uma piora da capacidade de competição e
queda no nível de vida de quem não é falante nativo
(pelos impostos que devem ser cobrados para cobrir os custos de manutenção
da atual geração que estuda a língua), enquanto
que a escolha do Esperanto não provoca discriminação O Esperanto como segunda língua em comum não impõe qualquer obstáculo contra o aprendizado de quaisquer outras línguas. Pelo contrário, saber Esperanto facilita em muito o aprendizado de outras línguas, seja de línguas oficialmente obrigatórias (para minorias em alguns países), seja de outras escolhidas por prazer. O Esperanto ajuda a elevar até o domínio e o nível da língua materna. Veja detalhes nas referências abaixo:
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34Claude Piron · Suíça
Por que o alfabeto latino, se o Esperanto se propõe universal?
Claude Piron discute a escolha do alfabeto latino e as alternativas para uma escrita internacional.
| Por que o alfabeto latino, se o Esperanto se propõe universal? Claude Piron |
Precisamos poder escrever e o alfabeto é mais prático que outros sistemas de escrita (ideogramas chineses, hieróglifos etc.). Não existe um alfabeto que seria adequado para o mundo inteiro. Exceto se pensarmos em algo totalmente novo, é inevitável que haja povos para os quais escrever e ler em Esperanto seja mais fácil que para outros. A escrita latina não é o sistema mais justo, apenas o menos injusto para a maioria. Pode-se olhar para isto como uma solução provisória, uma solução prática do problema, se um dia for decidido a elaboração de um alfabeto universal para a língua mundial. A escrita, com relação à língua, não é algo realmente essencial; é para uma língua como uma roupa está para o corpo. Se a maioria da humanidade preferisse, poderíamos vestir o Esperanto com outra escrita, mas de forma provisória o sistema funciona perfeitamente. Passar a um novo alfabeto inventado implicaria em muitos problemas técnicos. O alfabeto latino é o que usa a maioria das línguas hoje escritas. Geograficamente ele cobre
Em grandes federações, como foi a União Soviética e hoje é a Índia, diversas línguas têm seu próprio sistema de escrita; em outras palavras, não existe um único alfabeto ou sistema para o país inteiro. Não faria sentido dar preferência a um desses ao invés do alfabeto latino. Algumas línguas antes se escreviam com outro alfabeto. O turco, o swahili e o malaio usavam o alfabeto árabe, mas passaram para o latino. O vietnamita usava antigamente a escrita chinesa, mas desde o século XVII adotou-se o latino. O moldavo, que se escreveu com o alfabeto cirílico durante o período soviético, desde a queda da União Soviética se escreve com o alfabeto latino. É verdade que um bilhão de chineses usa os ideogramas, e este número pode ser impressionante, porém:
Pelo fato de que o inglês se tornou a primeira língua estrangeira na maior parte do mundo, 95% dos alunos de escolas de segundo grau que usam em sua própria língua outra escrita, aprendem as letras do alfabeto latino. Isto vale para a Coréia do Sul, o Irã (onde se pode escolher o francês, mas nada muda quanto ao alfabeto), a Índia, o Paquistão e muitos outros países (todos os árabes, se não me engano). O mesmo vale para a maioria dos alunos na Rússia, Ucrânia, Grécia e similares. No Japão, já na idade de dez anos todos os alunos aprendem nosso alfabeto. No Marrocos, Argélia e Tunísia as crianças aprendem a escrever em francês. Já que, diferentemente do inglês, em Esperanto a cada som corresponde uma letra e vice-versa, ler e escrever no alfabeto do Esperanto para jovens que já conhecem as letras, portanto para a imensa maioria que tenha passado do ensino fundamental, é uma meta que se pode alcançar relativamente rápido. É fácil criticar. É mais difícil apresentar uma alternativa útil e justa. O que os críticos do alfabeto latino propõem como sistema de escrita para uma língua mundial? Os que dizem "o Esperanto não é aceitável porque usa o alfabeto latino" deixam o problema sem solução. Mas uma solução é necessária. Na prática eles obrigam as pessoas que desejam poder se comunicar internacionalmente a usar a língua inglesa. Isto não só as obriga a dominarem o alfabeto latino, como também a usá-lo de uma forma muito menos fácil. |
Claude Piron é psicólogo e professor, e trabalhou no serviço de tradução da ONU e da OMS-Organização Mundial da Saúde. *traduzido pelo Kultura Centro de Esperanto-Campinas. |
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